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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Contra o obscurantismo
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Sorriso amarelo
sábado, 28 de novembro de 2015
Merecido soco no estômago
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Enquanto o Congresso Nacional pega fogo, os rejeitos da mineradora privada se espalham pelo litoral e o desânimo parece querer nos afogar num mar de lama podre, duas iniciativas micropolíticas ajudam a respirar melhor: além das muitas escolas ocupadas por estudantes em São Paulo, a movimentação feminina nas redes sociais, por meio da tag “Meu Amigo Secreto”.
A iniciativa das minas é corajosa e é um soco no estômago. Sim, no meu estômago e no de praticamente todos os homens que eu conheço. Quase nenhum escapa a, pelo menos, uma história relatada. Eu, certamente, não escapo. O que me enche de vergonha e me põe em estado de reflexão. Só que pensamento, vergonha e apoio a autonomia delas, apenas no âmbito do discurso, parece e é pouco, bem pouco. Mais importante – e difícil – é transformar tudo isso em práxis, em união de teoria e prática cotidiana.
Nunca fui e nunca serei protagonista das pautas feministas. Não sou mulher e desconheço, na pele, o que é ser uma mulher. Acho que uma responsabilidade masculina é produzir a autocrítica entre nós, homens, para dizer e fazer o mínimo. Sério que isso tudo te parece apenas ressentimento? Apenas mimimi? Vitimismo? Sério que te parece que as minas se acham o centro do universo? Por quê? Por que não reconhecemos os nossos privilégios, as violências psicológicas que perpetuamos ou os silenciamentos que produzimos? Não seríamos nós, homens, os autoproclamados donos do universo?
A justa porrada no estômago pode ter um caráter pedagógico. Já tá mais do que evidente que as minas vão se calar cada vez menos e que o protagonismo delas tá só começando. Ponto para um mundo melhor. A hora de aprender a escutar, a respeitar, a deixar de ser um escroto é agora. Não dá pra adiar. Reconhecer que serviu o chapéu pode ser um primeiro minúsculo passo. Reconheço.
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quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Ele e ela no Brasil dos de sempre
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Duas histórias. Ele, homem altamente escolarizado, mestrando. Negro e sambista. Ela, motorista de ônibus em rotas intermunicipais de longa distância. Sobretudo, mulher motorista de ônibus. Ambas as histórias se entrelaçam no cenário brasileiro cotidiano. Num contexto de desigualdades multidimensionais.
Eu apenas ouvia a história dele. Amigo de longa data, ele narrava uma visita de técnicos responsáveis por consertar algo em sua cozinha. No meio da tarde, ele aguardava a finalização do trabalho. Conforme a conversa entre ele e os técnicos ganhava contornos banais, um dos técnicos acreditou ter reconhecido o contratante do serviço.
- Tu é sambista, né... só pode. Negão pra estar em casa de tarde, na boa, só se for celebridade.
Eu apenas ouvia a ela dizer as regras da viagem. Nunca a havia visto na vida, mas simpatizei com a ideia de que ela me levaria à cidade em que trabalho. No entanto, nem todos no veículo pensavam da mesma forma. A realidade é que quase todos ficaram espantados, para dizer o mínimo. A maioria não gostou da ideia de que uma mulher nos conduzisse estrada a fora.
- Moça, moça... quando vai chegar o motorista? A gente quer alguém que dirija bem.
Nas duas situações, eu só conseguia sentir vergonha. Vergonha do que via, da indiferença hegemônica, de como as pessoas reproduziam suas certezas fechadas e excludentes sem maiores receios.
Pensava, ainda, o quanto precisamos de médicos e médicas negras, professores e professoras negras, juízes e juízas negras. Pensava em quanto precisamos de mulheres motoristas, engenheiras e chefes. Não porque os homens brancos não podem ajudar na construção de uma sociedade melhor. Mas porque a injustiça e a desigualdade ainda são grandes demais.
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terça-feira, 29 de abril de 2014
Visíveis e invisíveis
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Vivia numa terra em que algumas vidas valiam mais do que outras. É, pode parecer incrível, mas era assim mesmo. Dependendo de quem estivesse em pauta, as coisas tomavam rumos muito diferentes. Ser um Zé Ninguém ou um craque do futebol fazia toda a diferença.
Todos os dias, vivenciava situações de desigualdade. Toda uma gama de atitudes e discursos escrotos para com o outro na vida social fazia a festa. “Você sabe com quem está falando?”, ouvia-se pelas ruas. Repetia-se: “Pois não, doutor”.
Um dia, dois atletas começaram uma campanha. Todos disseram: “Ah, que vergonha desse mundo racista!”. “Somos todos macacos! Uma banana aos racistas!” Camisetas da campanha venderam muito. Os meios de comunicação de massa se locupletaram como nunca. Aquilo faria as coisas avançarem. Só que não?
Enquanto isso, milhões eram subjugados. Milhões sem glamour. Quase invisíveis para o mercado e para a mídia, pois não davam lucro. Eram Amarildos, DG’s, Paulos, Josés e Marias. Naturalizavam-se, assim, desigualdades nada naturais.
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sexta-feira, 28 de março de 2014
A audiência
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Lia a última publicação do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). As respostas de 42,7% da população pesquisada sugeriam que mulheres que vestem roupas curtas justificam possíveis violências sexuais contra elas mesmas. Tenso e incomodado, adormeci.
Tinha dúvidas se estava sonhando ou estava desperto. Encontrava-me numa audiência judicial (?!). Conhecia os bastidores do caso. Uma menina de uns 20 e poucos anos processava um antigo chefe por assédio. Lembro-me das risadas dos advogados. Quando a mulher chegara ao escritório, antes mesmo de mover a ação, ninguém acreditara nela. Vestida sensualmente, considerada vulgar pelos outros, ela seguira com a causa.
Naquela audiência, o advogado dizia:
- Veja bem, excelentíssimo. Minha cliente está aqui como está em todos os lugares. Livre, vestida como quer. Sim, com roupas curtas e apertadas. Justamente por isso, simplesmente por ser quem ela é, ninguém tem o direito de assediá-la. Ou aderimos de vez à barbárie?
O despertador gritou desesperado. Bah, que sonho louco. Dormi e acordei, apenas? Será? Sei não... Porém, fiquei na esperança de que o magistrado não agisse como os 42,7% que responderam ao IPEA. Que estudasse o caso. Que não fortalecesse a vergonha de ser homem nos dias de hoje.
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Um abraço em Mandela
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Um abraço. Gostaria muito de ter dado um abraço em Nelson Mandela. Aliás, em Rolihlahla Mandela. Em Madiba. Hoje, no dia da sua morte, sinto esse desejo com maior profundidade.
Mandela é um vencedor. Representa a vitória da humanidade sobre a opressão. Uma vitória, infelizmente, bastante incompleta. Foi-se o Apartheid na África do Sul. Porém, o racismo insiste.
A batalha que Madiba simboliza permanece quando um garoto de cabelos volumosos é determinado pela sua escola a cortá-los. Quando um jogador de futebol sai do gramado em prantos ao ser comparado a um macaco. Quando são reproduzidas piadas racistas. Quando se diz que os negros são inferiores.
Um abraço para Madiba. Para Zumbi dos Palmares. Para todos os Panteras Negras. Para Martin Luther King. Para Malcom X. Para Abdias do Nascimento, João Cândido e Milton Santos. Para a guerreira Dandara. Para Luíza Mahin. Um abraço para Tereza de Benguela.
Um abraço para a África e a negritude espalhada pelo planeta. Um forte abraço.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Egos e ervilhas
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Desconfio de qualquer jornalista. Quando foi que uma profissão tão relevante tornou-se o berço de impropérios e lugares comuns? O que leva um sujeito que é treinado para ouvir distintas versões sobre os acontecimentos a proferir sentenças absurdas como o dono da verdade?
Alguns colunistas/jornalistas, dia após dia, carimbam a população com a sua pretensa sabedoria. Quem os lê, por sua vez, pode acreditar que eles devoraram os clássicos da filosofia, das ciências sociais e da literatura. Apesar de achar pouco provável, até não duvido que algum conhecimento possa se debater nestas mentes confusas.
Uma das últimas pérolas que li discorre sobre o radicalismo e o idealismo, através de dois exemplos específicos: o feminismo e a figura de José Dirceu. Não há, entretanto, sequer uma definição sobre qualquer um dos conceitos. Para as ideias soltas expostas no texto, tanto o movimento de emancipação da mulher, quanto o político petista se traduzem em manifestações individuais de egoísmo atrelado a um ego faminto por reconhecimento.
Interessante. Sem sentido, mas interessante, do ponto de vista retórico. Uma das técnicas retóricas mais conhecidas é dizer que o outro faz aquilo que estamos fazendo. Bingo! Quanta semelhança com o referido texto. Radical e egoísta e chamando os outros disso tudo. Quanta semelhança com os jornalistas que escrevem sobre tudo e todos, mas se legitimam apenas a partir da amplitude que o veículo de comunicação no qual trabalham alcança na sociedade.
Um dos maiores sociólogos do século XX, o francês Pierre Bourdieu, defendia que as ciências sociais precisam buscar sempre um afastamento das noções cotidianas acerca do real. Uma espécie de vigilância na produção do seu conhecimento, uma ruptura inspirada em Gaston Bachelard. Nessa linha, muitas das assertivas erigidas desde a compreensão espontânea sobre a vida social resvalam em pré-noções, que podem, sim, derivar na reprodução de um arbitrário cultural específico.
Pois bem. Dizer que não há machismo na contemporaneidade é contrapor relatos, experiências detestáveis e estatísticas lançadas por organismos de pesquisa sérios e com mais credibilidade do que o cérebro de jornalistas sabichões. A Organização das Nações Unidas (ONU) não faz rodeios quando retrata a situação da mulher no cenário atual. Cerca de 70% dos seres humanos femininos sofrem algum tipo de violência no decorrer das suas trajetórias na Terra. Uma em cada cinco pessoas femininas será vitimada por tentativa de estupro durante a sua trajetória neste planeta.
Os dados são, infelizmente, incontestáveis. Estão aí para qualquer um ver. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), deste ano, não deixa dúvidas: “Destaca-se a necessidade de reforço às ações previstas na Lei Maria da Penha, bem como a adoção de outras medidas voltadas ao enfrentamento à violência contra a mulher, à efetiva proteção das vítimas e à redução das desigualdades de gênero no Brasil”.
Só que essa é só a ponta de um trágico iceberg. Basta olhar para a história humana com rigor, não somente escrever livrinhos feitos para ganhar dinheiro e inchar as ervilhas presentes nas cabeças alheias. O resultado da caminhada machista recai, nos dias de hoje, naquilo que Bourdieu conceituava como violência simbólica. Uma violência, uma dominação que não demanda obrigatoriamente a força física, mas se configura em elementos simbólicos e atitudes. Além disso, que se imiscui no próprio indivíduo que sofre a violência, fazendo com que ele não a entenda como tal.
Salvas as exceções que confirmam as regras, os movimentos pela emancipação da mulher, sob a égide do que se conhece por feminismo, não pretendem inverter a opressão. Não querem que os homens passem ao papel de oprimidos, e as mulheres de opressoras. Querem a justiça. Querem que as mulheres sejam do jeito que bem entenderem. Que se vistam do jeito que bem entenderem. Que ajam da maneira que bem entenderem. Sem receios de serem subjugadas, estupradas ou julgadas por uma moral hipócrita que não resiste à meia dúzia de argumentos.
Um minuto para respirar. Ter que articular essas palavras tão óbvias dá uma descrença na humanidade, capaz de fazer perder o ar. Sigamos.
Quando tratamos de José Dirceu, aí a coisa tende a ficar ainda mais óbvia. Os festejados escritores de textos bonitinhos – e sem conteúdo – esquecem (ou desconhecem) totalmente as intermitências da cena política e ideológica nacional. Isso que dá jornalistas quererem distribuir verdades compulsórias e irrefletidas.
Desde a década de 1990, as principais correntes “idealistas” começaram a cair fora do Partido dos Trabalhadores (PT). Grande parte dos grupos organizados sob a bandeira de um socialismo mais genuíno (sem trocadilho), sob os preceitos do “Programa de Transição” de León Trotksy ou da sua atualização, nas feições de Nahuel Moreno, não está mais no PT faz tempo. No momento em que a sigla assumiu o Governo Federal, aí toda essa lambança ideológica veio à tona de vez.
O documento intitulado “Carta aos Brasileiros” marca em definitivo o afastamento do PT de uma linha ideológica comprometida com os ideais da esquerda mais radical. Não é imperativo desfrutar de grandes saberes para descobrir isso. No entanto, deve-se buscar informação, reflexão e alguma lógica entre as palavras e a realidade. Muito mais fácil é sair digitando lugares comuns.
Hoje, José Dirceu não é um radical idealista. Nem aqui, nem em Cuba, nem na França, nem na China, nem nos Estados Unidos, nem na Alemanha. Dizer esse absurdo é patinar no barro das falácias dos dizeres espontâneos. Ação que traz pequenos problemas na mesa do bar. Contudo, que se faz lamentável para jornalistas e escritores de renome. Que ajuda a reproduzir desigualdades e opressões. Embora o PT diferencie-se um pouco dos demais partidos por um caráter mais propenso às classes populares, os banqueiros nunca lucraram tanto quanto nos seus mandatos. Os ricos enriqueceram ainda mais. Como pode um líder dos grupos dominantes dessa organização ser, neste contexto, um idealista radical? Alguém me explica, quero compreender.
Sugiro a leitura do texto da sensacional Eliane Brum, na sua estreia no El País, do qual cito este pequeno trecho: “A mudança é um momento agudo de um processo histórico no qual Lula e o PT tiveram, mais do que qualquer outro político e partido, uma contribuição decisiva, no concreto e no simbólico de sua ascensão ao poder. Apartaram-se, porém, e parecem estar bem menos preocupados do que deveriam com seu divórcio com as ruas. O braço erguido, o punho cerrado, é um capítulo melancólico de um partido que parou de escutar”.
Neste mundo de hoje, ser homem, branco e com condições razoáveis de sobrevivência econômica e não perceber todas as opressões e desigualdades que atravessam a nossa existência é algo análogo a uma ofensa grave à espécie humana. Por isso, dedico-me todos os dias a ajudar a criar as oportunidades que tive para outros seres humanos. Dedico-me todos os dias a desconstruir os alicerces simbólicos das injustiças no diálogo com os estudantes que tenho a honra de poder trabalhar.
Por fim, o feminismo e José Dirceu só são radicalismos idealistas no instante em que o ego se junta à ervilha. Ego e ervilha juntos formam um amálgama catalisador de preconceitos, irresistível para quem pensa que pode escrever sobre tudo, mas não se aprofunda em nada. Em alguns casos, assim caminha a humanidade.
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Um mapa das desigualdades raciais
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Trovejava. Lia um jornal gratuito, escorado debaixo de qualquer marquise. Viajando, construía o mapa das desigualdades entre negros e não-negros no Brasil atual. A lista de orientação era variada:
- Cerca de 50% da população brasileira é negra ou parda (IBGE, 2010).
- O trabalhador negro recebe, em média, 36% a menos na quantia do seu salário do que os não-negros (DIEESE, 2013).
- Cerca de 90% dos negros permanecem fora das universidades, mesmo com o número daqueles que as frequentam aumentando em quatro vezes desde a implementação das Políticas de Ações Afirmativas (MEC, 2011).
- Aproximadamente 70% de todos os assassinatos no país vitimam pessoas negras (IPEA, 2013).
De repente, a cartografia mental banhou-se de sangue, opressão e desigualdade. Respirou, suportou e ousou superar. Da amargura à semente do novo. Daquilo que precisa ser descoberto, como dizia o sábio geógrafo Milton Santos. No cenário erigido pela imaginação do real, tambores começaram a tocar. Grandes e belas cidades negras ergueram-se, consolidaram-se outra vez. Grandes gentes reconhecidas como grandes gentes. O berço de todas as gentes.
Entre passados e presentes, o real. As realidades. Luta. Resistência. Orgulho e valor. Até a vitória.
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013
O legado de Zumbi dos Palmares
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Poderia ser qualquer um. No caso, era ele. Nascido por aqui mesmo, de pele escura. Um rapaz comum. Com atenção, percebia o debate diante de si. Os argumentos principais defendiam a necessidade da valorização do Dia da Consciência Negra e da figura de Zumbi dos Palmares, assassinado em 20 de novembro de 1695. Ele mexia na barba. Pensava. O desdém de alguns na plateia simbolizava uma quase ofensa.
A controvérsia* girava em torno da presença de escravizados no interior do Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas, liderado por Zumbi no século XVII. Território de resistência dos negros escravizados que conseguiam escapar. “Lá tinha escravos!”, gritara um desconhecido. O debatedor explicava que o significado da escravidão entre as sociedades africanas era distinto. Representava uma sujeição ao domínio de outro ser humano, em virtude de guerras ou aprisionamentos. Porém, não era um sistema que transformava seres humanos em mercadorias e gerava acumulação de riquezas através do tráfico de gentes. A exploração não era renovada sistematicamente e não mantinha pessoas cativas de modo institucionalizado, numa categoria especial de subordinação.
Confuso, recordava a história do Brasil. Há 318 anos o Império Português degolara, mutilara, castrara, salgara e deixara em praça pública, no Recife, a cabeça de Francisco, então Zumbi dos Palmares. Durante meses, para servir de exemplo. Refletiu abismado: “Esse deve ter atazanado os senhores!”. Sentiu-se confiante. Mostrava-se possível enfrentar o racismo, resistir, contrapor a injustiça. Zumbi morrera, mas ainda hoje o seu legado ecoa em todos os cantos desse país. Sentiu um sopro de esperança. Vibrou orgulhoso por sentir-se mais negro. Seus antepassados não se deixaram escravizar sem oposição. Seguiu seu caminho, com um sorriso no rosto.
Poderia ser qualquer um. Nascido por aqui mesmo. Um rapaz comum, como eu. Mas eu tenho a pele clara, branca. Seja qual for o nível de ancestralidade africana presente na minha genética, eu o valorizo. Cerro os punhos por ele. Dobro-me em reverência à imagem de Zumbi. Imagem de luta e resistência a uma das maiores tragédias da história da humanidade.
* Não sou historiador, tampouco tenho talento para isso. No entanto, duas citações parecem importantes, no cenário das controvérsias acerca da escravidão entre os africanos e no Quilombo dos Palmares:
“Todas as situações de exploração existentes na África tradicional (...) não se constituem em sistemas escravistas, porque a exploração não era renovada sistematicamente e não suscitava uma categoria de indivíduos mantida institucionalmente (de fato ou de direito) em uma relação de subordinação. A escravidão como modo de exploração só pode existir se se constituir uma classe distinta de indivíduos com um mesmo estatuto social. Essa classe distinta, dita escrava, deve-se renovar de forma contínua e institucional, de tal modo que as funções a ela destinadas possam ser garantidas de maneira permanente e que as relações de exploração e a classe exploradora (senhores) que delas se beneficiam possam também se reconstituir regular e continuamente” (MUNANGA, 2006, p. 24).
“A escravidão produtiva era inviável em Palmares. (...) Não existiam em Palmares condições econômicas para a produção escravista. Os palmarinos viviam uma economia essencialmente natural. O uso da terra era livre. A produtividade da agricultura palmarina era baixa. O produtor palmarino garantiria escassamente seu sustento e produziria um magro excedente” (MAESTRI, 2002, p. 66).
Para maior aprofundamento na temática, recomendo os seguintes materiais:
MAESTRI, Mario. Benjamin Péret: um olhar heterodoxo sobre Palmares. In: PÉRET, Benjamin. O Quilombo dos Palmares. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2002.
MUNANGA, Kabengele. Para Entender o Negro no Brasil de Hoje: História, Realidades, Problemas e Caminhos. São Paulo: Ação Educativa, 2006.
Assim, não se esgotarão os debates, mas já se terá alguma referência sólida baseada em pesquisa documental e análise acadêmica.
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domingo, 16 de setembro de 2012
O racismo velado, por K. Munanga
Em entrevista para a Revista Fórum, o Antropólogo e Professor Titular da USP, Kabengele Munanga (saiba mais), não deixa de discutir as questões ligadas ao racismo espalhado pelo Brasil. O intelectual, nascido no antigo Zaire (atual Congo), discorre sobre o mito da democracia racial brasileira, os embates com os opositores das ações afirmativas e a função da mídia e da educação no combate
ao preconceito associado à cor da pele. A publicação é do blog Luis Nassif Online.
[…] Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
terça-feira, 5 de junho de 2012
A impunidade e a sociedade da disciplina e do controle: um olhar à luz de Foucault
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Por que o Brasil precisa das cotas
DO OUTRAS PALAVRAS - A importância histórica de certos fatos não é compreendida de imediato pelos que os testemunham. A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), que ontem derrotou, por onze votos a zero, a tentativa de anular as cotas para negros nas universidades é, provavelmente, um deles – por pelo menos dois motivos.
na velha mídia – e não só lá. Nos jornais e TVs, “intelectuais” como Ali Kamel e Demétrio Magnoli tinham todo espaço para afirmar que as novas medidas iriam introduzir… racismo e discriminação no Brasil! A oposição espalhava-se pela classe média e a agressividade contra as cotas atingia (embora minoritária) as próprias universidades públicas. Em muito pouco tempo, porém, as manifestações de superficialidade e histeria foram se dissipando. O conjunto de fatores que provocou a mudança inclui os expressivos resultados acadêmicos alcançados pelos cotistas, a emergência das periferias como sujeito social e político ativo e influente e o declínio dos antigos “formadores de opinião” – classe média e mídia conservadoras em primeiro lugar.sábado, 31 de março de 2012
Mais inclusão na UFRGS
Gregório Grisa*
Doutorando em Educação
Uma mudança feita pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) no processo seletivo de 2012 fez com que mais redações dos candidatos cotistas fossem avaliadas, aumentando, com isso, as chances de ocupação das vagas. Apesar de todo o impacto inclusivo no ingresso de alunos de escolas públicas e negros desde 2008 através das cotas, havia um déficit grande em relação à ocupação das vagas ofertadas, principalmente no caso dos autodeclarados negros.
Tal medida teve o objetivo de adequar o vestibular ao Programa de Ações Afirmativas da UFRGS, ou seja, trouxe no seu bojo a intenção de concretizar a política de cotas. Podemos dizer que, com o ingresso de mais alunos autodeclarados negros, inclusive nos cursos mais procurados, a Decisão 134/2007 que institui a reserva de vagas começa a ser efetivada.
O acontecido ganhou grande repercussão na mídia gaúcha: foram publicadas matérias acerca do aumento do número de alunos autodeclarados negros ingressando em cursos “nobres”, como medicina e direito, sobre a possível dificuldade de esses alunos acompanharem os cursos ou se formarem e até enquetes sobre como os cidadãos veem o fato de a UFRGS “baixar a exigência para as cotas raciais”.
Não se reduziu a exigência para preencher as cotas raciais, o que ocorreu foi uma mudança no sistema de selecionar as redações a serem avaliadas, reparando um processo que pré-eliminava o candidato cotista antes mesmo de sua redação ser avaliada. Basta optar pelo prisma que se quer olhar: se se entende que as cotas são um favor, fala-se em “baixar exigência”; se há, entretanto, a compreensão de que elas são um direito social conquistado, tratamos como uma correção da dinâmica da política.
Entendo que toda busca por imparcialidade feita ao entrevistar professores, alunos e mostrar a trajetória de cotistas não retira o caráter enviesado da cobertura feita. A inculcação de dilemas ilegítimos e de problemas tangenciais marca o desserviço feito por algumas reportagens. Os órgãos de imprensa hegemônicos têm toda liberdade para ter suas opiniões acerca de qualquer política pública, mas seria interessante que essa opinião ficasse clara, e não submersa na construção textual que induz o pensamento dos leitores.
Adjacente a esse processo está a dificuldade que parcela pequena e poderosa da sociedade gaúcha tem de lidar com o fato de que a maior universidade do sul do país não é mais um lugar exclusivo para pessoas brancas com poder aquisitivo. Ainda em 2007, por exemplo, antes das cotas, tínhamos 70% dos alunos ingressantes oriundos de escolas particulares e apenas 3% dos aprovados no vestibular eram autodeclarados negros de escola pública. Esse era um quadro vergonhoso para uma universidade pública da dimensão da UFRGS. As ações afirmativas mudaram significativamente esse cenário, democratizando minimamente o acesso.
Com a renovação das cotas marcada para esse ano, vai se tentar remontar a aura de polêmica do defasado debate sobre ser contra ou a favor da reserva de vagas. Digo defasado pelo fato de que mais de 70 instituições públicas brasileiras têm algum modelo de ações afirmativas, e a maturidade do debate atinge estágios mais avançados que esse. Diferente do alarde midiático sobre a limitação dos cotistas para obter bom desempenho e se formar, o aprimoramento técnico e a confecção de políticas de permanência e acompanhamento qualificadas são as metas das universidades no que tange às cotas.
Ainda impressiona como tanto o mito do mérito quanto o de que o vestibular é um meio pleno de avaliação estão presentes no imaginário da comunidade acadêmica e da sociedade. A medida que efetiva as cotas e amplia a diversidade na universidade, além de fazê-lo, coloca em xeque o mantra de que o vestibular é um modelo justo e legítimo de avaliar se a pessoa vai ou não acompanhar seu curso ou se formar. Na UFRGS, no máximo 30% dos alunos se formam no tempo mínimo do curso; são minoria em todas as áreas de conhecimento. Inclusive, é por essa razão que têm o direito de se formar no dobro do tempo de duração de seu curso. O desafio da universidade é dar condições para que todos os alunos se formem no tempo adequado, e não somente, os cotistas.
O que temos visto, nos primeiros resultados de desempenho, é que qualquer avaliação feita com apenas cinco anos de cotas é prematura e limitada, tendo em vista que, pela média geral, poucos cotistas irão se formar nesse período. As diferenças de acompanhamento acadêmico por área de conhecimento, os perfis de cursos e currículos ainda não permitem um olhar mais coeso e global. A pluralidade de critérios avaliativos das áreas, os graus distintos de dificuldade das disciplinas, a pouca representatividade quantitativa de cotistas em alguns cursos são outras variáveis que tornam complexa a avaliação.
A universidade vive um processo histórico de transformação e aprendizado que, além de ampliar a diversidade nos seus espaços, está desafiando a comunidade acadêmica a desenvolver outros parâmetros de trabalho pedagógico e de relações humanas.
* Gregório Durlo Grisa é Doutorando em Educação na UFRGS e membro da Comissão de Avaliação do Programa de Ações Afirmativas. Blog: Augere http://gregoriogrisa.blogspot.com.br/. Texto retirado da edição de Março/2012 do Jornal da UFRGS.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Racismo no futebol, até quando?
No Brasil, clubes como o GFPA possuem casos de racismo entre os torcedores nos seus históricos; o Palmeiras, de Antonio Carlos, acusado de racismo contra o volante Jeovânio, como a outra manifestação, as nojentas atitudes do zagueiro Danilo - que, além do crime de racismo, ainda cuspiu na face do adversário negro. Numa das Libertadores dos anos 2000, o zagueiro argentino Desábato saiu do Morumbi direto para a delegacia, após denúncia de racismo no decorrer da partida.
Existem equipes que não aceitam jogadores fora dos padrões caucasianos, na Rússia e na Bulgária. Um dos grandes clubes da Itália, a Lazio, possui ligações históricas com as elites do país que apoiavam Benito Mussolini, durante o fascismo. As saudações tradicionais de uma das suas torcidas organizadas simula as saudações fascistas e engrandece a sua perspectiva de poder. Há alguns anos, Di Canio representava o sentimento fascista no plantel titular da Lazio, comemorando gols através da saudação fascista e exibindo tatuagens ligadas a esses grupos.
Vale lembrar que em 2009, na semi-final da taça Libertadores da América, o atacante argentino Maxi Lopez do GFPA foi denunciado em plena Belo Horizonte por chamar o atleta do Cruzeiro, Elicarlos, de "macaquito". As vozes da imprensa gaúcha silenciaram e justificaram o silêncio com a ridícula sentença de que "argentinos não sabem o que a expressão significa".
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Saramago no FSM 2005, em Porto Alegre
Quando o Fórum Social Mundial ainda estava pujante, José Saramago veio a Porto Alegre e deixou suas sábias palavras para os seus ouvintes. Segue a palestra do escritor e poeta genial, que não está mais entre nós, infelizmente.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Faça a coisa certa!
Um dia muito quente. Uma sociedade material e espiritualmente em crise. Alguns séculos de racismo e perseguição a um determinado grupo de pessoas. Mesmo assim, a tarefa é sempre fazer a coisa certa. O que é a coisa certa? O genial Spike Lee joga tudo isso num caldeirão, e faz da realidade cinema, ou do cinema realidade...
Fight the power!
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Brasil: história e consciência negra
Por Roberta Traspadini, economista e educadora popular. Reproduzido do sítio do Brasil de Fato, 17/11/2011.
“... a história nos engana/ Diz tudo pelo contrário / Até diz que abolição/Aconteceu no mês de maio/A prova dessa mentira/É que da miséria não saio/ Viva vinte de novembro/ Momento pra se lembrar/ Eu não vejo no treze de maio/ Nada pra comemorar...” (domínio público).
A história do Brasil se caracterizou pela conformação da violência colonial europeia que, além de branca, era masculina na sua construção de poder.
Para isto, foi instituindo com força vil e adestramento cultural uma forma de ser para o negro e para o índio, a partir daquilo que o dono dos sujeitos definiria como civilização e trabalho.
Essa história, marcada a fogo e a ferro pelo racismo, se apresentou como única, como a história dos vencedores sobre os vencidos, e relegou os negros e os índios a um papel subordinado, ocultando sua função produtora de vida para outros.
O Brasil colonial aparece, em sua essência, como uma fase que oculta os reais processos de opressão e exploração utilizados pelos donos do poder para calar – na chibata e no tronco – os que se rebelavam contra a ordem dominante.
Essa capacidade de transformar o aparente no real trouxe para nossa história uma perversa essência de consolidação de estereótipos.
Estes estereótipos, para a ordem dominante do progresso, consolidaram um poderoso antagonismo sobre quem eram/são os civilizados/bárbaros, cultos/ignorantes, belos/feios, homens e mulheres ao longo da história.
A construção desse imaginário coletivo conformou uma lógica de não poder ser para uma parte expressiva de nossa classe trabalhadora negra e índia. Seja na condição de escravos ou na atual relação aparente de trabalhadores livres, reforçada pela democracia restrita.
Instaurou-se uma liberdade condicionada para a sociedade como um todo, sobre ser e sentir-se menos, como índios e negros.
O suposto fim do período colonial já havia assentado a centralidade das bases de consolidação da ética-moral sobre o ser menos, como mecanismo vital de dominação de uma classe sobre a outra.
A pele, os corpos, as culturas dos negros e índios, já haviam entrado para a história a partir da forma e do conteúdo dominantes, de exercer e manter o poder, eliminando objetiva e subjetivamente o real poder/dever ser desta parte integrante de nossa classe.
Na aparente consolidação democrática do Brasil republicano, igualitário e libertário, se consolidou a histórica essência dos valores éticos-morais da desigualdade, manifesta na inserção subordinada desde um ser menos para índios e negros.
Sob a aparente sociedade democrática se funda, além da desigual conformação de classes, uma relação ainda mais perversa de classificação sócio-cultural pelo gênero, pela raça-etnia e geracional.
Ser trabalhador e negro no Brasil significa que além da exploração produtora de valor para outros, a opressão real se manifestará pela histórica caracterização da produção do ser menos, quando em essência é ser mais.
Os mesmos postos de trabalho, ocupados por trabalhadores com cores de pele diferentes, conformarão um grau ainda mais perverso de exploração e opressão no interior da nossa classe.
A classe que vive do trabalho está subordinada pelo poder econômico e político da classe que vive da exploração do trabalho.
No Brasil, entre os explorados, ser mulher, ser negra e ser pobre, condiciona uma lógica de poder que intensificará os perversos conteúdos de exploração do capital sobre o trabalho no nosso território: a superexploração.
A liberdade desfigurada e a exploração manipulada geram uma herança maldita, que não será aniquilada ao menos que consigamos romper com a forma-conteúdo de produzir mercadorias classificando o humano como objeto da relação, da vida que ele produz.
O poder popular requer a restauração do ser mais da classe que vive do trabalho, rompendo com a estrutura de produção de vida em que o ser menos foi instituído como forma de adestramento necessária à manutenção da ordem e do progresso burgueses.
Segundo o último censo do IBGE-2010, a população brasileira é de mais de 190 milhões (190.755.799). Deste total, 43,1% se declarou preta (82.215.750) e 7,6% parda (14.497.441). Somados, chegamos a quase 97 milhões de brasileiros.
Oxalá que a história escrita e protagonizada por nós, a partir da luta organizada enquanto classe trabalhadora, nos permita recuperar na memória, nossa real história de ser mais, a partir da construção de um projeto nacional, democrático e popular, que ponha fim ao domínio do capital sobre nosso trabalho.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
O beco sem saída de Londres 2011?
É preciso reflexão sobre a violência na capital britânica
Nunca fui a Londres. Tudo bem, não é necessário estar presente em todos os lugares para que se possa pensar sobre eles. Os acontecimentos de violência na capital britânica fervilham no caldeirão de revoltas, protestos e manifestações eclodidas no agitado ano de 2011. Esses episódios fazem parte de um conjunto de fenômenos sociais que assinalam o início do século XXI.
Lembremos os automóveis incendiados na França de 2006, pensemos na violência urbana que assola nossas grandes cidades. Nos desmatamentos compulsivos, no imenso número de pessoas que estão desempregadas no planeta. Essas dificuldades enfrentadas pela espécie humana, na tentativa de se organizar socialmente de uma maneira que beneficie a si própria, constituem boa parcela do que se costuma chamar de civilização ocidental.
Além disso, também necessário é sublinhar o advento da tecnologia que proporcionou a extensão das redes sociais, mesmo que tal elogio deva conter comentários explicativos. No instante em que qualquer indivíduo acessa as redes sociais, ele utiliza um artifício da tecnologia da informação e da comunicação, mas coloca a sua personalidade nas relações. Ora, não estou excluindo o atraente lado do anonimato, dos fakes ou dos crimes virtuais de distintos gêneros. Observando as redes sociais, suporte tecnológico das insurreições árabes e das confusões de toda a sorte na Europa, vislumbram-se perfis de personagens que em algum momento atuam na realidade, de interação face a face. Eles fazem uso dos mecanismos disponíveis para comunicação e colocam fogo em lojas londrinas, despertando o ódio mais visceral do poder instituído – Estado e mercado.
Em outros escritos busquei um livro de Norberto Bobbio [1] para defender a validade da díade entre as categorias políticas entendidas como direita e esquerda. Não pretendo estender muito as palavras sobre isso. No entanto, no cotidiano das redes sociais, é bastante simples identificar verdadeiras sentenças racistas, homofóbicas e xenófobas, sem esquecer as posturas visivelmente fascistas, no rigor do significado. Nada disso é igual a dizer que posicionamentos críticos e intencionados a um futuro diferente dos parâmetros em vigor não existam nas fileiras do virtual. Trata-se de um campo de disputa discursiva.
Estive pensando no quanto é desafiador tentar incorporar na rotina das nossas vidas a permanente capacidade observadora, reflexiva e crítica acerca da realidade em que estamos inseridos. Não contabilizamos mais do que 30% dos seres humanos – para citar um número alto – que acordam todas as manhãs livres de algum incômodo relativo à forma como procedem para manterem as suas sobrevivências. A exploração do trabalho continua sendo uma característica das sociedades ocidentais capitalistas contemporâneas, e relevante fatia dos outros 70% que sobraram ocupa a maioria do seu tempo nas suas atividades laborais.
Se não bastasse o tempo devotado ao trabalho, o período de lazer de vasta quantidade de indivíduos é ocupado pelos meios de comunicação de massa. Aí uma referência aos impressos (revistas, jornais, etc.), sobretudo à televisão e ao rádio. Embora os princípios editoriais da maior empresa de comunicação brasileira sejam dotados de um caráter impressionantemente controverso, na comparação com a programação apresentada, a realidade não permite distorções ingênuas quanto ao que se passa nessas mídias. Não demanda exagerado esforço elencar os programas de fofocas, os bate-bocas ao vivo, as pornografias, a reprodução de padrões culturais estrangeiros, a disseminação de uma visão de apologia ao mercado e a um código moral de conduta imiscuído na competitividade e na distinção social. A cereja do bolo repousa, é lógico, em quem financia as grandes corporações midiáticas, a pragmática publicidade e propaganda. O grande mercado vende seus produtos nos meios de comunicação de massa, financia sua programação e se vê contemplado pelos discursos “ocasionalmente” adequados aos seus interesses.
Os obstáculos para a reflexão duradoura se mostram ainda na interpretação dos fenômenos sociais que se ampara em argumentos das ciências naturais ou desconsidera as ciências humanas e sociais. Muito tem se falado sobre o atirador de Oslo, que em consonância com grupos de extrema direita executou dezenas de aleatórios sujeitos há pouco tempo. E para o espanto singular, a tentativa de retirar o conteúdo político dos assassinatos está escorada na ideia de que o fascista em questão esteja louco, perturbado mentalmente. Esteja com um problema de doença física. Seja qual for o viés nesse sentido, entendo como insustentável qualquer iniciativa de avaliar o crime político e social cometido na Noruega como uma decorrência de contingências de natureza físico-químico-biológica. O norueguês Anders Breivik é um maníaco maluco, sim, mas situado num campo bem definido politicamente, a extrema direita xenófoba e racista da Europa contemporânea.
Regressando aos distúrbios em Londres, é importante se informar sobre a conjuntura, no intuito de ilustrar uma imagem do que está ocorrendo por lá composta de mínima fidedignidade. A ofensiva de Margareth Thatcher contra a vertente social do Estado impulsionou a degradação das zonas suburbanas no país, e encaminhou um novo processo acelerado de concentração de riquezas e poder. Chegamos em 2011 com o mundo em ebulição, greves vigorosas enfrentando o Estado e o capital na Grécia e em Portugal, com uma imensidão de indignados na Espanha, com a população chilena reivindicando junto com os seus estudantes o fim do predomínio dos interesses mercadológicos sobre a totalidade da vida humana.
Nesse cenário, o primeiro-ministro do governo inglês, David Cameron, líder do Partido Conservador, tratou de aplicar um pacote de medidas de austeridade econômica ao país. Na prática, isso se traduz em redução de recursos às localidades mais pobres, por exemplo, o fechamento de associações comunitárias e clubes de bairro. Esses locais ofereciam alternativas à rua, ao mundo anárquico em valores da sarjeta do capitalismo. De acordo com o jornal The Guardian, em determinadas cidades houve corte de 70% dos projetos sociais destinados aos jovens; no bairro de Tottenham, onde explodiram os atos violentos, o corte de verbas foi de 75% e oito dos 13 centros de assistência social fecharam as portas. Combinados com a trajetória fundada por Thatcher e aperfeiçoada no decorrer do tempo, os recentes planos que suplantam direitos sociais em nome da saúde da economia carregam como o efeito rebote evidente os mais controversos conflitos sociais.
A charmosa Londres não escapa de outras duas mazelas: o preconceito e a violência policial. Dizem os moradores que a confusão do momento resultou da morte de um rapaz negro, Mark Duggan, em Tottenham. Familiares e amigos acusam a polícia pela tragédia, e a Scotland Yard diz que investiga o caso, sem transparecer muito afinco. O fato é que é sabida a exclusão pela qual passam imigrantes e parentes africanos, nascidos ou não por lá. Está oculto (ainda que esteja vivo) o sentimento da imperatividade de uma limpeza étnica no continente. Os partidos de direita estão no poder na França, na Inglaterra e na Itália, pelo menos, protegidos pelos votos de setores menores da direita, a face extremista que beira o fascismo e contabiliza razoável eleitorado.
Tenho que admitir que uma fala de Arnaldo Jabor na televisão me deixou pensativo. Não sei o que aconteceu com ele, do qual discordo com veemência em três quartos do que produz. O cineasta opinava que em situações históricas insolúveis, a tendência é a marcha da insensatez, da estupidez, que no poder significa fascismo. Dizia ele que caminhamos para um grande beco sem saída, cujo sintoma psicótico está explícito no criminoso de Oslo.
Não compactuo de tal perspectiva próxima de um fatalismo determinista, encostado nos pilares do descrédito à democracia. Entretanto, é de se pensar os perigos do fascismo global, da intolerância se espalhando pelos cantos, da destruição das remotas conquistas da humanidade enquanto espécie. Parece que ainda é o momento de canalizar a crítica a essa possibilidade, de não dar espaço às defesas fascistas, de levantar a bandeira da pluralidade e da união dos diferentes povos e etnias em favor da humanidade e do planeta.
Mais do que isso, o momento é propício para trazer o debate sobre a relação entre o capital e o trabalho à tona novamente. Acompanhando os escritos de Juremir Machado da Silva publicados na internet, numa das suas conversas com Edgar Morin, intelectual reconhecido nas ciências humanas e sociais deste século, o francês de 90 anos colocava a necessidade de diminuir a distância entre o mundo encantado do capital e o repertório de lamúrias do mundo do trabalho. Nisso não está embutida a conclusão de que a economia comanda a vida social ou coisa do tipo.
Em síntese, um dos passos para fugir do grande beco sem saída sugerido por Jabor se constrói com o pensamento, a reflexão e a crítica. Isso tudo posto em ação, na prática, nos diálogos e na interação dos grupos sociais. Na pressão ao poder político e econômico hegemônicos. No enfrentamento ao preconceito e à intolerância fascista. As redes sociais podem ajudar ou prejudicar uma organização que busque uma nova distribuição do poder. Enquanto técnica comunicativa, elas ajudam. Mas a realidade que vai compô-las é e será criada por seres humanos reais, imersos num oceano de anseios e complexidades inerentes ao espaço histórico em que protagonizam suas vidas.
[1] Conferir BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: Razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 2001.


