ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

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terça-feira, 9 de julho de 2024

Educação e sociedade

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na semana passada, finalizamos a disciplina "Educação e Sociedade", no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS. Foram as minhas primeiras aulas e a primeira turma com quem trabalhei como docente do @ppgs.ufrgs, o espaço que me formou pesquisador na última década, de 2011 a 2017. Iniciamos em 19 pessoas, terminamos em 17.

No começo, compartilhamos em sala de aula não apenas saberes e leituras, mas também o café e um pouco das nossas experiências na aventura de viver. No fim, depois de tudo o que aconteceu em maio e junho no Rio Grande do Sul, compartilhamos nossas telas (a foto não comporta todo mundo) e um pouco de nossas casas, fomentando trocas mesmo distantes.

Afetados e afetadas mais ou menos pela fúria do Guaíba, já não éramos as mesmas pessoas que chegavam em Março no Campus do Vale. Trazíamos novas cicatrizes, mas também nossas velhas e revigoradas potências, nossas novas e surpreendentes alegrias e vontades de construir e disseminar conhecimentos. No coletivo, com empatia e desejo, fomos adiante.

Da análise do cânone sociológico sobre a educação, passando pela problematização dos clássicos e de variadas desigualdades intervenientes na aprendizagem e suas instituições, chegamos ao estudo das interações pedagógicas pelo olhar das Ciências Sociais. Como quem faz e cuida de uma fogueira, multiplicando o saber na roda de prosa, procuramos fazer da sociologia uma ciência viva. E, assim, seguimos.


terça-feira, 11 de outubro de 2022

Bruno Latour e a ciência em ação

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Bruno Latour foi um dos principais pensadores da ciência nas últimas décadas. O sociólogo e filósofo francês, conhecido por suas obras impactantes, mas também por ser um pesquisador que gostava de dar aulas, deixa um legado fundamental para as discussões sobre o conhecimento no tempo presente.

Seguindo os passos de David Bloor, Latour, Michel Callon e Madelaine Akrich foram responsáveis por elaborar a chamada "teoria ator-rede". No âmbito dos estudos da ciência, tecnologia e sociedade, essa linha teórica considera os atores sociais definidos pelo papel exercido na sua rede de atuação, pelos efeitos e repercussões que geram nessa rede. Tratam-se de "atores híbridos", porque a ação não é percebida como uma propriedade somente humana, mas como uma associação de actantes.

O ponto é entender que atores/actantes podem ser pessoas, objetos, animais, dispositivos inteligentes (máquinas) e instituições, por exemplo. Eles estão envolvidos em redes, com suas conexões ("nós") e interligações. Atores não humanos e humanos agem concomitantemente, influenciam e interferem no comportamento uns dos outros, sendo os atores não humanos ajustados pelos humanos conforme suas demandas.

Latour interessou-se bastante por investigar a ciência no seu "fazer", na sua construção diária. Na busca por analisar a ciência em ação, na prática, realizou diferentes etnografias em laboratórios de alta tecnologia. Sua antropologia das ciências procurou compreender como ocorre a produção dos fatos científicos e da verdade nas sociedades contemporâneas - ou, melhor dizendo, nas redes sociotécnicas. Uma jornada que rende e ainda renderá muitos frutos.

 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A América Latina e o giro decolonial

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento o artigo da prof. Luciana Ballestrin (UFPel), intitulado "América Latina e o giro decolonial".


A imagem da capa do vídeo foi desenhada pelo artista uruguaio Joaquín Torres García, em 1943, e leva o nome de "América Invertida".


terça-feira, 17 de maio de 2022

Donna Haraway, epistemologias feministas e os saberes localizados

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento algumas ideias de Donna Haraway sobre as epistemologias feministas e a perspectiva dos saberes localizados.

 


O vídeo tem como fundamento o artigo de autoria de Haraway chamado "Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial", disponível nos Cadernos Pagu, Campinas, SP, 2009.

 

sábado, 16 de abril de 2022

Frantz Fanon e o colonialismo epistemológico

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento algumas ideias de Frantz Fanon, argumentos que abrangem as questões do saber e do conhecimento.


A referência que embasa o vídeo é a obra "Pele negra, máscaras brancas", de autoria do próprio psiquiatra martinicano Frantz Fanon.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

David Bloor e o Programa Forte em Sociologia do Conhecimento

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento as ideias básicas do Programa Forte em Sociologia do Conhecimento, desenvolvidas pelo sociólogo David Bloor.

 

O vídeo tem como fundamento o livro de David Bloor intitulado "Conhecimento e imaginário social".

 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Feyerabend e o "vale tudo" epistemológico

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento as polêmicas ideias de Paul Feyerabend contra a universalidade do método científico e em favor de uma espécie de "vale tudo" epistemológico.



O vídeo acima tem como fundamento o capítulo XII do livro escrito por Alan Chalmers, intitulado "O que é ciência afinal?".

 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Problemas do raciocínio indutivo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento algumas limitações do raciocínio indutivo, raciocínio que serve de base para uma concepção popular de ciência.

 


O vídeo tem como fundamento argumentos expostos nos capítulos iniciais do livro "O que é ciência afinal?", de Alan Chalmers.

 

sábado, 31 de julho de 2021

Concepção popular de ciência e raciocínio indutivo/dedutivo

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório sobre epistemologia das Ciências Sociais, eu apresento uma concepção popular de ciência, com base nos raciocínios indutivo e dedutivo.

 


O vídeo tem como fundamento o livro de Alan Chalmers, "O que é ciência afinal?", nos seus capítulos iniciais.

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quinta-feira, 17 de junho de 2021

O que é epistemologia?

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento uma breve definição do que é epistemologia, com o foco na perspectiva de uma "epistemologia tradicional" e a ênfase no contexto de justificação do conhecimento.


O vídeo tem como referência a obra do Prof. Dr. Luiz Henrique de Araújo Dutra, da Filosofia da UFSC, intitulada "Introdução à Epistemologia" (Editora da Unesp, 2010).

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O racionalismo aplicado de Bachelard

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O vídeo tem como objetivo apresentar com precisão a filosofia da ciência de Gaston Bachelard, que ficou conhecida como “racionalismo aplicado” ou "filosofia do não".



O vídeo está organizado da seguinte forma: (1) uma apresentação do contexto da obra de Bachelard e de um apanhado geral das suas reflexões; (2) uma apresentação do “racionalismo aplicado”, a perspectiva epistemológica do autor.

As referências que fundamentam o vídeo são: BACHELARD, Gaston. O novo espírito científico. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro Ltda, 1968; O racionalismo aplicado. Rio de Janeiro: Editora Zahar Editores, 1977; O materialismo racional. Lisboa: Edições 70, 1990. 

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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O realismo crítico

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O vídeo tem como objetivo caracterizar com precisão o realismo crítico, como proposta ontológica capaz de abarcar a epistemologia, de inspiração direta na obra dos filósofos Roy Bhaskar e Rom Harré.



O vídeo está dividido em três partes, abordando os seguintes pontos, sempre enfatizando a proposta ontológica e epistemológica implicada na junção do realismo transcendental com o naturalismo crítico.

1) Uma apresentação do contexto de discussão em que o realismo se situa;

2) Uma apresentação das principais características do realismo transcendental;

3) Uma apresentação das principais características do naturalismo crítico, e sua reconfiguração no chamado "realismo crítico", a partir da obra de Roy Bhaskar.

As referências que fundamentam o vídeo são: BHASKAR, Roy. A realist theory of science. New York: Routledge, 2008; CHALMERS, Alan. O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993; HAMLIN, Cynthia Lins. Realismo Crítico: Um Programa de Pesquisa para as Ciências Sociais. Revista Dados, volume 43, número 2, Rio de Janeiro, 2000; VANDERBERGUE, Frédéric. Teoria social realista: um diálogo franco-britânico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.



terça-feira, 10 de novembro de 2020

Thomas Kuhn e as revoluções científicas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O vídeo tem como objetivo apresentar a filosofia da ciência de Thomas Samuel Kuhn, enfatizando sua estrutura lógica e seus principais pontos.


 

O material está dividido em três partes, que abordam os seguintes tópicos, enfatizando sempre a epistemologia de Thomas Kuhn:

(1) Ciência normal;

(2) Paradigmas, crises e revoluções científicas;

(3) Considerações finais: externalismo, ciência normal, paradigmas, revoluções e a questão das Ciências Humanas.

As referências que fundamentam o vídeo são: CHALMERS, Alan. O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993; KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2018; KUHN, Thomas. O caminho desde a estrutura: ensaios filosóficos, 1970-1993. São Paulo: Unesp, 2017; OLIVA, Alberto. Racional ou social? A autonomia da razão científica questionada. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2005.

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quarta-feira, 8 de julho de 2020

Em defesa das Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia Nacional da Ciência, assim como nos demais dias, cientistas sociais lidam com desafios o tempo todo: opiniões, ideologias, distorções, falácias, determinismos... Há diversas formas de produzir significado sobre a vida humana em sociedade competindo com o conhecimento que fundamenta a nossa atuação profissional.

O próprio conhecimento científico das relações sociais não parece escapar dessas influências, e muito menos as pessoas/cientistas - elas mesmas integrantes das sociedades humanas que investigam. Além disso, há de se ter clareza de que outras matrizes de conhecimento possuem muito valor.

Diante de todas essas questões, é preciso ousadia e dedicação para afirmar uma ciência social crítica, rigorosa e criativa. Demanda tempo, condições materiais adequadas, estudo, maturidade; domínio do que foi e é pesquisado e teorizado sobre múltiplos temas que se inter-relacionam; domínio das bases filosóficas sobre o ser e o conhecimento; e domínio dos artefatos metodológicos disponíveis, da estatística à etnografia.

É verdade que cumprir todos esses requisitos equivale a abdicar de viver para apenas trabalhar, sendo que isso não vale o esforço. Contudo, os tempos sombrios são aqueles em que nos tornamos mais relevantes.

Procurando rigor, pluralidade, criticidade e criatividade, na produção e divulgação do conhecimento, os desafios que requerem ousadia podem se concretizar na defesa das Ciências Sociais e de sociedades mais democráticas, livres, sustentáveis e com oportunidades para todos.

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quinta-feira, 2 de julho de 2020

O materialismo histórico e dialético


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O vídeo tem como objetivo apresentar as características do materialismo histórico e dialético, elaborado por Karl Marx, em parceria com Friedrich Engels, destacando suas fontes principais (dialética idealista, materialismo mecanicista, economia política empirista e filosofia política socialista).
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Além disso, o vídeo discute as diferenças do método marxiano de análise da realidade social na relação com o empirismo e o indutivismo. A aula contou com uma edição pormenorizada, que contém trechos do filme "O jovem Karl Marx" (Diaphana Films, 2017) e uma fala do Prof. Dr. José Paulo Netto (UFRJ), especialista em marxismo.


As referências que fundamentam o vídeo são: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998; MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2011; MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2011; OLIVA, Alberto. Ciência e ideologia: Florestan Fernandes e a formação das Ciências Sociais no Brasil. Porto Alegre: EdiPUCRS, 1997; VANDENBERGHE, Frédéric. Uma história filosófica da sociologia alemã: alienação e reificação. Volume 1: Marx, Simmel, Weber e Lukács. São Paulo: Annablume, 2012.

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segunda-feira, 15 de junho de 2020

Popper e o "falsificacionismo"

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O vídeo tem como objetivo o entendimento da epistemologia falsificacionista de Karl Popper, em diálogo com o positivismo de Auguste Comte e o empirismo lógico do Círculo de Viena.




O material se divide em duas partes: 1) Um resgate dos argumentos do empirismo, em especial da doutrina positivista de Comte e do Círculo de Viena, indicando aproximações e distanciamentos da filosofia da ciência de Popper; 2) A epistemologia elaborada por Karl Popper, a partir da ideia de "falseabilidade" ou "falsificacionismo". 

Acesse também:

As referências que fundamentam o vídeo são: HAHN, Hans; NEURATH, Otto; CARNAP, Rudolf. A concepção científica do mundo – O Círculo de Viena. Cadernos de Historia e Filosofia da Ciência, 10, 1986, p. 5/20; OLIVA, Alberto. Ciência e ideologia: Florestan Fernandes e a formação das Ciências Sociais no Brasil. Porto Alegre: EdiPUCRS, 1997; POPPER, Karl. A miséria do historicismo. São Paulo: Edusp, 1980; POPPER, Karl. La lógica de la investigación científica. Madrid: Editorial Tecnos, 1971; POPPER, Karl. Lógica das Ciências Sociais. São Paulo: Editora Tempo Brasileiro, 1979.
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sexta-feira, 29 de maio de 2020

O positivismo em Comte e o Círculo de Viena


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O vídeo tem como objetivo apresentar o positivismo proposto por Auguste Comte e os seus desdobramentos no chamado Círculo de Viena.




O material se divide em três partes: 1) Os antecedentes do positivismo, com o foco no racionalismo e no empirismo; 2) A doutrina positivista e a obra de Comte; 3) Os desdobramentos da doutrina positivista, enfatizando o Círculo de Viena.
 
As referências que fundamentam o vídeo são: COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva; HAHN, Hans; NEURATH, Otto; CARNAP, Rudolf. A concepção científica do mundo – O Círculo de Viena. Cadernos de Historia e Filosofia da Ciência, 10, 1986, p. 5/20.

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segunda-feira, 2 de março de 2020

Abordagens qualitativas e quantitativas na pesquisa sociológica

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
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A pesquisa sociológica costuma ser classificada a partir de duas abordagens, a qualitativa e a quantitativa. Porém, ambas as abordagens se relacionam com alguns pressupostos, como as discussões ontológicas e epistemológicas. Em conjunto com os aspectos metodológicos e técnicos, essas discussões constituem o centro deste texto.

Donatella Della Porta e Michael Keating, em “Approaches and Methodologies in the Social Sciences”, organizam este debate categorizando quatro “correntes teóricas”. Do ponto de vista ontológico, as principais questões são: a realidade social existe enquanto entidade coletiva? É possível conhecer a realidade social? Do ponto de vista epistemológico, coloca-se as seguintes questões: como se dá a relação entre pesquisador e objeto de pesquisa? Que tipo de conhecimento é possível produzir?

A primeira corrente teórica citada pelos autores é o positivismo, que aparece em Augusto Comte, Herbert Spencer e, para alguns, em Émile Durkheim. Trata-se de uma escola fundadora da Sociologia como disciplina especializada, e que enxerga as Ciências Sociais como semelhantes às demais ciências. A realidade social é uma entidade externa ao observador, cognoscível na sua totalidade. O pesquisador deve descrever e analisar essa realidade. Pesquisador e objeto de pesquisa são diferentes e é possível que a pesquisa seja feita de forma neutra, sem que o pesquisador afete o objeto de pesquisa. O conhecimento resultante busca “leis”, “regularidades” e relações causais.

Num segundo momento, verifica-se a emergência do pós-positivismo ou neopositivismo, para quem a realidade social permanece entendida como objetiva e existente à revelia da mente humana. Entretanto, ela é imperfeitamente cognoscível. A ideia de “leis” é substituída pela ideia de “probabilidades”. Mesmo que não haja um rompimento com o positivismo no seu âmago, há uma flexibilização importante das suas prerrogativas lógicas e uma aceitação de algum grau de incerteza. O realismo crítico, por exemplo, de Roy Bashkar, define a existência de um mundo objetivo real, à medida que o conhecimento humano sobre ele é socialmente condicionado.

A terceira corrente teórica é a interpretativista, na qual os significados objetivos e subjetivos estão bastante conectados. Subsiste uma forte crítica ao mecanicismo positivista, que é confrontado com a valorização da humanidade presente nos processo sociais. Pelo fato de os seres humanos produzirem significado o tempo todo, a pesquisa sociológica deve interpretar esses significados que motivam as ações. Dessa forma, a subjetividade atravessa o pesquisador, o objeto de pesquisa e o conhecimento produzido.

Mas é na quarta corrente teórica, a humanista, que a subjetividade ganha a sua maior relevância. É imperativo diferenciar as Ciências Sociais das Ciências da Natureza, pelo fato de que as primeiras passam sempre pelo filtro subjetivo por parte dos indivíduos, o que é uma característica importante tanto para a pesquisa, quanto para o objeto de pesquisa. Clifford Geertz argumenta nesse sentido, direcionando as Ciências Sociais para um tipo de “Ciências Interpretativas”. No extremo dessa corrente teórica, a realidade inexiste para além das imagens relativas e parciais construídas pela humanidade.

Diante das quatro correntes teóricas apresentadas por Della Porta e Keating, a pesquisa sociológica pode contar com estratégias metodológicas mais bem informadas. Os positivistas, em geral, trabalham com a linguagem das variáveis, como as “dependentes” (“explicadas”) e as “independentes” (“explicativas”). Com os pós-positivistas o contexto entra em cena e, mesmo que se mantenha a linguagem das variáveis, as relações entre elas não são tidas como válidas para todos os lugares e momentos. As abordagens quantitativas costumam ser relacionadas com essas perspectivas. As correntes interpretativista e humanista tendem a enfatizar casos específicos como entidades complexas, ressaltando o seu contexto. Nem causa e efeito, nem generalizações sãos incentivadas nessa orientação. Esse é o universo em que costumam se desenvolver as abordagens qualitativas.

Para cada orientação ontológica, epistemológica e metodológica, coexistem técnicas de produção e análise de dados empíricos. Entre as abordagens quantitativas, os questionários estilo survey tendem a ser um instrumento característico de produção de dados. Para analisar esses dados, pode-se utilizar a estatística descritiva, destacando médias, medianas, frequências e tabulações cruzadas. Indo além, as análises de correspondência simples e múltipla são recursos valiosos para análises exploratórias, pois fornecem “mapas geométricos” de associações e distanciamento entre variáveis categóricas (entendidas como “modalidades”). A análise de variância (ANOVA) ajuda a entender se as diferenças entre médias são significativas ou não. As regressões lineares, por sua vez, possibilitam a construção de modelos que identificam os efeitos de uma (simples) ou mais (múltipla) variáveis independentes sobre uma variável dependente quantitativa, com dados em distribuição normal.

Quanto às técnicas de produção e análise de dados sob uma abordagem qualitativa, Martin Bauer e George Gaskell definem a necessidade de se captar e analisar valores, significados e aspectos simbólicos. Para isso, são adequados os estudos de caso, as entrevistas em profundidade, os grupos focais, as análises de conteúdo (que pode até flertar com a abordagem quantitativa), as análises de discurso e as etnografias. Essas são técnicas que aprofundam aquilo que é produzido no universo simbólico dos indivíduos e suas relações e interações.

Por fim, é sempre preciso dizer que as escolhas metodológicas devem estar relacionadas a um problema de pesquisa consistente e objetivos claros. Além disso, como fomenta Teresa Duarte, a possibilidade de “investigação a três” ou “triangulação metodológica”, sustentada em concepções ontológicas e epistemológicas bem discutidas, tende a auxiliar o avanço das Ciências Sociais.
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terça-feira, 10 de abril de 2018

O perigo da pós-verdade

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma das coisas mais preocupantes no tempo presente e no futuro próximo é a avalanche de notícias e informações falsas chegando para cada um de nós, por meio de várias plataformas. Se com a falsificação de textos e imagens uma parcela enorme da sociedade já tem dificuldades de distinguir o que é verdade e o que é mentira, quando se popularizar a manipulação de vídeos e áudios nós estaremos, literalmente, mais que perdidos. Isso já tá rolando, sob a alcunha de “deep fake news” (“falsificação profunda de notícias”, em tradução livre). 

Uma das loucuras nisso tudo é que a discussão sobre o “estatuto da verdade” já existe há muito tempo na Filosofia e nas Ciências Humanas. Entre as notícias que recebemos no cotidiano, em geral temos condições de distinguir o que é falso e o que não é. Em grande parte ainda é simples separar o joio do trigo. Já existem até sites e jornalistas fazendo isso. Ocorre que a noção de “fact check” (“checar os fatos”), esgaçada até o limite, não nos leva a um lugar conclusivo. É fácil questionar diversas conclusões dos “checadores de fatos” sobre determinados temas mais complexos, que envolvem maior subjetividade. A menos que se cheque absolutamente tudo (tarefa insana!), a própria seleção do que checar já denota alguma ausência e pode enviesar um debate.

No fundo, Jornalismo e Ciências Humanas estão diante da popularização de algo que atravessa os nossos fazeres profissionais há um bom tempo, que é a necessidade de estar sempre discutindo o que se entende por verdade. No Jornalismo, temos, sobretudo, a questão da imparcialidade. Nas Ciências Humanas, pra falar só de alguns caminhos, podemos pensar que a verdade é objetiva e basta pesquisá-la; que ela é objetiva, mas é preciso um trabalho de pesquisa metódico e sistemático; podemos pensar que só temos condições de conhecer uma parte dela, porque a verdade é carregada de subjetividades; ou, enfim, que o foco não deve estar na busca da verdade, mas somente nas subjetividades das relações humanas.

Nas últimas décadas, o distanciamento da comunidade científica e a seletividade ideológica dos meios de comunicação de massa ajudaram a pôr essas instituições sob a desconfiança de diferentes setores da sociedade. A essa altura do campeonato, com o mundo em chamas, parece que estamos à deriva, e que diferentes grupos disputam a direção de um barco que ninguém calcula pra onde vai. Nessa batalha, perdemos todos. Sem o mínimo de confiança nas mensagens que nos bombardeiam sem parar, em qual mentira vamos acreditar?

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