SOCIOLOGIA EM CONSTRUÇÃO ARTESANAL / ANO 13

América do Sul, Brasil,

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Liberdade em 2020

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Nesse ano, algumas vezes pensei, como Cecília Meireles: liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Noutras vezes, questionei parte da filosofia política moderna. Indaguei se a liberdade seria um direito natural e como os governos deveriam, no mínimo, proteger esse direito dos seus cidadãos. De todos os que estão vivos.

Vira e mexe, sinto a sabedoria popular gritar com força: a tua liberdade acaba quando começa a do outro. Nesse caldo, como nunca, lembrei muitas vezes que uma ação minha pode determinar a saúde de outras pessoas.

Viver é oscilar entre o peso e a leveza da existência. Enquanto se naturaliza a morte e se banaliza a vida, escuto Maya Angelou: só é possível ser livre, se todos o forem. Pra 2021, vacina e punição para os genocidas seria um bom início.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Artigo: Condição de classe e desempenho educacional no Brasil

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Para quem tem interesse em entender as relações entre desigualdades e educação formal, vale dar uma olhada no artigo indicado no link abaixo, que recém publiquei na Revista Educação & Realidade (Faced/Ufrgs).
 
 
Condição de classe e desempenho educacional no Brasil
O texto não avança muito nas análises teóricas, mas apresenta muitos dados sobre os principais aspectos que influenciam o desempenho dos alunos na escolarização básica.

Os dados são de antes da pandemia e de antes dos volumosos cortes de recursos que a educação pública vem sofrendo desde 2015.

Hoje, diversas evidências apontam para o aumento do impacto das desigualdades de classe no contexto educacional, o que reforça a importância da discussão proposta no artigo.
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O racionalismo aplicado de Bachelard

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A Aula 07 do Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais tem como objetivo apresentar com precisão a filosofia da ciência de Gaston Bachelard, que ficou conhecida como “racionalismo aplicado” ou "filosofia do não".

Acompanhe para visualizar a aula:
Plano de Aula - O racionalismo aplicado de Gaston Bachelard


A aula está organizada da seguinte forma: (1) uma apresentação do contexto da obra de Bachelard e de um apanhado geral das suas reflexões; (2) uma apresentação do “racionalismo aplicado”, a perspectiva epistemológica do autor.

Cabe lembrar que a melhor forma de acompanhar este curso é fazendo as leituras dos textos indicados no início das aulas, visualizando as aulas em vídeo na ordem proposta no Plano de Trabalho, estudando os Planos de Aulas e fazendo anotações próprias em caderno ou bloco.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O realismo crítico

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A Aula 06 do Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais tem como objetivo caracterizar com precisão o realismo crítico, como proposta ontológica capaz de abarcar a epistemologia, de inspiração direta na obra dos filósofos Roy Bhaskar e Rom Harré.

Acompanhe para visualizar a aula:
Plano de Aula - O realismo crítico


A aula está dividida em três partes, abordando os seguintes pontos, sempre enfatizando a proposta ontológica e epistemológica implicada na junção do realismo transcendental com o naturalismo crítico.

1) Uma apresentação do contexto de discussão em que o realismo se situa;

2) Uma apresentação das principais características do realismo transcendental;

3) Uma apresentação das principais características do naturalismo crítico, e sua reconfiguração no chamado "realismo crítico", a partir da obra de Roy Bhaskar.

Cabe lembrar que a melhor forma de acompanhar este curso é fazendo as leituras dos textos indicados no início das aulas, visualizando as aulas em vídeo na ordem proposta no Plano de Trabalho, estudando os Planos de Aulas e fazendo anotações próprias em caderno ou bloco.

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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Thomas Kuhn e as revoluções científicas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A Aula 05 do Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais tem como objetivo apresentar a filosofia da ciência de Thomas Samuel Kuhn, enfatizando sua estrutura lógica e seus principais pontos.

Acompanhe para visualizar a aula:
Plano de Aula - Thomas Kuhn e as revoluções científicas

 
A aula está dividida em três partes, que abordam os seguintes tópicos, enfatizando sempre a epistemologia de Thomas Kuhn:

(1) Ciência normal;

(2) Paradigmas, crises e revoluções científicas;

(3) Considerações finais: externalismo, ciência normal, paradigmas, revoluções e a questão das Ciências Humanas.

Cabe lembrar que este curso foi pensado como material de apoio ao ensino presencial, e para melhor aproveitamento pedagógico sugere-se que sejam acessados os Planos de Aulas e as leituras dos originais sugeridos, tudo acessível no blog sociologiartesanal, na seção "Materiais de Aulas".

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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O náufrago e a primavera

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Como se uma década se fosse, a primavera chegou. Diante de tantas telas, é como se eu escrevesse mensagens diárias e as colocasse em garrafas, para o náufrago que me habita nesses tempos de destruição.

É como se, diante das chamas da ganância queimando a chama de vida que emerge das florestas e dos outros animais, essas garrafas encontrassem meu naufrágio e afirmassem: segue o barco, planta sementes.

É como se, diante dos mentirosos genocidas e sua horda de canalhas desprezíveis, tais mensagens brilhassem o sorriso da gata, a fala da intelectual preta que me ensina, o amor dos rapazes que passeiam de mãos dadas ou a energia das cordas e dos tambores.

Não é questão de otimismo ou pessimismo. É que o tempo não para. O substantivo, na prática, pode virar verbo. E, enquanto existir, resistir - ele nunca e nunca desistir. Nenhum futuro será por acidente.

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Max Weber e a objetividade do conhecimento das Ciências Sociais


Bernardo Caprara

Sociólogo e Professor

A Aula 04 do Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais tem como objetivo apresentar a obra de Max Weber, enfatizando seus aspectos epistemológicos, em relação com o "fio condutor" do seu pensamento (o processo de racionalização da vida).

Acompanhe para visualizar a aula:


A aula se divide em cinco partes que se inter-relacionam, sendo que os detalhes dos conteúdos de cada parte estão descritos abaixo:

(1) Revisão dos conteúdos das Aulas 01, 02 e 03: ciência moderna, empirismo, positivismo e materialismo dialético;

(2) Weber e Marx: crítica weberiana ao determinismo econômico marxista e afinidade eletiva entre o "ascetismo intramundano" do empresário protestante e o "espírito" do capitalismo na sua origem;

(3) Weber, aspectos gerais: múltiplos temas de pesquisa, racionalização como fio condutor do pensamento weberiano e a relação entre a ciência e o "desencantamento" do mundo;

(4) Weber, epistemologia: antinaturalismo e crítica ao positivismo, limites da quantificação nas ciências humanas, causalidade, valores e interpretação, tipos ideais e neutralidade axiológica;

(5) Conclusão: diagnóstico weberiano da modernidade, diálogo com diagnóstico marxiano (reificação/racionalização), dilemas da "gaiola de ferro/carapaça dura" (voluntarismo da ação na proposta metodológica x determinismo da ação nas pesquisas realizadas?).

Acesse também:

Cabe lembrar que a melhor forma de acompanhar este curso é fazendo as leituras dos textos indicados no início das aulas, visualizando as aulas em vídeo na ordem proposta no Plano de Trabalho, estudando os Planos de Aulas e fazendo anotações próprias em caderno ou bloco.

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domingo, 26 de julho de 2020

Blog em movimento: da sociologia popular à sociologiartesanal

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O tempo voa. Em 2008, quando comecei o projeto do blog sociologia popular, no terceiro ano da graduação em Ciências Sociais, tinha a ideia de construir um espaço digital com a meta de tentar divulgar teorias, conceitos e pesquisas sociológicas.

Doze anos depois, com 15 anos de Ciências Sociais e 11 de docência, penso que chegou a hora de o projeto assumir uma nova cara. Agora, ainda que a meta inicial permaneça implícita, o projeto de divulgar as Ciências Sociais assume uma feição mais próxima da maneira que desejo trabalhar daqui para frente: procurando uma sociologiartesanal.

O neologismo sociologiartesanal tem inspiração na obra de Charles Wright Mills, mas não traz um fundamento ortodoxo, não se fecha em apenas uma referência. Como diz o Luthier Vicente Carrillo, que representa a oitava geração de construtores de violão, em Cuenca, na Espanha, "o artesanato é a imperfeição da perfeição".

Sem esconder imperfeições, busco uma sociologiartesanal que fomente rigor, pluralidade, criticidade e criatividade, na produção e divulgação do conhecimento, para, quem sabe, ajudar a analisar as principais questões sociais do nosso tempo histórico.

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quarta-feira, 8 de julho de 2020

Em defesa das Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia Nacional da Ciência, assim como nos demais dias, cientistas sociais lidam com desafios o tempo todo: opiniões, ideologias, distorções, falácias, determinismos... Há diversas formas de produzir significado sobre a vida humana em sociedade competindo com o conhecimento que fundamenta a nossa atuação profissional.

O próprio conhecimento científico das relações sociais não parece escapar dessas influências, e muito menos as pessoas/cientistas - elas mesmas integrantes das sociedades humanas que investigam. Além disso, há de se ter clareza de que outras matrizes de conhecimento possuem muito valor.

Diante de todas essas questões, é preciso ousadia e dedicação para afirmar uma ciência social crítica, rigorosa e criativa. Demanda tempo, condições materiais adequadas, estudo, maturidade; domínio do que foi e é pesquisado e teorizado sobre múltiplos temas que se inter-relacionam; domínio das bases filosóficas sobre o ser e o conhecimento; e domínio dos artefatos metodológicos disponíveis, da estatística à etnografia.

É verdade que cumprir todos esses requisitos equivale a abdicar de viver para apenas trabalhar, sendo que isso não vale o esforço. Contudo, os tempos sombrios são aqueles em que nos tornamos mais relevantes.

Procurando rigor, pluralidade, criticidade e criatividade, na produção e divulgação do conhecimento, os desafios que requerem ousadia podem se concretizar na defesa das Ciências Sociais e de sociedades mais democráticas, livres, sustentáveis e com oportunidades para todos.

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quinta-feira, 2 de julho de 2020

O materialismo histórico e dialético


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A Aula 03 do Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais tem como objetivo apresentar as características do materialismo histórico e dialético, elaborado por Karl Marx, em parceria com Friedrich Engels, destacando suas fontes principais (dialética idealista, materialismo mecanicista, economia política empirista e filosofia política socialista).
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Acesse para acompanhar a aula:

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Além disso, a aula discute as diferenças do método marxiano de análise da realidade social na relação com o empirismo e o indutivismo. A aula contou com uma edição pormenorizada, que contém trechos do filme "O jovem Karl Marx" (Diaphana Films, 2017) e uma fala do Prof. Dr. José Paulo Netto (UFRJ), especialista em marxismo.


Cabe lembrar que a melhor maneira de acompanhar esse curso é fazer a leitura dos textos sugeridos nos Planos de Aulas, visualizar as aulas na ordem proposta no Plano de Trabalho e fazer anotações próprias, em bloco ou caderno.

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terça-feira, 23 de junho de 2020

Resenhando Saberes #02: Jornalismo e fake news no século XXI


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na segunda troca de ideias sobre temais atuais, conversei com o jornalista Estêvão Pires da Silva, que possui quase 15 anos de experiência no exercício do jornalismo profissional, tendo trabalhado em diversos veículos de comunicação importantes do Sul do Brasil - em rádio, internet e televisão.




Estêvão nos deu uma verdadeira aula sobre jornalismo profissional. A conversa girou em torno de três tópicos: (1) os detalhes da rotina profissional do jornalista, e as diferenças entre jornalismo e fake news; (2) as condições do trabalhador do jornalismo e os oligopólios das grandes empresas de comunicação; (3) o futuro da atividade jornalística, neste século em que a informação deve estar no centro dos debates mais relevantes.

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segunda-feira, 15 de junho de 2020

Popper e o "falsificacionismo"

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A Aula 02 do Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais tem como objetivo o entendimento da epistemologia falsificacionista de Karl Popper, em diálogo com o positivismo de Auguste Comte e o empirismo lógico do Círculo de Viena.

Acesse para acompanhar a aula:


A aula se divide em duas partes: 1) Um resgate dos argumentos do empirismo, em especial da doutrina positivista de Comte e do Círculo de Viena, indicando aproximações e distanciamentos da filosofia da ciência de Popper; 2) A epistemologia elaborada por Karl Popper, a partir da ideia de "falseabilidade" ou "falsificacionismo". 

Acesse também:

Lembrando: a melhor forma de acompanhar este curso é fazer as leituras indicadas nos Planos de Aulas, visualizando as aulas na ordem proposta no Plano de Trabalho e fazendo as suas anotações próprias, em caderno ou bloco.
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sexta-feira, 5 de junho de 2020

Resenhando Saberes #01: A atualidade do conceito de classes sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O Resenhando Saberes é um projeto de trocas de ideias informais, via aplicativos de internet, que tem como objetivo a discussão de temáticas atuais, em profundidade e com linguagem popular.

Na primeira conversa, o convidado foi o Prof. Ms. Glauco Ludwig Araujo, atualmente doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Durante cerca de 30 minutos, conversamos sobre como se definem as classes sociais, sobre o alcance e os limites da mobilidade social, além de debater a meritocracia como legitimação da estratificação na sociedade brasileira. Por fim, também abordamos as consequências da pandemia de Covid-19 para as diferentes classes sociais.


Todas as conversas serão gravadas e estarão sempre disponíveis no canal do blog no YouTube. Os assuntos podem ser os mais diversos, e tendem a dialogar com questões importantes na atualidade.

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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Apresentação do Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A epistemologia é o estudo sobre a cognição e o conhecimento humano, sua natureza, seus potenciais e seus limites, e também pode ser pensada como "teoria do conhecimento". 

O Curso Livre de Epistemologia das Ciências Sociais parte de dois questionamentos bastante em voga: é possível conhecer cientificamente a realidade social? Como os cientistas sociais devem agir para conhecer a realidade social?

Na esteira dessas indagações, o objetivo do curso é fazer com que os/as estudantes tenham condições de mapear as principais discussões sobre a epistemologia das Ciências Sociais, caracterizando seus alcances e limites e conseguindo se posicionar quanto aos caminhos possíveis para estudar cientificamente as sociedades humanas.

Acesse para acompanhar a apresentação:
 

No vídeo acima, você pode visualizar a apresentação do curso, que contém os detalhes quanto à organização dos materiais. Na lista abaixo, você pode acompanhar o conteúdo a ser trabalhado no curso completo.

- Aula 01: O positivismo em Comte e o Círculo de Viena
- Aula 02: Karl Popper e o “falsificacionismo”

- Aula 03: O materialismo histórico e dialético

- Aula 04: Weber e a objetividade das Ciências Sociais

- Aula 05: Thomas Kuhn e as revoluções científicas

- Aula 06: O realismo crítico

- Aula 07: O racionalismo aplicado de Bachelard

- Aula 08: Bourdieu e a vigilância epistemológica

- Aula 09: Mannheim e a sociologia do conhecimento

- Aula 10: O Programa Forte em Sociologia do Conhecimento

- Aula 11: As etnografias das práticas científicas

- Aula 12: Ciência e poder em Foucault e Deleuze & Guattari

- Aula 13: Decolonialismo, pós-colonialismo e epistemologias do sul

- Aula 14: As epistemologias feministas

- Aula 15: O século XXI e as ciências sociais

Para melhor aproveitamento pedagógico, sugere-se que o/a estudante acompanhe as aulas expositivas gravadas em vídeo, na sequência proposta no Plano de Trabalho, após realizar as leituras dos textos indicados e dos Planos de Aulas, fazendo as suas anotações próprias em caderno ou bloco.

É importante lembrar que esse curso foi pensado e elaborado para servir como material complementar ao ensino presencial. De todo o modo, ficará disponível gratuitamente para todos os interessados em Ciências Sociais.

Iniciado em: 01/06/2020
Atualizado em: 14/12/2020

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sexta-feira, 29 de maio de 2020

O positivismo em Comte e o Círculo de Viena


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A primeira aula do Curso de Epistemologia das Ciências Sociais tem como objetivo apresentar os caminhos que o positivismo de Auguste Comte e os seus desdobramentos no Círculo de Viena oferecem para responder as questões que balizam esse curso: é possível conhecer cientificamente a realidade social? Como podem agir as Ciências Sociais para realizar tamanha tarefa?


O vídeo da aula está disponível abaixo e no canal do blog no YouTube. O texto indicado para leitura é a obra principal de Comte, o "Curso de Filosofia Positiva". É fundamental realizar a leitura do texto indicado, para um melhor aproveitamento pedagógico.




A aula está dividida em três partes: 1) Os antecedentes do positivismo, com o foco no racionalismo e no empirismo; 2) A doutrina positivista e a obra de Comte; 3) Os desdobramentos da doutrina positivista, enfatizando o Círculo de Viena.

Lembrando: Para melhor aproveitamento pedagógico, sugere-se que o estudante acompanhe a aula expositiva gravada em vídeo, seguindo a ordem do Plano de Trabalho, após realizar a leitura do texto indicado e do Plano de Aula, fazendo as suas anotações próprias em um caderno ou bloco.

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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Roteiro para estudo e escrita em Sociologia


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Introdução

Antes de começar a fazer pesquisa sociológica, antes de botar a mão na massa, produzir, organizar ou selecionar e analisar dados empíricos à luz das teorias, o cientista social precisa ter uma capacidade razoável de leitura e produção textual. Como um pressuposto, o cientista social precisa conseguir absorver das leituras que faz, e que precisam ser muitas, os seus pontos principais e as articulações que eles sugerem. Isso acaba inapelavelmente passando por escrever sobre teorias, autores, conceitos, debates e etc.

Essa responsabilidade traz problemas. Primeiro, em função de que, salvo valiosas experiências no âmbito da educação formal, pouco se ensina “a estudar” aos nossos jovens. Medidas básicas de organização das atividades de estudo podem ajudar a fazer a coisa acontecer. Segundo, porque não costumamos nos sentir preparados para sair escrevendo, seja porque a vida acadêmica é altamente competitiva e feita de pressões diversas, seja porque temos dificuldade mesmo de botar para fora as ideias que fervilham nas nossas mentes.

A partir desse problema, elaborei um roteiro básico para minhas atividades de estudo e produção textual em Sociologia, uma parte relevante das minhas atividades profissionais, o que tem me ajudado a ler e escrever de maneira mais organizada. É óbvio que essas dicas em forma de roteiro não se pretendem científicas, muito longe disso. Trata-se apenas de uma forma de organizar as atividades de estudo e escrita para interessados em Sociologia, buscando auxiliar a mim mesmo, nessas que são incumbências intrínsecas ao trabalho sociológico. Se para mais alguém isso for útil, será uma satisfação.

1 Dimensões e passos do roteiro proposto

O roteiro envolve três dimensões: (1) o contexto da temática em estudo; (2) a leitura dos textos da temática em estudo; (3) e a escrita sobre as leituras realizadas. São dimensões que se entrelaçam e, com o tempo, acabam certamente se confundindo. Por exemplo, um praticante que já tenha um acúmulo grande de leituras e textos escritos, já conheceu e versou sobre o contexto da temática, pode transitar com facilidade entre este ou aquele aspecto que pretenda dissertar, inclusive fundindo diferentes perspectivas e criando novos laços conceituais e teóricos. Se o estudioso fizer sempre, em todas as leituras e temáticas que se debruçar, essa espécie de artesanato sociológico, com o passar do tempo acumulará um grande acervo de textos próprios sobre muitos assuntos, autores e teorias, ampliando seus recursos de trabalho. Penso que essa lógica de estudo e produção textual vale para textos variados da Sociologia (metodológicos, teóricos, artigos científicos, teorias, etc.). Sugiro cinco passos básicos para operacionalizar este roteiro de estudo e escrita.

Primeiro passo – A contextualização

A primeira coisa a fazer é procurar algumas informações sobre o assunto/autor que se deseja estudar. Penso que sempre vale a pena começar pelas ideias gerais, pelas pessoas que comentam as grandes obras e grandes pesquisas. Isso significa começar por abordagens mais superficiais, sem dúvidas, mas justamente para abrir os caminhos do estudioso, de modo que ele comece a transitar pelo assunto entendendo o que está sendo dito. Ler de supetão os grandes clássicos, os originais, pode até ser uma estratégia que dê certo para muita gente, e por vezes é o que fazemos a contragosto. Minha sugestão para organizar os estudos e construir crescentemente conhecimentos sobre o objeto de estudo é iniciar pelo conteúdo mais mastigado, a fim de que o estudioso não perca o gosto pelo estudo e siga adiante, até chegar aos pontos mais profundos e complexos.

Segundo passo – A leitura

O segundo passo é aquele impossível de fugir: a leitura. Para aumentar os conhecimentos em Sociologia é inevitável aumentar a carga de leitura. Dói, não é fácil, mas tem que ler. E ler bastante. Mas eu acredito que ler com atenção e com um foco predeterminado ajuda a dinamizar as leituras e não perder tempo naquilo que pouco vai acrescentar ou que é periférico sob o ângulo que o estudioso procura analisar.

Por isso, minha sugestão é fazer as leituras sempre procurando determinadas “dobras” do texto, isto é, procurando em que ponto o texto articula a sua centralidade, que geralmente remete a associação entre teoria e empiria. Quero dizer que procuro nos textos, antes de tudo, a clareza quanto ao seu objetivo principal, para logo depois achar essas dobras entre os argumentos. Procuro também conceitos que façam a “materialidade” dessas dobras, de preferência que possam ser ilustrados por exemplos de caráter empírico utilizados no texto. Em síntese, uma tríade de buscas: objetivos principais, dobras conceituais e dobras empíricas.

Há uma coisa a mais sobre a leitura. Eu sou um daqueles que lê em qualquer lugar, com relativa tranquilidade. Para aqueles que também são assim, sugiro que o façam mesmo com textos pesados e teóricos e mesmo que não haja possibilidade de fazer anotações e marcações. Mesmo assim, leiam. Porém, para aqueles que não lidam bem com leituras em locais movimentados ou transporte coletivo, por exemplo, sem problemas. Isso não necessariamente atrapalha, pois, provavelmente, estes dedicam outros tempos para a leitura.

O fato é que, uma hora ou outra, eu sempre considero importante fazer anotações a lápis no corpo do texto, sobretudo porque não tenho memória suficiente para guardar páginas e argumentos depois de alguns anos me dedicando a pesquisa e a docência em Sociologia. Podem ser marquinhas discretas, anotações ou o que bem o estudioso entender, mas precisa ficar claro que ali há algo que pode ser utilizado em outro momento, há algo importante.

Terceiro passo – A seleção contextualizada

O terceiro passo depende, em parte, da qualidade da leitura realizada. Depois de entender o contexto do assunto, procurar textos introdutórios e começar a lê-los, é preciso que o estudioso tenha capacidade de selecionar partes do texto que leu para organizar as suas ideias sobre o texto, no formato da escrita. Selecionar essas partes pode ser facilitado pelas marcações que o estudioso fizer no texto lido, e pode se ganhar bastante se forem selecionados trechos relativos aos objetivos principais e as dobras conceituais e empíricas supracitadas. É dessa seleção que sairá o texto sobre o texto, ou seja, é desta seleção que se realiza a escrita sobre aquilo que foi lido.

Quarto passo – A escrita

A página está em branco. É chegada a hora de usar o teclado do PC. O estudioso já pode estar mais seguro, já possui mais informações e já tentou selecionar aquilo que lhe cabia no texto lido, de modo a dar inicio a escrita. Proponho que se produzam textos que se localizam entre um fichamento (descrição do que foi dito no texto lido) e uma resenha (descrição com tons analíticos e críticos). Algo que se localize entre as duas propostas, no entremeio do fichamento e da resenha.

Minha sugestão é partir da organização lógica inerente ao próprio texto lido. Isso significa começar a escrever sobre a introdução e assim por diante, seguindo a ordem de início, meio e fim do texto lido. A operação básica é simples, ainda que complexa: escrever com palavras próprias as ideias que foram selecionadas, acrescentando ou não comentários. O estudioso vai escrevendo sobre o que diz o texto e vai compondo a sua escrita, e com o tempo a capacidade de fazer ligações entre assuntos e acréscimos próprios tende a aumentar.

No decorrer dos anos, se o estudioso guardar no seu arquivo de textos de sua autoria cada um dos escritos sobre cada assunto/autor que realizou a leitura, seu acervo será algo interessantíssimo, recheado de ideias, conceitos, referências empíricas e insights do próprio estudioso, constituindo um rico material de base para o ofício da pesquisa sociológica e da docência.

Quinto passo – A organização do acervo

Cada estudioso pode ter a sua organização, é verdade. Eu sugiro, modestamente, que se mantenham temáticas que dialogam próximas, assim como autores e conceitos, de modo a ajudar o estudioso a fomentar mentalmente ligações entre temáticas, autores e conceitos, auxiliando a criação intelectual. Creio que a forma mais organizada de fazer isso é separar os arquivos de Word/Open Office em pastas temáticas, e entre os arquivos nomeá-los a partir do sobrenome do autor, seguido do nome e de um título para o texto. Exemplo: caprara, bernardo – roteiro para estudos.docx. Assim, o acervo fica minimamente organizado.

Considerações finais

Com este breve roteiro, eu espero ter ajudado aos estudiosos da Sociologia a pensar na criação das suas próprias formas de organização dos seus estudos, das suas leituras e produções textuais. Individualmente, desde que comecei a adotar esses procedimentos, consegui organizar melhor essa parte relevante da minha vida profissional. Estes textos, que se localizam entre os fichamentos e as resenhas, no acumulado, ajudam muito na prática cotidiana de pesquisa e docência em Sociologia. Têm sido “ferramentas” essenciais.
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