quinta-feira, 26 de março de 2020
Manifesto: Diretrizes e medidas de combate à pandemia do corona vírus e para a recuperação da economia (UFRGS)
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Neoliberalismo e a nova razão do mundo
Por Felipe Queiroz
Ciência Política Unicamp
A nova razão do mundo é o segundo livro publicado em conjunto pelos autores e resulta das investigações desenvolvidas no grupo de estudos e pesquisa que coordenam Question Marx. O primeiro livro derivado dos seminários Question Marx, Sauver Marx? Empire, multitude, travail immatériel (2007), faz uma crítica ao pensamento de alguns pós-marxistas, entre eles Michael Hardt e Antonio Negri, que entendem ser a autossuperação do capitalismo o resultado de suas próprias contradições internas e acatam a crença progressista segundo a qual todo passo dado pelo capitalismo é um avanço em direção ao momento de sua autossuperação. A nova razão do mundo se apresenta como continuidade dessa investigação, apontando como e porque “ainda não terminamos com o neoliberalismo”, quando muitos autores, no ápice da crise financeira internacional, como Joseph Stiglitz, anunciavam seu fim.
O livro está dividido basicamente em duas grandes partes: A refundação intelectual e A nova racionalidade. A primeira parte é, em certo sentido, uma tentativa de retomar o debate aberto por Michel Foucault nos cursos do Collège de France de 1977-1978 e 1978-1979, expostos respectivamente nos livros Segurança, Território, População e O nascimento da biopolítica, apontando como se forma o neoliberalismo, como nova racionalidade do capitalismo contemporâneo. O ponto de partida da investigação dos autores é a crise do liberalismo, ou crise da governamentalidade liberal, nos termos de Michel Foucault, que dura entre 1880 e 1930. O objetivo é mostrar que o neoliberalismo não é uma simples continuidade das ideias liberais, mas, antes, marca um rompimento com a versão dogmática do liberalismo, que via no laissez-faire uma verdade inalienável. Enquanto o liberalismo clássico passava por uma profunda crise, a Revolução Russa, o avanço do socialismo e a disseminação das ideias de esquerda por toda Europa ameaçavam os liberais, impondo-lhes a necessidade de reformulação teórica do liberalismo. É nessa conjuntura de crise política, econômica e teórica que surge a principal tentativa de refundação do liberalismo: o Colóquio Walter Lippmann, em 1938. A partir do Colóquio, duas grandes correntes de pensamento neoliberal surgirão: a corrente austro-americana, representada por Friedrich A. Hayek e Ludwig von Mises, e a corrente ordoliberal alemã, cujos principais expoentes foram Walter Eucken e Wilhelm Röpke.
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domingo, 7 de abril de 2019
O que é o neoliberalismo?
Por Daniel Andrade
Sociologia FGV/São Paulo
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Foi somente a partir dos anos 2000 que a polêmica ao redor do neoliberalismo se requalificou academicamente, com cientistas sociais de diferentes especialidades se esforçando por oferecer definições mais precisas. Além das contribuições de Pierre Bourdieu, Loïc Wacquant e David Harvey, o debate se renovou com a publicação póstuma do curso de Michel Foucault intitulado Naissance de la biopolitique (2004). A partir de então, mesmo mantendo uma postura crítica, todo um trabalho foi realizado no sentido de definir o conceito ou por relação à sua doutrina teórica, enfatizando as principais escolas e pensadores, a proveniência e a trajetória das ideias e o contexto e as circunstâncias em que emergiram (Mirowski & Plehwe, 2009; Peck, 2008), ou por relação ao chamado “actually existing neoliberalism”, destacando sua implementação prática, seus fenômenos, suas estratégias, suas esferas de atuação e dinâmicas (Brenner & Theodore, 2002; Dardot & Laval, 2009; Wacquant, 2012). Por fim, o último impulso veio com a crise financeira de 2008, que recolocou politicamente a questão dos limites, da continuidade e das alternativas ao neoliberalismo (Duménil & Lévy, 2014; Peck, Theodore & Brenner, 2012a; 2012b; Mirowsky, 2013; Davies, 2014; Dardot & Laval, 2014).
O objetivo deste artigo é apresentar esse recente debate das ciências sociais sobre a pertinência e a definição de neoliberalismo. As questões sobre a validade do conceito, de seu embasamento teórico, do nível adequado de análise e dos fenômenos que ele designa estão no centro dessa disputa ao mesmo tempo acadêmica e política. Defendo a reabilitação do conceito pelas ciências sociais brasileiras devido à sua importância como saber estratégico. Ele tem o potencial de desfazer o isolamento acadêmico, pois atravessa diferentes disciplinas (sociologia, antropologia, ciência política, economia, geografia, história e filosofia), e de dialogar com as lutas sociais, sendo um termo utilizado por movimentos e atores políticos para identificar seus alvos.
Ainda que o tema do neoliberalismo interesse a diferentes disciplinas, retoma-se aqui o debate reagrupando-o a partir da perspectiva das principais teorias sociológicas. Não há a pretensão de esgotar a bibliografia recente, até mesmo pela impossibilidade resultante de sua profusão. Busca-se apenas apresentar os textos mais centrais no cenário atual.
O artigo se estrutura do seguinte modo. Na primeira parte, expõe-se a polêmica a respeito da validade do conceito, procurando apresentar e responder aos principais argumentos contrários ao seu uso pelas ciências sociais. Na segunda parte, apresentam-se os dois principais eixos de análise. Primeiro eixo, aquele que oferece definições da “essência” do neoliberalismo, ou seja, os elementos centrais que o caracterizam do ponto de vista teórico e dos fenômenos designados. A exposição é agrupada conforme as teorias sociológicas que tratam do tema: foucaultiana, marxista, bourdieusiana e weberiana. Segundo eixo, as discussões a respeito da existência não de um, mas de múltiplos neoliberalismos, que deslocam o nível de análise ao enfatizar a irredutibilidade geográfica e histórica de seus processos. As abordagens teóricas aqui também são diversas: o pós-colonialismo, o neorregulacionismo e o hibridismo governamental. Na conclusão, retoma-se o argumento em favor da utilização estratégica do conceito, sem ignorar as divergências políticas que as diferentes teorias implicam.
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terça-feira, 16 de maio de 2017
Thomas Piketty e "O Capital no Século XXI"
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
texto é muito modesto perto dos que o acompanham. Procuro apresentar a obra de Piketty e esboçar uma agenda de pesquisa sociológica para além dos aspectos econômicos, investigando as lutas simbólicas que se relacionam com as desigualdades materiais. O resumo da resenha pode ser lido abaixo.sábado, 29 de abril de 2017
A dignidade de um trabalho decente
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Sociologia das Desigualdades: 50 artigos científicos sobre desigualdades diversas
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Entre o patrimonialismo e as teorias críticas
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
sábado, 1 de abril de 2017
Liberalismo e socialismo: um debate
Por André Magnelli
Professor da Faculdade de São Bento (RJ)
Publicado no Blog do Sociofilo
Não esqueçamos jamais: a orientação liberal, muito antes de ser uma doutrina política, é um dado de fato, é uma articulação central de nossas sociedades. Ela tem a força de realidade das barreiras de direito que protegem o domínio das liberdades pessoais, e a densidade material dos prolongamentos da propriedade. Podemos discutir ao infinito, a partir daí, qual é a extensão desejável deste domínio protegido. É aqui que começa o debate entre ‘liberalismo’ e ‘socialismo’. Mas este debate não tem sentido senão em relação a um fato primeiro – digamos que o fato jurídico e social do indivíduo. Liberalismo e socialismo (na medida em que entendamos que esse permaneça democrático) são apenas, aparentemente, interpretações amplificadoras ou corretoras do fato liberal. O grande fato liberal no último século foi a autonomização em relação ao Estado de uma sociedade formada por indivíduos (GAUCHET, Marcel. La religion dans la démocratie. Paris: Gallimard, 1998, p.54).
O colapso do socialismo de Estado e o final da “guerra civil mundial” colocaram em evidência a falha teórica do partido fracassado [o socialista]: descobriu-se que ele confundira o projeto socialista com o esboço – e a imposição forçada – de uma forma de vida concreta. Todavia, se entendermos por “socialismo” um protótipo de condições necessárias para formas de vida emancipadas, sobre as quais os próprios participantes precisam se entender preliminarmente, não é difícil verificar que a auto-organização democrática de uma comunidade jurídica forma o núcleo normativo do projeto socialista. De outro lado, o partido que se considera vitorioso [o neoliberalismo] não pode comemorar o seu triunfo. Pois, no momento em que poderia assumir a herança indivisa da autocompreensão prático-moral da modernidade, ele desanima perante a tarefa ingente de levar adiante a domesticação social e ecológica do capitalismo no âmbito de uma sociedade mundial ameaçada. Se, certamente, ele respeita, rapidamente, o sentido epistêmico típico de uma economia orientada pelos mercados e, ao menos, está protegido contra uma dilatação exagerada do medium do poder de burocracias estatais, falta-lhe, contudo, uma semelhante sensibilidade em relação à fonte [da democracia] que está propriamente ameaçada [a saber,] – uma solidariedade social que deve ser recuperada e conservada em estruturas jurídicas (HABERMAS, J. Direito e Democracia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2012 [1992] p.12-13, grifos meus; fiz pequenas alterações na tradução para facilitar entendimento).
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
O menino pobre e o gênio da bola
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Thomas Marshall, cidadania e classe social
REFERÊNCIA
MARSHALL, Thomas Humphrey. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. Página 76.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Por mais democracia
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Sobre os protestos de ontem: dirijo-me aos amigos e conhecidos que exerceram o seu direito democrático de criticar o governo, a corrupção e até pedir a saída da presidente eleita há poucos meses. Ponto para a democracia. Manifestar-se é legítimo.
Porém, peço licença para compartilhar convosco uma preocupação. Vocês dividiram espaço com coisas muito bizarras e lamentáveis, coisas que vocês certamente não concordam. Nos seus próximos atos, não caiam na armadilha de defender ditaduras militares, o machismo, a homofobia, o racismo, o ódio ou a agressão ao seu semelhante de camisa vermelha.
Não caiam na armadilha de acreditar que vivemos numa ditadura comunista/esquerdista, com um liberal ortodoxo no Ministério da Fazenda; com eleições financiadas por empreiteiras e construtoras capitalistas; com um atuante imaginário meritocrático, individualista e apologista da competição feroz; com tantos direitos trabalhistas desrespeitados diuturnamente em prol do enriquecimento de uns cada vez mais poucos cidadãos; com uma mídia hegemônica reacionária e cheia de contas secretas na Suíça. Não, definitivamente o Brasil não vive uma ditadura comunista/esquerdista.
Leiam Paulo Freire, não arrotem seu nome por aí. Ele é um dos intelectuais brasileiros mais respeitados no campo da educação em todo o planeta, sobretudo nos países que vocês mais admiram. É só verificar. Buscar conhecimento e informação. Não repitam que a educação brasileira é dominada pelo marxismo, pelo gayzismo ou qualquer ismo considerado de esquerda. Ela não é. Muito pelo contrário, a educação formal brasileira reproduz o arbitrário cultural dominante, na sua maioria. Um ideário do ter, não do ser; do eu, não do nós; da vitória contra a derrota.
Desculpem os meus receios e medos postos a público. É que eu não gostaria de vê-los bradando ao lado de fascistas de qualquer estirpe. Lotem as ruas. Preparem-se bem e critiquem o PT por aquilo que ele deve ser criticado. Por Belo Monte. Pela corrupção endêmica que o partido hoje faz parte. Pelo prosseguimento das políticas de drogas e segurança pública autoritárias em vários aspectos. Por se aliar com partidos escrotos como o PP e o PMDB. Enfim, pautas não vos faltam e faltarão.
Não se unam aos que desprezam a democracia. Usem o seu direito democrático de manifestação para aprofundar a democracia, não ajudar a corroê-la. Eu não estarei lá, mas espero que esteja vivendo, trabalhando, dialogando, tomando uma cerveja e abraçando vocês como sempre, dispostos que estaremos a achar um caminho negociado para as nossas diferenças.
Por fim, quero deixar claro: o meu campo político não é o que estava nas ruas ontem. De certo, cada vez menos tem a ver com o PT. O meu campo político eu não sei definir, mas ele pauta-se pela busca da redução da concentração de riquezas, pelo fim das opressões, pelo exercício profundo da democracia e dos direitos humanos, pelo fomento de políticas sociais contundentes e de várias coisas que provavelmente seriam escorraçadas das ruas por alguns no dia de ontem. Espero que vocês não venham a estar entre eles.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Por um Banco Central republicano
Guilherme Lacerda, Diretor do BNDES
Antonio José Alves Jr., Professor da UFRRJ
Reproduzido do site Brasil Debate
As ideias que se seguem são motivadas pela perplexidade frente ao ataque agressivo, na forma e no conteúdo, desferido contra o Banco Central do Brasil. Por sua história e pela seriedade de sua missão, essa instituição do Estado brasileiro jamais poderia ter sua administração adjetivada levianamente como temerária (uma conduta tipificada no código penal brasileiro).
Tais ataques não têm legitimidade política para sancionar a terceirização da gestão econômica do Brasil e muito menos encontram amparo técnico que as qualifique; são apenas expressão do apego a concepções anacrônicas, elaboradas quando o Brasil ainda engatinhava em termos de estabilidade monetária.
Desde a virada do século, economistas e dirigentes de bancos centrais em todo o mundo tem debatido o poder conferido às autoridades monetárias e sua missão. Esse debate se acentuou com o complexo quadro econômico mundial pós-crise. E são muitas as manifestações nesse sentido.
Em março deste ano, o Presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, admitiu que a busca exclusiva da estabilidade de preços, típica de um Banco Central Independente, “…tornou-se uma distração perigosa para a economia”.
Na mesma linha, Christine Lagarde, diretora-chefe do FMI, afirmou ter chegado a hora de se ajustar o controle dos governos sobre os Bancos Centrais; eles não podem ficar presos só ao objetivo da estabilidade de preços. E ela acrescenta que, como a crise ensinou, “a estabilidade de preços não necessariamente leva à estabilidade macroeconômica”. Ademais, as evidências revelam: os países que não têm meta de inflação ou Banco Central independente se saíram tão bem ou foram melhores que aqueles adeptos desse arcabouço na condução da política econômica.
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segunda-feira, 30 de junho de 2014
Milanovic e a desigualdade de renda ontem e hoje: algumas questões
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Entre um café e um jogo espetacular da Copa do Mundo, penso nas desigualdades. Nos debates políticos, elas quase sempre entram em campo. Podem servir de suporte para diversos argumentos. Sem dúvidas, para olhar o real com densidade é preciso diagnosticá-las minimante. A esquerda diz que as desigualdades têm se fortalecido. Os liberais sentenciam que não. Eu mergulho na leitura. É aí que o economista do Banco Mundial [1], Branko Milanovic [2], tenta oferecer uma espécie de mapa da situação no capitalismo contemporâneo.
Da visão que promove, pode-se partir de três formas de investigar a desigualdade de renda ao longo do tempo [3]. O primeiro tipo é definido a partir dos Estados Nacionais. A estatística é calculada com o PIB ou os rendimentos médios de cada país, sem ponderar as diferenças de populações. Cada país tem um peso igual, independente do seu tamanho. Sob esse prisma, a desigualdade aumentou consideravelmente, pelo menos até a virada do milênio.
A segunda maneira de conceituar a desigualdade ainda utiliza as médias dos países, sem fazer do indivíduo a unidade de análise. Só que, dessa vez, leva em conta os tamanhos populacionais e pondera os dados de cada nação. Nessa curva, a desigualdade se mostra em decréscimo quase constante.
Numa terceira interpretação, a complexidade das relações humanas ganha força com o entendimento de que é necessário que os dados sejam trabalhados no nível dos indivíduos, e não das médias nacionais. Pensa-se acerca das desigualdades globais. Para isso, as pesquisas domiciliares de larga escala são relevantes. Essas estatísticas podem ser encontradas com alguma regularidade para distintos países somente da década de 1980 em diante. Nesse cenário, desponta uma variabilidade entre crescimento e diminuição da desigualdade, que aparece num leve contínuo declínio.
Com efeito, Milanovic deixa claro quem mais obteve benefícios com a globalização orientada nas duas recentes décadas: em primeiro lugar, os muitos ricos; depois, o segmento social que chama de “classe média de economias de mercado emergentes”, como China, Índia, Indonésia e Brasil. As pessoas que fazem parte do 1% mais rico do planeta viram a sua renda subir em 60%. As referidas classes médias, 80%. Houve uma evolução da renda também das classes médias baixas. Porém, entre os 5% mais pobres, a perda dos rendimentos reais foi grande e a desigualdade elevou-se. O autor sublinha, sem rodeios, que as pessoas mais afetadas negativamente pela economia mundial de 1998 a 2008 são africanas, alguns latino-americanos e os habitantes da antiga União Soviética.
Agindo segundo uma sociologia reflexiva, sinais de questionamentos surgem e se voltam sobre a temática. Além do fato de que as desigualdades de renda não contemplam com exclusividade as profundezas das relações de poder e dominação em curso nas sociedades contemporâneas, outras perguntas se destacam.
Se houve uma transformação positiva no período assinalado, de acordo com as concepções dois e três, a manutenção dos privilégios dos mais ricos não se faz bastante mais significante, tendo em vista que, para quem já tem muito, aumentar em 60% o seu montante representa uma lógica acentuada de persistência das coisas como elas estão? Mesmo aceitando sem muitas críticas esse movimento, a virada abaixo nas curvas da desigualdade, sendo puxada por países como Brasil e China, não sugere que políticas estatais de interferência concreta nos rumos econômicos são mais eficientes do que práticas de desregulamentação ampla dos mercados? Não foram justamente esses países que não se jogaram numa austeridade excessiva durante o calor da crise de 2008?
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[1] Importa lembrar que o Banco Mundial tem sido concebido por muitos analistas como um organismo multilateral colaborador do mercado financeiro, pautando políticas econômicas de cunho neoliberal. Ver:http://www.administradores.com.br/.../o-banco.../31091/.
[2] MILANOVIC, Branko. Global Income Inequality by the Numbers: in History and Now – An Overview. Policy Research Working Paper 6259. The World Bank, 2012. Disponível em: http://elibrary.worldbank.org/doi/pdf/10.1596/1813-9450-6259.
[3] Além disso, o texto defende que, desde a Revolução Industrial, a humanidade não via uma mobilidade entre classes sociais como a que se pode enxergar por intermédio dos dados citados pelo autor. Essa ideia é referenciada por alguns grupos liberais para sustentar as suas teses.
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sexta-feira, 20 de junho de 2014
Lendo Piketty, parte 1
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
O livro de Thomas Piketty, professor da Paris School of Economics, tem causado uma histeria feroz naqueles que enxergam comunismo por todos os lados. Sem conseguir refutar os dados da obra “O capital no século XXI”, apelam, como sempre, para os mantras favoráveis à desregulamentação ampla da economia capitalista. Berram como raivosos distantes de qualquer densidade argumentativa.
De fato, minha leitura até agora indica que Piketty não é um esquerdista, revolucionário ou comunista. O que ele faz é ampliar a metodologia de Simon
Kuznets, aplicada num estudo da década de 1950. Kuznets afirma que, na fase inicial do desenvolvimento capitalista, as desigualdades crescem razoavelmente. Porém, depois de consolidado o livre mercado, as desigualdades decaem e estabilizam o sistema. Com os dados da época, reduzidos aos Estados Unidos, Kuznets sustentou sua tese e disseminou o sentimento de que o crescimento econômico independente de qualquer política edifica a diminuição das desigualdades de renda.
Piketty, por sua vez, evidencia que os dados do século XX ilustram que a taxa de retorno do capital é maior do que o ritmo do crescimento econômico. O contexto político e social carrega grande importância. Para Piketty, o capitalismo contemporâneo nos países centrais concentra renda, promove desigualdade e está associado a baixo crescimento, privilegiando os mais ricos através da herança.
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terça-feira, 3 de junho de 2014
Escutando Paul Krugman
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
Em meio às leituras, já na madrugada, viajei para longe. Estava na América do Norte. Como sociólogo estudioso das desigualdades, satisfazia-me com o diálogo que travava. Localizava-me frente a uma artilharia pesada contra o pensamento rasteiro. Conversava com o economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, professor da Universidade de Princeton. O assunto girava em torno de dois tópicos duvidosos: os ricos são ricos porque se esforçam; a desigualdade não está aumentando.
Dizia Krugman: “Os conservadores querem levá-lo a acreditar que as grandes recompensas, nos Estados Unidos modernos, são reservadas aos inovadores e empreendedores, pessoas que criam empresas e promovem o avanço da tecnologia. [...] Como aponta Matt Levine, da ‘Bloomberg View’, a renda de muitos dos mais conhecidos administradores de fundos não vêm de investir o dinheiro alheio, mas do retorno sobre sua riqueza – ou seja, a razão para que ganhem tanto é o fato de que já são muito ricos” [1].
Esclarecedor. Kruger seguia derrubando mitos, intercalando os dois tópicos da conversa, elucidando controvérsias: “Portanto, eis o que é preciso saber: sim, a concentração tanto de renda quanto de riqueza nas mãos de uns poucos aumentou imensamente nas últimas décadas. Não, as pessoas que recebem essa renda e possuem essa riqueza não formam um grupo sempre mutável: é comum que pessoas se movimentem entre os 10% mais ricos e o 1% mais rico, e vice-versa, mas histórias de alguém que tenha ascendido da pobreza à riqueza, ou feito o percurso oposto, são raras” [2].
Como professor, aprendia demais naquela troca de ideias. Despertei reflexivo. Pensativo. Um duro golpe no conservadorismo tinha atravessado os meus sonhos. Ah, mas talvez muitos dos aderentes à lógica binária argumentassem que Paul Kruger é comunista, que Princeton é uma instituição comunista e que o The New York Times, jornal centenário, é uma publicação vermelha. Vai entender...
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[1] Ver em http://www1.folha.uol.com.br/.../1451852-quanta-riqueza....
[2] Ver em http://www1.folha.uol.com.br/.../1463757-sobre-a-negacao....
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sexta-feira, 30 de maio de 2014
Contra o pensamento binário
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor.
Junho chegou. Há um ano, o Brasil fervia e sacudia os incautos. Agora, às vésperas da Copa do Mundo e das eleições de outubro, um ponto em particular chama a atenção. Trata-se das análises sobre a realidade brasileira. Podemos pensar sobre ela a partir de vários focos. Sugiro três, especialmente: aquele que achincalha o país dos petralhas corruptos; aquele que venera as conquistas das últimas décadas e solta o verbo contra a tucanada conservadora; e, por fim, aquele que não acha o seu lugar nesse complexo contexto.
Nas redes sociais e também nas ruas, existe um sentimento de que é necessário mudar. O período de reinado dos petralhas frente ao governo federal precisa terminar. O país está virando muito comunista (?), dá bolsas demais, oferece serviços demais para a população. Sendo que os direitos imperativos (saúde e educação) nunca melhoram. Sem falar dos mensaleiros, da violência e da impunidade constante. Esse é o Brasil que muita gente enxerga. Lugar onde ninguém quer trabalhar, mas muitos gostam de viver nas costas dos outros. Ninguém quer estudar, mas muitos ganham vagas nas Universidades. Ninguém quer fazer nada, mas muitos conseguem tudo a partir do Estado.
Na outra ponta, os rivais da tucanada conservadora apontam para o passado e demonstram que tudo está muito melhor agora. Que, agora, muitos milhões de brasileiros saíram da miséria através de incentivos estatais. Hoje, as universidades se tornaram populares e coloridas. Vivemos em pleno emprego. A desigualdade está caindo. Nossa economia figura entre as dez maiores do planeta. Não somos mais o país do futuro. Somos a nação do presente. Se voltarmos ao passado, se colocarmos a tucanada no poder de novo, nós jogaremos fora todas as vitórias duramente conquistadas. Recordar é ter medo daquilo que passou.
O terceiro foco possível desconjura as perspectivas acima e, assim, desconfigura qualquer localização binária nesse cenário político. É inegável que os governos dos petralhas modificaram alguns setores. A desigualdade de renda, medida pelo Coeficiente de Gini, diminuiu como nunca na história nacional. O índice passou de 0,594 em 2001 para 0,527 em 2011[1]. O salário dos 10% mais pobres aumentou 91,2% de 2001 a 2011[2]. A população autodeclarada negra teve um aumento de 66,3% na sua renda na última década, e a parda 85,5%[3]. De 1997 até 2011, o número de estudantes negros nas Universidades cresceu de 4% para 19,8%[4]. Não resta dúvida de que as cotas raciais e as demais Políticas de Ações Afirmativas têm imensa responsabilidade positiva nesse avanço do processo de democratização do ensino superior.
Outro detalhe intrigante direciona-se ao programa de assistência social mais rechaçado por parte da sociedade brasileira. O Bolsa Família demonstra algumas faces distintas daquelas sentenciadas pelos seus opositores. Diz-se que gera preguiça e acomodação. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), 72% dos adultos beneficiários do programa estão trabalhando no mercado formal ou informal; as crianças das famílias participantes possuem frequência escolar acima de 85% (dados de 2013). A Organização das Nações Unidas (ONU), por sua vez, declara que o Bolsa Família reduziu em 17% a mortalidade infantil nas áreas em que sua cobertura é profunda e extensa[5].
E aí, o que pensar? Acho que o caminho é não aderir ao pragmatismo eleitoreiro que se aproxima. Parece que, perto do pleito que está por vir, ou devemos defender a tucanada conservadora ou a petralhada no poder. É promissor ir além dessa falsa única dicotomia. Sim, houve mudanças no Brasil. Porém, essas mudanças, ainda que muito importantes, não alteraram a estrutura política e econômica sob a qual desenvolvemos as nossas vidas. A política econômica parece permanecer orientada pelo tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário – embora os economistas divirjam sobre uma continuidade ortodoxa ou flexível[6]. Os bancos calculam lucros de dar inveja a qualquer agiota[7]. As manifestações populares dão a entender, no mínimo, que as pessoas não se sentem integradas às instituições políticas e aos seus representantes.
Vejamos exemplos mais concretos. O Estado brasileiro, desde as instituições policiais, mata e mata demais. Amarildos e DG’s não são casos isolados. O já clássico livro do jornalista Caco Barcellos, Rota 66, para não citar pesquisas científicas, ilumina uma das séries históricas de violência exercida pela coerção institucionalizada. A sonegação de impostos é altíssima (cerca de 415 bilhões de reais por ano, o que representa um valor superior a tudo o que foi arrecadado pelo Imposto de Renda em 2011[8]). Os ricos no Brasil têm sua renda menos taxada do que os ricos na maioria das nações que compõem o G20[9]. As favelas dividem espaço com os poucos, mas exuberantes bairros europeus cravados nos trópicos. A educação básica e a saúde pública patinam.
Neste ensaio, tentei refletir sobre três possíveis abordagens acerca da atual realidade brasileira. Com o recurso de alguns dados quantitativos, tornou-se possível evidenciar as transformações ocorridas, sobretudo, na última década. Entretanto, a estatística mapeia horizontes amplificados e por isso carrega o prejuízo de não explicar as subjetividades intrínsecas aos pontos fora das curvas. O fato de defendermos as conquistas das últimas décadas não pode obliterar as nossas visões sobre as mazelas que persistem e insistem. O real se mostra, portanto, muito mais complexo do que as assertivas formuladas pela (in)capacidade do pensamento binário.
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[1] Conforme o estudo “A década inclusiva”, produzido pelo IPEA em 2012.
[2] Conforme o estudo “A década inclusiva”, produzido pelo IPEA em 2012.
[3] Conforme o estudo “A década inclusiva”, produzido pelo IPEA em 2012.
[4] Segundo o Censo da Educação Superior, produzido pelo IBGE em 2011.
[5] Disponível em http://www.onu.org.br/estudo-avalia-impacto-do-programa-bolsa-familia-na-reducao-da-mortalidade-infantil/.
[6] Debate em http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=
com_content&view=article&id=20234.
[7] Ver em http://www.feebpr.org.br/lucroban.htm.
[8] Dados divulgados pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (SINPROFAZ), em 2013.
[9] Ver em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014
/03/140313_impostos_ricos_ms.shtml.
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domingo, 16 de março de 2014
O discurso vazio sobre os impostos
Por Mariana Schreiber
Da BBC Brasil
Reclamar dos impostos é hábito comum da elite brasileira. Mas uma comparação internacional mostra que a parcela mais abastada da população não paga tantos tributos assim. Estudos indicam que são justamente os mais pobres que mais contribuem para custear os serviços públicos no país.
Levantamento da PricewaterhouseCoopers (PWC) feito com exclusividade para a BBC Brasil revela que o imposto de renda cobrado da classe média alta e dos ricos no Brasil é menor que o praticado na grande maioria dos países do G20 – grupo que reúne as 19 nações de maior economia do mundo mais a União Europeia.
A consultoria comparou três faixas de renda anual: 70 mil libras, 150 mil libras e 250 mil libras – renda média mensal de cerca de R$ 23 mil, R$ 50 mil e R$ 83 mil, respectivamente, valores que incorporam mensalmente o 13º salário, no caso dos que o recebem.
Nas três comparações, os brasileiros pagam menos imposto de renda do que a maioria dos contribuintes dos 19 países do G20.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Pobreza é uma questão coletiva
Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
“Pobre é pobre porque quer”. A frase me corroía por dentro. Não saía da cabeça a polêmica afirmação (?!) de um jovem conhecido. Num boteco da rodoviária, observava o real em volta de mim. Os funcionários combinavam as escalas do fim de ano. Queriam uma chance para visitar os familiares. Torci para que eles conseguissem. Diziam que o patrão era duro na queda. Voltei àquela frase tão difícil de digerir.
Viajei. De repente, organizei alguns dados do PNUD, vinculado à ONU. Cerca de 1,57 bilhão de pessoas vivem em estado de “pobreza multidimensional”. Além de possuírem renda baixíssima (R$ 2,50 por dia, em média), não têm acesso à saúde e educação. Não têm perspectivas de qualidade de vida. Filosofei, na linha do politicamente incorreto, na moda hoje em dia: “É muita gente querendo ser pobre!”. Por outro lado, um banco suíço diz que os milionários representam 0,6% da população adulta do planeta. Cuspi: “É muito pouca gente querendo ganhar milhões!”.
Sobressaltado, brilhou-me uma recente lição. Temos a tendência a enxergar o mundo a partir das nossas sociabilidades. A transformar casos minoritários, excepcionais, em regras infalíveis – desde as nossas interações com a parte do mundo que nos cabe. Tendemos ao equívoco. Isso pode nos levar a desferir frases aparentemente certeiras. Mas que, na verdade, não passam de pré-noções cheias de irreflexão.
O balanço do ônibus fez pensar no movimento da vida. Na sua complexidade. Nas oportunidades que se distribuem por aí, de modo desigual. Bastante desigual. Sempre tive oportunidades na vida. A melhor maneira de agradecer a isso parece ser aproveitar as chances que a vida me deu, tentando construir oportunidades para mais pessoas. Num mundo em que competir e vencer é a lei maior, as evidências apontam que a pobreza é uma questão coletiva. Não é puramente individual.
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terça-feira, 9 de julho de 2013
Belluzzo: Foucault e o neoliberalismo
A releitura do liberalismo econômico clássico, proferida pelos pensamentos de Friedrich Hayek e Milton Friedman, após a Segunda Guerra Mundial espalhou-se ao redor do planeta como uma fórmula mágica das elites do poder. Mais do que uma doutrina relativa ao campo da economia, o neoliberalismo carrega uma espécie de filosofia social embutida. Luiz Gonzaga Belluzzo (saiba mais), economista
consultor da Revista Carta Capital, disserta sobre como o intelectual francês Michel Foucault (saiba mais) soube compreender com profundidade o alcance do espectro neoliberal, para além dos quesitos tradicionais.
O mundo se abriu para o novo milênio dominado por certezas que hoje se desmancham sob a ação demolidora da crise financeira. A ideologia neoliberal, quase sem resistências, tentou demonstrar que, com a queda do Muro de Berlim, o espaço político e econômico tornou-se mais homogêneo, menos conflitivo, com a concordância a respeito das tendências da economia e das sociedades. Não há mais razão, diziam, para se colocar em discussão questões anacrônicas, como a reprodução das desigualdades ou as tendências dos mercados a sair dos trilhos, frequentemente destrambelhados pelos excessos nascidos de suas engrenagens.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Belluzzo: “Os economistas”
O professor e economista Luiz Gonzaga Belluzzo (saiba mais), consultor da Revista Carta Capital na área, disponibiliza no seu blog um texto bastante interessante sobre o ofício e a prática dos economistas. Vale dar uma olhada nas suas palavras para compreender melhor esse campo de atuação científica.
Resolvi juntar algumas linhas que escrevi a respeito dos economistas, suas teorias, convicções e previsões. No estouro da crise financeira, as maledicências sobre economistas, suas teorias, crenças e previsões corria
m soltas, à velocidade da peste nos centros financeiros do mundo. Mas, passado o susto, os que fracassaram em suas antecipações já sobem o tom de suas arrogâncias e voltam a trovejar sua cambaleante sabedoria.
A reputação dos economistas e o prestígio de sua arte de antecipar tendências variam na mesma direção dos ciclos do velho, resistente, mas talvez nem tão surpreendente capitalismo. Quando os negócios vão bem, as previsões mais otimistas são ultrapassadas por resultados formidáveis. É a festança dos consultores: o noticiário da mídia não consegue oferecer espaço suficiente para os profetas e oráculos da prosperidade eterna. Na era da informação a coisa é ainda pior: em tempo real, os meios eletrônicos regurgitam uma fauna variada de palpiteiros e adivinhões. Todos ou ao menos a maioria tratam de insuflar a bolha de otimismo.
