ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A vida é desafio

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Não esqueço aquele dia. Depois de muitas aulas, de intenso trabalho, eu estava desanimado. Na época, ia e voltava pedalando do trampo pra casa. O sinal fechou. Olhei para o lado e vi dois jovens, numa espécie de dueto-rap-poesia. Cada um completava a frase do outro.

- Eu vejo o rico que teme perder a fortuna.
- Enquanto o mano desempregado, viciado, se afunda.
- Falo do enfermo, irmão, falo do são, então...
- Falo da rua que pra esse louco mundão!
- Que o caminho da cura pode ser a doença.
- Que o caminho do perdão às vezes é a sentença.
- Desavença, treta e falsa união.
- A ambição como um véu que cega os irmãos.
- Que nem um carro guiado na estrada da vida.
- Sem farol, no deserto das trevas perdidas.
- Eu fui orgia, ego louco, mas hoje ando sóbrio.
- Guardo o revólver quando você me fala em ódio.
- Eu vejo o corpo, a mente, a alma, o espírito.
- Ouço o refém e o que diz lá no canto lírico.
- Falo do cérebro e do coração.
- Vejo egoísmo, preconceito de irmão pra irmão.
- A vida não é o problema, é batalha, é desafio.
- Cada obstáculo é uma lição, eu anuncio.

Eles me viram atento às suas falas. Segundos depois, completei:

- É isso aí, você não pode parar. Esperar o tempo ruim vir te abraçar. Acreditar que sonhar sempre é preciso... É o que mantém os irmãos vivos!

Sorrimos todos. Num encontro tão inusitado, uma velha letra dos Racionais MC’s uniu pessoas que sequer se conheciam. Ao menos por um instante. Na rua e para a rua.

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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Se o ódio dominar, quem vai sobrar?


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Quando eu tinha 12 anos, um acontecimento mudou a minha vida. No Gigantinho, presente na final do Mundial de Futebol de Salão, acompanhava eufórico aquele Inter x Barcelona. Tá, mas esse não é um relato esportivo.

No decorrer da peleia, visualizei um jornalista que me dava asco. Não havia motivos muito concretos, apenas a presunção de que ele torcia para o rival. Com ele na mira, disparei em alto e bom tom, letra por letra e na esperança de que o profissional não me achasse no meio do povão: "Fulano fdp!!!".

Foi horrível. Não somente ele me viu, como apontou para mim imediatamente. Por um instante, achei que o adulto da situação agiria como uma criança, reagindo com ódio e violência. Ao identificar aquele fedelho magrelo e esquisito como o sujeito que havia proferido a agressão verbal, um tom de tristeza tomou conta do seu semblante. Sem falar nada, ele abriu os braços e esboçou uma feição de abatimento, desesperança e incredulidade.

Hoje, aquela expressão do ainda jornalista esportivo retrata o que sinto perante o ódio, a intolerância e a violência que acometem as redes sociais e os comentários nos portais da internet. Só consigo pensar na lição que comecei a aprender aquele dia: quando o ódio dominar, pode não sobrar ninguém.

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quinta-feira, 21 de maio de 2015

O que é comunismo?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No Brasil atual, alguns grupos de pessoas têm defendido a tese de que estamos vivendo no comunismo ou, pelo menos, caminhando para um regime comunista. A tese é bastante absurda, mas tem se espalhado por aí. Vejamos o que diz o sociólogo e professor Allan Johnson (1997, p. 46), da Universidade de Wesleyan, em Middletown, Connecticut, Estados Unidos.

(…) Da forma descrita por Karl Marx, comunismo é um modo de produção no qual os meios de produção e virtualmente todos os demais aspectos da vida social são controlados pelos que deles participam mais diretamente, isto é, pelos trabalhadores, membros da comunidade, e assim por diante. A vida das pessoas é organizada menos em torno da cobiça, competição e medo do que da satisfação de necessidades humanas autênticas, cooperação e compartilhamento. A base material da comunidade é a capacidade de produzir abundância de bens. A base social inclui ausência geral de propriedade econômica privada, divisões de classe social, desigualdades em riqueza e poder e instituições opressivas, como o Estado.

Marx imaginava o comunismo como o resultado inevitável do socialismo, o qual acreditava que seria consequência de transformações revolucionárias das sociedades capitalistas industriais. Após a derrubada do capitalismo, o Estado governaria em benefício dos trabalhadores e asseguraria que não haveria contra-revolução capitalista. Com a passagem do tempo, contudo, o Estado perderia sua razão de ser, uma vez que o controle dos ritmos da vida social seria cada vez mais concentrado no nível local, entre os mais diretamente envolvidos. O Estado, acreditava Marx, simplesmente murcharia.

Uma vez que não houve revoluções socialistas em sociedades industriais avançadas, tampouco houve sociedades comunistas segundo o modelo marxista, embora muitas sociedades socialistas tenham sido erroneamente rotuladas como tal (sobretudo porque, embora na prática fossem socialistas, sua ideologia era comunista). O mais perto que a experiência humana chegou do comunismo foi entre as sociedades tribais, em especial entre as que se entregavam principalmente à coleta de alimentos como meio de subsistência. Resta a ser visto se o comunismo pode ser implantado em sociedades industriais avançadas.

Referência

JOHNSON, Allan. Dicionário de Sociologia: Guia Prático da Linguagem Sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

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