ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sociologia das Desigualdades: 50 artigos científicos sobre desigualdades diversas


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O tema das desigualdades é sempre objeto de muitas discussões e polêmicas. Nas Ciências Sociais, muitas são as contribuições para se pensar sobre o assunto. Na Sociologia das Desigualdades, podemos abordar as desigualdades econômicas, políticas, de gênero, entre etnias e etc. No link abaixo, é possível acessar uma série de artigos científicos, do campo das Ciências Humanas, a respeito das variadas manifestações das desigualdades encontradas no século XXI, suas causas e seus efeitos. São textos de e sobre autores como Amartya Sen, John Rawls, Celi Scalon, Pierre Bourdieu, Jessé Souza, Ruy Braga, Guy Standing, Carole Pateman, Martha Nussbaum, Claus Offe, Ricardo Antunes, Ladislau Dowbor, Adam Przeworski, Celia Kerstenetzky, Marcelo Medeiros, Göran Therborn, Jeffrey Alexander, Ernesto Laclau, Michael Löwy, Boaventura de Sousa Santos, Antonio David Cattani, Carlos Antonio Costa Ribeiro, Elisa Reis e Branko Milanovic - entre outros. Quem procura aprofundar seu conhecimento sociológico sobre as desigualdades na atualidade, encontra nesta lista uma gama de artigos de grande valia.


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sexta-feira, 4 de março de 2016

Uma democracia de baixa intensidade


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia de hoje, três das instituições mais relevantes das sociedades modernas mostraram bem a sua cara no Brasil. E é uma cara preocupante, a cara do que Boaventura de Sousa Santos chamou de “democracia de baixa intensidade”.

Na política, um ex-presidente com forte apelo popular é ouvido pela Polícia Federal. Até aí, faz parte. Ninguém deve estar acima da lei. Se há indícios e suspeitas, como existem, há de se investigar e, depois de garantidos os procedimentos legais de defesa, atribuir as devidas responsabilidades. Mas o que se viu foi a polarização tomar conta. O ódio visceral ao PT babando e mordendo; o amor visceral ao PT babando e mordendo. Nas ruas, a pancadaria prestes a explodir. Em Brasília, a briga oligárquica sangrenta pelo Poder Executivo fervilhando.

Na imprensa, um verdadeiro espetáculo desvairado, repleto de adjetivos, opiniões e pouquíssima informação. Colunistas acusando como juízes. Jornalistas parecendo crianças que ganharam um brinquedo novo. Anúncios de editores de grandes veículos, ainda na madrugada, de que o dia seria belo e divertido. Capas de revistas semanais com verdadeiras sentenças expostas. Um festival ávido pelo sensacionalismo, ávido por fazer aquilo que não é da alçada jornalística: julgar e condenar as pessoas. Informar com rigor, nada.

No Judiciário, muita confusão. Ministros do STF condenando a forma coercitiva de chamar um ex-presidente para depor. Um juiz e seus parceiros, com operações que, curiosamente, sempre vazam para a grande imprensa momentos antes de acontecerem, colocando as vestes de justiceiros e ganhando ares de autoridades máximas da nação. A seletividade imperando, pois o “Merendão”, o “Trensalão”, o “Mensalão Tucano”, a “Lista de Furnas” e tantos outros escândalos não se movem. O braço direito do Estado, como diria Pierre Bourdieu. Aqueles que recebem salários extravagantes (acima do teto do serviço federal). Aqueles que recebem auxílio-moradia com valores quatro vezes maiores do que o salário médio do brasileiro.

Não parece haver mais espaço para golpes militares. No século XXI, o sequestro da democracia liberal – que já tem problemas diversos – tem tudo para ser orquestrado por dentro das próprias estruturas democráticas. Vamos construindo um cenário ainda mais autoritário, cuja democracia perde, passo a passo, em intensidade. Direitos civis e sociais perdem ainda mais força. Sangram os de sempre.

No fim, o perigo mais preocupante pode advir de algo que vem sendo engendrado há anos. No desespero, ao invés da crítica política, da busca por soluções e novas feições para a política, pode tomar conta a crítica à política. E a crítica à política é sinônimo de pensamento único, de salvacionismo autoritário. Aí ferrou de vez.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Uma sociologia viva

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sempre que começa uma nova temporada em sala de aula, como agora, pergunto-me com vigor: por que estudar? Por que estudar sociologia?

Pergunta difícil de responder. Para tentar, é preciso pensar com quem se dialoga. Com quais estudantes e com quais abordagens. Seja nos cursos técnicos integrados ao ensino médio, seja no trabalho com jovens e adultos, a proposta de ensino de sociologia a ser construída nesse ano cheio de desafios tem alguns pressupostos básicos.

Definir o que é conhecimento e quais as suas variantes faz-se imperativo. Há, pelo menos, duas formas fundamentais de conhecer o mundo: a experiência vivida (senso comum) e a investigação profunda (ciência).

Usualmente, considera-se o senso comum um antagonista da ciência. Pode até ser. Na prática pedagógica, entretanto, a intencionalidade para perseguir o conhecimento sociológico pode ser outra. Ciência e senso comum podem ser complementares. Ambos podem se transformar.

O senso comum, encharcado com elementos científicos provocados pelo professor, pode acrescentar ao seu caráter muitas vezes supersticioso e tradicional as interlocuções das pesquisas metódicas, cujas teorias e conceitos têm o potencial de bagunçar respostas prontas e imediatas.

A ciência, por sua vez, aceitando o contato e o relacionamento íntimo com o senso comum, com a experiência vivida, pode deixar o seu pedestal e passar a fazer sentido para uma quantidade maior de pessoas. Auxiliando a percepção coletiva de ideias menos rápidas e acabadas, menos naturalizantes, em prol de narrativas mais críticas, reflexivas e relacionais.

Fomentar uma sociologia viva. Que esteja nas bibliotecas, nos papers, nas pesquisas mais relevantes. Mas que esteja viva, sobretudo na dimensão do ensino, nos corações, corpos e mentes dos estudantes. Uma sociologia popular. Um baita desafio para a temporada que vai tomando forma.

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

O paradigma científico emergente e a sociologia de Boaventura de Sousa Santos


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No livro A crítica da razão indolente – Contra o desperdício da experiência, no capítulo em que versa sobre O paradigma emergente, Boaventura de Sousa Santos (2002) sugere a emergência de um processo de transformação paradigmática relativo ao fazer científico. Não se trata de algo parecido com a revolução das ciências ocorrida no século XVI, pois se dá numa sociedade que já passou por radicais mudanças científicas. Nesse sentido, ele nomina a novidade como o paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente.

Santos (2002) argumenta que o novo paradigma não pode ser apenas científico, mas precisa carregar um cunho social. O autor passa a discorrer acerca das representações inacabadas da modernidade, afirmando que será somente a partir dela que se tornará possível transcendê-la. As lacunas deixadas pelas representações da modernidade estão alocadas, no princípio da comunidade (domínio da regulação) e na racionalidade estético-expressiva (domínio da emancipação). É na noção de autor, situada no contexto inacabado da racionalidade estético-expressiva, que pode se conceber uma resistência ao colonialismo. No paradigma da modernidade, duas formas de conhecimento estiveram em jogo: o conhecimento-regulação e o conhecimento-emancipação.

O conhecimento-emancipação é uma trajetória entre um estado de ignorância que designo por colonialismo e um estado de saber que designo por solidariedade. O conhecimento-regulação é urna trajetória entre um estado de ignorância que designo por caos e um estado de saber que designo por ordem (SANTOS, 2002, p. 78).

Há dois últimos séculos, uma racionalidade cognitivo-instrumental da tecnologia e da ciência se sobrepôs às demais. O conhecimento-regulação venceu o duelo com o conhecimento-emancipação. A primazia do primeiro fez com que o segundo fosse recodificado sob os critérios do conhecimento-regulação. O que era estado de saber no conhecimento-emancipação tornou-se ignorância no conhecimento-regulação, sendo a solidariedade subvertida em caos; o que era ignorância no conhecimento-emancipação verteu-se em saber no conhecimento-regulação, e o colonialismo traduziu-se em ordem.

Santos (2002) deixa claro que entende ser essa a situação em que nos encontramos e dela vigora a urgência de uma saída. A maneira de elaborar uma saída para a constatação explicitada está na reavaliação do conhecimento-emancipação, de modo a atribuir-lhe uma preponderância frente ao conhecimento-regulação. “Isto implica, por um lado, que se transforme a solidariedade na forma hegemónica de saber e, por outro, que se aceite um certo nível de caos decorrente da negligência relativa do conhecimento-regulação” (SANTOS, 2002, p. 79). Mas essa postura não pode ser realizada sem que se assumam dois compromissos epistemológicos. De início, é imperativo defender o caos como uma forma de saber, sem entendê-lo como ignorância. Este aceitar e revalorizar o caos possibilita que se rompa com a supremacia do conhecimento-regulação, desequilibrando o conhecimento favoravelmente à emancipação. O segundo aspecto repousa numa revalorização da solidariedade percebida como forma de saber.

O aprofundamento epistemológico das ciências na modernidade traz na distinção entre sujeito e objeto uma das suas facetas mais definidas. Ainda que fundamento da prática científica moderna, essa fragmentação possui contradições. Santos (2002, p. 82) sentencia o fato de que “[...] é tão impossível um conhecimento científico sem condições como um conhecimento plenamente consciente de todas as condições que o tornam possível”. Além disso, tal separação entre sujeito e objeto redunda numa profunda separação entre o humano e o não-humano. O não-humano pode significar tanto a sociedade como a natureza. A desumanização do objeto constituiu um elemento central na consolidação da ideia de um conhecimento instrumental e regulatório, cujo saber está na dominação do caos pela ordem.

O sociólogo português problematiza René Descartes, para dizer que as explicações científicas dos fenômenos consistem em autojustificações da ciência – sendo essa autobiográfica. Os saberes inerentes às nossas trajetórias e valores, estejam eles escondidos ou mesmo soterrados, perpassam os pressupostos não-ditos dos nossos discursos científicos. Por outro lado, no paradigma visto como emergente, a atribuição autobiográfica do conhecimento-emancipação deve ser assumida na sua plenitude: trata-se de “[...] um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos” (SANTOS, 2002, p. 84).

Não obstante, se o rompimento entre sujeito e objeto é um rompimento epistemológico com consequências ontológicas, do rompimento entre natureza e cultura/sociedade supõe-se um rompimento ontológico com consequências epistemológicas. Santos (2002) coloca que, de maneira gradual, todas as ciências passarão para o espectro das ciências sociais. Na atualidade, a diferenciação entre natureza e cultura parece apenas um produto da inércia. Tal distinção deriva de acepções culturais e não naturais. Ao aceitar essa visão, conquistamos a capacidade de investigar os processos sociais e políticos que interferiram no desenvolvimento da oposição entre natureza e cultura/sociedade.

Esta verificação permite mostrar que a ciência moderna, além de moderna, é também ocidental, capitalista e sexista. Esta tripla adjetivação não é circunstancial. Com ela quero salientar que a "matriz de privilégio" (Harding, 1993: 11) da produção científica moderna combina o racismo com o classismo e o sexismo (SANTOS, 2002, p. 85).

As chamadas ciências da vida comportam uma espécie de sociologia implícita no dualismo natureza/cultura. Um exemplo se refere à teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, compreendendo como uma obra escorada em proposições políticas e sociais do seu tempo. Noutra via de exemplificação, Santos (2002) utiliza a primatologia. Nessa ciência focada a estudar os macacos e os símios, busca os trabalhos de Donna Haraway para demonstrar a forma pela qual as temáticas da raça, do sexo, da família e da classe foram instaladas no tratamento da natureza pelas ciências da vida desde o século XVIII. A conclusão das comparações entre a primatologia ocidental, japonesa, africana e indiana revela que a primatologia se trata de um campo multicultural, “[...] influenciado por uma biopolítica que, em diferentes culturas, estabelece diferentes redes de significação entre seres humanos e primatas, entre cultura e natureza” (SANTOS, 2002, p. 97).

Mais do que ocidental e capitalista, o paradigma científico moderno é também sexista. O corte dual que segmenta natureza e cultura/sociedade está inserido numa gama de binômios, todos eles sexistas, ao passo que o primeiro polo de cada um deles é considerado o dominante e associado ao caractere masculino. Já em Aristóteles evidenciam-se preceitos políticos, éticos e biológicos que inferiorizam a figura das mulheres. Com efeito, a ciência moderna reforça e potencializa esses dualismos, em razão de incorporar um falso universalismo hegemônico da sua racionalidade cognitivo-instrumental, que enfoca experiências dominantes como experiências universais.

Santos (2002) encaminha um quesito epistemológico complexo de realizar, na transição paradigmática que observa em transcurso. Se o que chama de imprudente produção-destruição tecnológica, em conjunto com as críticas ao etnocentrismo e androcentrismo das ciências na modernidade, conflui na percepção de que “[...] a natureza é a segunda natureza da sociedade” (SANTOS, 2002, p. 89), notadamente não temos uma natureza humana, pois toda natureza é humana. As posições proeminentes na ciência dos últimos vinte anos desterram as dicotomias que outrora marcavam a cena científica, embora os prognósticos do que pode vir a se estabilizar no decorrer das tensões epistemológicas do momento não enveredem num consenso.

Para o autor, portanto, a superação dos jogos de dualidades desenvolve-se também na aproximação entre as ciências naturais e sociais, sob a proteção das ciências sociais. Em outras palavras, há de se pensar que todas as ciências, em alguma instância, constituem-se em ciências sociais.

REFERÊNCIA

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente – Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2002.
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