ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

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quinta-feira, 26 de março de 2020

Manifesto: Diretrizes e medidas de combate à pandemia do corona vírus e para a recuperação da economia (UFRGS)


Professores da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS lançam manifesto com 32 sugestões de diretrizes e medidas de combate à pandemia do corona vírus e para a recuperação da economia. Os professores destacam as medidas contundentes que vêm sendo adotadas nos países em que a pandemia atingiu níveis mais graves e chamam a atenção para a necessidade de o Brasil seguir os mesmo passos, abandonando a timidez e mobilizando amplos recursos dos setores público e privado no imediato combate à crise. Não é hora para inação. O manifesto inclui medidas imediatas para suporte ao setor da saúde, medidas de sustentação do emprego e da renda no curto prazo enquanto durar a pandemia, medidas para assegurar disponibilidade de serviços de utilidade pública e habitação enquanto durar a pandemia, medidas de apoio a empresas fortemente atingidas pela pandemia e de garantia do abastecimento dos bens de primeira necessidade e medidas para recuperação e sustentação da economia.


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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Neoliberalismo e a nova razão do mundo


Por Felipe Queiroz
Ciência Política Unicamp

Publicado originalmente na França em 2009, logo após a eclosão da crise financeira global, A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (Dardot; Laval, 2016) apresenta uma profunda análise do neoliberalismo, mostrando como ele constitui, muito além de uma doutrina econômica ou ideologia, uma nova racionalidade de mundo, que estrutura e organiza tanto as ações dos governantes como a própria conduta dos governados. A obra faz uma genealogia do neoliberalismo para mostrar, por um lado, que ele não é uma simples continuidade do liberalismo clássico do século XVIII, do mesmo modo que não é seu extravio nem sua negação, e, por outro lado, para problematizá-lo a partir de suas vertentes e disputas internas, mostrando como ele passou de uma doutrina econômica para um “sistema normativo que ampliou sua influência ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida” (Dardot; Laval, 2016, p. 7). Nesse sentido, a obra busca fornecer subsídios à crítica ao neoliberalismo, na medida em que desfaz consensos e equívocos em torno dele.

A nova razão do mundo é o segundo livro publicado em conjunto pelos autores e resulta das investigações desenvolvidas no grupo de estudos e pesquisa que coordenam Question Marx. O primeiro livro derivado dos seminários Question Marx, Sauver Marx? Empire, multitude, travail immatériel (2007), faz uma crítica ao pensamento de alguns pós-marxistas, entre eles Michael Hardt e Antonio Negri, que entendem ser a autossuperação do capitalismo o resultado de suas próprias contradições internas e acatam a crença progressista segundo a qual todo passo dado pelo capitalismo é um avanço em direção ao momento de sua autossuperação. A nova razão do mundo se apresenta como continuidade dessa investigação, apontando como e porque “ainda não terminamos com o neoliberalismo”, quando muitos autores, no ápice da crise financeira internacional, como Joseph Stiglitz, anunciavam seu fim.

O livro está dividido basicamente em duas grandes partes: A refundação intelectual e A nova racionalidade. A primeira parte é, em certo sentido, uma tentativa de retomar o debate aberto por Michel Foucault nos cursos do Collège de France de 1977-1978 e 1978-1979, expostos respectivamente nos livros Segurança, Território, População e O nascimento da biopolítica, apontando como se forma o neoliberalismo, como nova racionalidade do capitalismo contemporâneo. O ponto de partida da investigação dos autores é a crise do liberalismo, ou crise da governamentalidade liberal, nos termos de Michel Foucault, que dura entre 1880 e 1930. O objetivo é mostrar que o neoliberalismo não é uma simples continuidade das ideias liberais, mas, antes, marca um rompimento com a versão dogmática do liberalismo, que via no laissez-faire uma verdade inalienável. Enquanto o liberalismo clássico passava por uma profunda crise, a Revolução Russa, o avanço do socialismo e a disseminação das ideias de esquerda por toda Europa ameaçavam os liberais, impondo-lhes a necessidade de reformulação teórica do liberalismo. É nessa conjuntura de crise política, econômica e teórica que surge a principal tentativa de refundação do liberalismo: o Colóquio Walter Lippmann, em 1938. A partir do Colóquio, duas grandes correntes de pensamento neoliberal surgirão: a corrente austro-americana, representada por Friedrich A. Hayek e Ludwig von Mises, e a corrente ordoliberal alemã, cujos principais expoentes foram Walter Eucken e Wilhelm Röpke.

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domingo, 7 de abril de 2019

O que é o neoliberalismo?


Por Daniel Andrade
Sociologia FGV/São Paulo
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O neoliberalismo é um conceito polêmico. Desde o Colóquio Walter Lippmann (1938) e da primeira reunião da Sociedade de Mont Pèlerin (1947), a formulação designou, entre seus partidários, mais um campo de debate do que propriamente um consenso. Ordoliberais de Freiburg, Escola Austríaca, Escola de Chicago e representantes da London School of Economics e da Manchester School compartilhavam a mesma utopia de livre mercado e a mesma posição contrária ao intervencionismo econômico e ao planejamento estatal centralizado (keynesiano, socialista ou desenvolvimentista), mas não tinham opinião comum sobre o papel legítimo do Estado, sobre as diretrizes de política econômica ou sobre a experiência fracassada do laissez-faire do século XIX (Peck, 2010). A dimensão polêmica do termo ganhou nova roupagem com as reformas liberalizantes de Pinochet no Chile em 1978. A partir de então, o conceito passou a ser adotado quase que exclusivamente por seus críticos para designar pejorativamente a onda de desregulamentação dos mercados, de privatização e de desmonte do Estado de bem-estar ao redor do mundo (Boas & Gans-Morse, 2009; Venugopal, 2015). Diante da virada infamante, seus adeptos abandonaram a designação no mesmo momento em que a visão neoclássica se convertia na nova ortodoxia econômica, não havendo mais a necessidade estratégica de nomear a própria posição, mas de naturalizá-la (Hilgers, 2011; Boas & Gans-Morse, 2009).
 
Na década de 1990, o conceito depreciativo se estendeu para além de um modelo de política econômica, passando a designar uma ampla série de fenômenos políticos, ideológicos, culturais e espaciais e, por fim, a própria época, convertendo-se no termo pelo qual a sociedade contemporânea se apresenta a si mesma (Venugopal, 2015; Haber, 2013: 127). Sua difusão estendeu-se aos movimentos sociais e às lutas anticapitalistas, como os Zapatistas, os Gatherings for Humanity and Against Neoliberalism, as greves francesas de 1995 e os movimentos altermundialistas, tornando-se popular entre a militância internacionalmente (Brenner & Theodore, 2002: 352). É assim que o termo deixou de designar um debate entre economistas para ser utilizado apenas por seus críticos, muitos não economistas nem acadêmicos, ganhando um uso cada vez mais amplo e vago.

Foi somente a partir dos anos 2000 que a polêmica ao redor do neoliberalismo se requalificou academicamente, com cientistas sociais de diferentes especialidades se esforçando por oferecer definições mais precisas. Além das contribuições de Pierre Bourdieu, Loïc Wacquant e David Harvey, o debate se renovou com a publicação póstuma do curso de Michel Foucault intitulado Naissance de la biopolitique (2004). A partir de então, mesmo mantendo uma postura crítica, todo um trabalho foi realizado no sentido de definir o conceito ou por relação à sua doutrina teórica, enfatizando as principais escolas e pensadores, a proveniência e a trajetória das ideias e o contexto e as circunstâncias em que emergiram (Mirowski & Plehwe, 2009; Peck, 2008), ou por relação ao chamado “actually existing neoliberalism”, destacando sua implementação prática, seus fenômenos, suas estratégias, suas esferas de atuação e dinâmicas (Brenner & Theodore, 2002; Dardot & Laval, 2009; Wacquant, 2012). Por fim, o último impulso veio com a crise financeira de 2008, que recolocou politicamente a questão dos limites, da continuidade e das alternativas ao neoliberalismo (Duménil & Lévy, 2014; Peck, Theodore & Brenner, 2012a; 2012b; Mirowsky, 2013; Davies, 2014; Dardot & Laval, 2014).

O objetivo deste artigo é apresentar esse recente debate das ciências sociais sobre a pertinência e a definição de neoliberalismo. As questões sobre a validade do conceito, de seu embasamento teórico, do nível adequado de análise e dos fenômenos que ele designa estão no centro dessa disputa ao mesmo tempo acadêmica e política. Defendo a reabilitação do conceito pelas ciências sociais brasileiras devido à sua importância como saber estratégico. Ele tem o potencial de desfazer o isolamento acadêmico, pois atravessa diferentes disciplinas (sociologia, antropologia, ciência política, economia, geografia, história e filosofia), e de dialogar com as lutas sociais, sendo um termo utilizado por movimentos e atores políticos para identificar seus alvos.

Ainda que o tema do neoliberalismo interesse a diferentes disciplinas, retoma-se aqui o debate reagrupando-o a partir da perspectiva das principais teorias sociológicas. Não há a pretensão de esgotar a bibliografia recente, até mesmo pela impossibilidade resultante de sua profusão. Busca-se apenas apresentar os textos mais centrais no cenário atual.

O artigo se estrutura do seguinte modo. Na primeira parte, expõe-se a polêmica a respeito da validade do conceito, procurando apresentar e responder aos principais argumentos contrários ao seu uso pelas ciências sociais. Na segunda parte, apresentam-se os dois principais eixos de análise. Primeiro eixo, aquele que oferece definições da “essência” do neoliberalismo, ou seja, os elementos centrais que o caracterizam do ponto de vista teórico e dos fenômenos designados. A exposição é agrupada conforme as teorias sociológicas que tratam do tema: foucaultiana, marxista, bourdieusiana e weberiana. Segundo eixo, as discussões a respeito da existência não de um, mas de múltiplos neoliberalismos, que deslocam o nível de análise ao enfatizar a irredutibilidade geográfica e histórica de seus processos. As abordagens teóricas aqui também são diversas: o pós-colonialismo, o neorregulacionismo e o hibridismo governamental. Na conclusão, retoma-se o argumento em favor da utilização estratégica do conceito, sem ignorar as divergências políticas que as diferentes teorias implicam.

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terça-feira, 16 de maio de 2017

Thomas Piketty e "O Capital no Século XXI"


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Depois de mais de dois anos de trabalho, compartilhamos a publicação da resenha sobre o livro de Thomas Piketty, "O Capital no Século XXI". Ela fecha o número 44 da Revista Sociologias, uma das mais lidas no país, cujo dossiê traz artigos sobre Émile Durkheim, 100 anos após a sua morte. O texto é muito modesto perto dos que o acompanham. Procuro apresentar a obra de Piketty e esboçar uma agenda de pesquisa sociológica para além dos aspectos econômicos, investigando as lutas simbólicas que se relacionam com as desigualdades materiais. O resumo da resenha pode ser lido abaixo.

O tema da desigualdade tem uma larga tradição de análise nas Ciências Sociais. Até o final do século XX, a desigualdade econômica ocupava boa parte dessas discussões. De lá para cá, as desigualdades passaram a ser vistas como multidimensionais, mas permanece relevante o estudo da distribuição desigual de renda, riqueza e capital. A obra “O Capital no Século XXI”, do economista francês Thomas Piketty, publicada em 2013, na França, e em 2014, no Brasil, envereda por esse caminho e ilumina novas indagações sobre a atualidade e os rumos da desigualdade econômica. Esta resenha crítica objetiva apresentar as principais contribuições do autor para o debate público e acadêmico. Além disso, ambiciona refletir sobre uma agenda para a Sociologia atual, desde a importância de entender como ocorre a gênese e a legitimação da reprodução das desigualdades de oportunidades no nosso tempo.



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sábado, 29 de abril de 2017

A dignidade de um trabalho decente


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A greve, historicamente, é um dos principais instrumentos de pressão dos trabalhadores. O conflito entre capital e trabalho constitui as sociedades capitalistas. Por mais que os agentes econômicos possam querer uma boa vida para todos, capital e trabalho possuem interesses distintos. O capital busca maior rentabilidade; os trabalhadores querem melhores salários e condições de trabalho.

De 1789 a 1917, da Revolução Francesa à Revolução Russa, o capital ditava as regras das relações econômicas sofrendo pressões pontuais, como a Primavera dos Povos, em 1848, ou a Comuna de Paris, em 1871. As condições de vida dos trabalhadores eram terríveis. Jornadas de trabalho de 16 horas diárias, acidentes corriqueiros nas fábricas, crianças pequenas fazendo atividades de adultos, mulheres grávidas trabalhando em contextos insalubres. O capital apregoava um mundo de “liberdades”, no qual os direitos trabalhistas eram entraves para o desenvolvimento.

Em outubro de 1917, quando os camponeses e operários tomaram o poder na Rússia, pela primeira vez quem vivia do suor do seu trabalho enxergava a possibilidade de uma sociedade sem exploração de classes. Anos depois, em 1929, a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque desestabilizava o capitalismo moderno. O Ocidente olhava para Moscou como uma ameaça real. Logo viria a Segunda Grande Guerra e o populismo de extrema direita de Hitler e Mussolini.

De 1933 até o final de 1970, de olho na ameaça Soviética, o Ocidente capitalista se reinventava. Franklin Delano Roosevelt, quatro anos após a Grande Depressão, iniciava as políticas econômicas do New Deal, pelas quais o governo passava a investir maciçamente em obras públicas, criava agências de regulação do mercado, diminuía a jornada de trabalho, instituía o seguro-desemprego e outras medidas para atenuar as mazelas dos trabalhadores estadunidenses. Era o prenúncio do Estado de Bem-Estar Social, consolidado depois da guerra, a partir das orientações de John Maynard Keynes. O Estado passava a regular o mercado efetivamente, e a tributação subsidiava políticas públicas e seguridade social.

O século XX, sociologicamente, terminou em 1989. O fracasso da burocracia Soviética abriu espaço para a dilapidação da estrutura de defesa dos trabalhadores no mundo Ocidental. Um pouco antes, Margareth Thatcher, na Inglaterra, e Ronald Reagan, nos EUA, aceleraram a desregulamentação financeira, diminuindo impostos dos grandes empresários e fomentando o capital transnacional. As cartas do “fim da História” estavam jogadas. Bancos, seguradoras e grandes corporações dominavam as relações econômicas.

Em 2007, a “crise do subprime”, empréstimos de alto risco e sem lastro, símbolo da desregulamentação, jogava o capitalismo contra a parede. O Estado, mais uma vez, entrava em cena e salvava banqueiros e empresários. Alguns apressados anunciavam o começo de uma era “pós-neoliberal”. Só que a Grécia, a Espanha, a Itália e muitos países seguiam sofrendo a pressão dos credores para detonar direitos e implodir os serviços estatais.

De lá para cá, os rendimentos do capital cresceram e a desigualdade também. É nesse cenário que as reformas colocadas goela abaixo no Brasil estão inseridas: num contexto de ofensiva do grande capital. As mobilizações de trabalhadores pelo mundo demonstram que esse jogo não acabou. A nossa existência, a dignidade de um trabalho decente, essa luta segue viva como há 100 anos.

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sociologia das Desigualdades: 50 artigos científicos sobre desigualdades diversas


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O tema das desigualdades é sempre objeto de muitas discussões e polêmicas. Nas Ciências Sociais, muitas são as contribuições para se pensar sobre o assunto. Na Sociologia das Desigualdades, podemos abordar as desigualdades econômicas, políticas, de gênero, entre etnias e etc. No link abaixo, é possível acessar uma série de artigos científicos, do campo das Ciências Humanas, a respeito das variadas manifestações das desigualdades encontradas no século XXI, suas causas e seus efeitos. São textos de e sobre autores como Amartya Sen, John Rawls, Celi Scalon, Pierre Bourdieu, Jessé Souza, Ruy Braga, Guy Standing, Carole Pateman, Martha Nussbaum, Claus Offe, Ricardo Antunes, Ladislau Dowbor, Adam Przeworski, Celia Kerstenetzky, Marcelo Medeiros, Göran Therborn, Jeffrey Alexander, Ernesto Laclau, Michael Löwy, Boaventura de Sousa Santos, Antonio David Cattani, Carlos Antonio Costa Ribeiro, Elisa Reis e Branko Milanovic - entre outros. Quem procura aprofundar seu conhecimento sociológico sobre as desigualdades na atualidade, encontra nesta lista uma gama de artigos de grande valia.


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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Entre o patrimonialismo e as teorias críticas


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Lista atrás de lista, a política brasileira entra em acelerada decomposição. Ficam cada vez mais claras as relações promíscuas entre Estado e mercado. Políticos e agentes públicos recebem propina, investem em campanhas eleitorais, são reeleitos e articulam os interesses das empresas pagadoras, em pleno Congresso Nacional. Há, pelo menos, duas vias para explicar essa promiscuidade a partir da Sociologia: as teses patrimonialistas e as teorias críticas.

As teses patrimonialistas depositam sobre os políticos e os agentes públicos a responsabilidade pelos principais problemas sociais. Ocorre a apropriação do Estado por pessoas e grupos privados, num processo histórico que conforma uma espécie de “estamento”. O estamento manipula as dinâmicas políticas e chantageia os empresários e a sociedade civil, fazendo da corrupção uma prática intrínseca ao poder público. Nessa ótica, o mercado pode ser visto como o espaço da virtude, do trabalho produtivo e da dignidade, enquanto o Estado representa os privilégios e a ineficiência. Resta, portanto, a tarefa de modernizar o Estado, instituindo uma ordem burguesa até então sufocada pela burocracia estamental. Para isso, é preciso diminuir o tamanho do Estado e adotar a racionalidade da gestão empresarial, afastando, assim, a degradação da esfera política.

Já as teorias críticas entendem que, nas modernas formações sociais capitalistas, o Estado é apropriado pelas classes abastadas, a fim de que a política seja a representação dos seus interesses. Porém, isso é reflexo de uma relação mais ampla, o conflito entre classes sociais, marcado pelo conflito entre o capital e o trabalho. Mais recentemente, tem se observado que tais conflitos são atravessados por uma gramática moral, própria à modernidade, pela qual são invisibilizadas, justificadas e legitimadas as desigualdades sociais. Se as pessoas não se dedicam, não se esforçam e não possuem uma ética do trabalho produtivo acima de tudo, não são merecedoras de uma vida digna. Essa ideia não permite que se compreenda os mecanismos de reprodução dos privilégios injustos das classes dominantes, oriundos de uma sociedade que não oferece as mesmas chances para todos de acesso ao capital econômico e cultural, recursos determinantes para uma boa vida.

Parando de procurar a pureza de ambas as abordagens, podemos encontrar pontos de conexão entre elas. Dessa forma, penso que se pode desenvolver uma leitura mais fidedigna da modernização em países periféricos do capitalismo global, como o Brasil. Talvez esteja no tratamento sociológico rigoroso das possibilidades de contato entre as teses patrimonialistas e as teorias críticas o caminho para entender melhor o nosso país. Acontece que, na vida prática, cotidiana, os movimentos da política parecem apontar para a vitória eleitoral, ali na frente, do pensamento gerencialista que enxerga no mercado o reino de todas as maravilhas. Com isso, do Estado pode sobrar somente a repressão e a cobrança de impostos, fazendo da cidadania e da busca por uma sociedade mais harmônica algo totalmente inviável.

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sábado, 1 de abril de 2017

Liberalismo e socialismo: um debate


Por André Magnelli
Professor da Faculdade de São Bento (RJ)
Publicado no Blog do Sociofilo

Atualmente nós temos um debate muito tosco sobre a oposição entre duas tradições políticas: o liberalismo e o socialismo.

É importante apresentar alguns termos muito simples da questão, para que possamos contribuir um pouco para argumentações sobre uma problemática que, sendo tão central para todos nós, não  pode ser pensada de modo deveras leviano.

Do lado daqueles que se identificam com o socialismo, a grande maioria tem uma visão equivocada da tradição liberal, reduzindo-a ao que conhecemos como “neoliberalismo”. O neoliberalismo é uma forma reduzida e distorcida do liberalismo. Ele o reduz de modo economicista a uma tese: a de que o livre mercado garante, por si só, as liberdades e os direitos fundamentais. Contudo, ela é contraditória teoricamente e errônea historicamente. Afinal, um regime de livre mercado é completamente compatível com uma ditadura política. A defesa de uma esfera de liberdade de mercado e de livre iniciativa, que é fundamental para o liberalismo, não é igual à defesa do “livre mercado”. Desta forma, o neoliberalismo não apenas expressa incorretamente os valores liberais, como, sobretudo, suprime as possibilidades deles serem efetivados. Cabe então perguntar: o que é liberalismo e em que ele se diferencia e se opõe ao neoliberalismo e aos socialismos?

Doutro lado, uma maioria daqueles que se identificam com o “liberalismo” tem uma visão igualmente equivocada da tradição socialista. Eles a reduzem àquilo que conhecemos como “socialismo real” ou “comunismo” e entendem que todo socialismo é estatista e autoritário. Mas o “socialismo real” foi apenas uma das vias socialistas, que foi formulada e praticada sobretudo na virada do século XIX ao XX, tendo na teoria do Partido de vanguarda revolucionária de Lenin sua grande cartilha e não podendo nem sequer ser identificada completamente ao pensamento do próprio Marx. A partir da Revolução Bolchevique, que faz 100 anos em 2017, tal tradição totalitária participou da minimização, da aniquilação ou do esquecimento de outras vertentes socialistas, plenamente democráticas, como a socialdemocracia – que, vale lembrar, construiu no pós-guerra a base de nosso Estado Democrático de Direito – e os socialismos associacionista, autogestionário e solidarista. Cabe então perguntar: o que é socialismo democrático e em que ele se diferencia e se opõe ao liberalismo, ao neoliberalismo e às vertentes autoritárias e totalitárias de socialismo?

Ao invés de partir de tais problematizações, contudo, nosso debate público atual é alimentado por uma reprodução sistemática de incompreensões e embates vazios. Isso ocorre por causa de pelo menos três coisas:

(a) a inacreditável permanência de interpretações reducionistas das duas tradições no campo intelectual brasileiro, que está presente não apenas em uma intelectualidade tecnicizada com sofrida formação histórica e em humanidades, como também naquela outra intelectualidade, que se identifica com a esquerda, que parece ainda estar em meados do século XX, idolatrizando e apoiando regimes de egocratas como Fidel, Maduro e cia. Esse último caso ocorre por causa da reprodução endógena de um imaginário e de um discurso em descompasso surpreendente com as transformações das democracias contemporâneas e com as expectativas dos cidadãos de todas as classes sociais. Dado o fato dela ser muito barulhenta na esfera pública, querendo-se monopolizadora da única esquerda possível e existente, abre-se caminho a uma ridicularização distorcida, hoje, do que é “esquerda” por qualificativos como “esquerdopata”;

(b) uma ignorância autocomplacente dos indivíduos em uma sociedade midiática alimentada por estereótipos, lugares comuns, frases de efeitos e chavões. Vivemos em uma sociedade de opiniões “patológicas”. Entendo-as como “patológicas” nos três sentidos do termo: como opiniões cheias de emoção, embebidas de “sensacionalismo” e polarizações maniqueístas, com incapacidade de realizar a difícil tarefa de formular raciocínios dialógicos e bem fundamentados; como opiniões “passivas”, pois recebem e reproduzem esquemas de pensamento alheios quase que de forma automática, crendo que aí manifestam alguma ideia “pessoal” e alguma contribuição “única”; e, enfim, como opiniões “doentias”, que contribuem mais como expressão de sintomas de que algo não passa bem no psiquismo individual e coletivo, do que como parte da formação da vontade política na esfera pública democrática. O “patológico” acabou de assumir o poder nos Estados Unidos, o que, felizmente, está fortalecendo afetos positivos de resistência. O importante a perceber é que os muros materialmente erguidos – seja os de Berlim, de Trump ou de condomínios – parecem encarnar algo em comum: a rigidez e compartimentação de pensamentos incapazes de superar a lógica identitária e do interesse próprio e de se tornarem dialógicos, refletindo, debatendo e argumentando com os outros a respeito de questões publicamente substantivas, ou seja, questões que interessam, envolvem e engajam pessoas em torno de problemas públicos a serem enfrentados em si e por si mesmos;

(c) e, como resultado do fato anterior, temos a perda de sentido histórico de uma sociedade voltada à sacralização do presente e do imediato. Com isso, as palavras se tornam, paradoxalmente, ao mesmo tempo muito “evidentes” e “opacas”. As palavras são “evidentes”, pois muitas pessoas as utilizam tal como as crianças fazem com aquelas palavras que tentam aplicar sem ainda ter captado os significados. Como diziam Adorno e Horkheimer no capítulo central da sua Dialética do Esclarecimento (1944), intitulado Indústria Cultural: Esclarecimento como Mistificação das Massas, as palavras na sociedade de massas passam a “designar” sem “significar”. E, com isso, se tornam um meio de exercer violência contra o outro – “coxinha!”, “petista!”, “socialista!”, “liberal!” – e de reproduzir um sistema cultural massificado que tende a aniquilar a capacidade de pensar e refletir. Mas são também palavras “opacas”, porque elas têm em si significados sedimentados pela tradição que são intuídos e acionados nos discursos de combate de modo confuso, de tal forma que poucos conseguem apreender seus valores de “meia verdade”, já que isso demandaria uma consciência histórica que poucos têm ou estão dispostos a adquirir mediante esforço. Isso gera um mal-estar geral diante da dificuldade de dominar os discursos que perpassam o debate, gerando uma impressão difusa de que encenamos uma grande comédia no momento em que queremos encarnar sérios personagens. Há, com isso, um sentimento geral de desvanecimento do valor de verdade dos discursos em que os debates se tornam banais, artificiais, vazios, onde os oponentes se tornam muito parecidos uns com os outros.

Ora, as respostas a tais questões e a saída de uma situação tão paradoxal somente é possível caso façamos um esforço de sair do debate imediato e de adquirir uma consciência histórica das duas tradições políticas e do processo de formação e transformação das democracias modernas e contemporâneas. Contra nossa entropia democrática, é necessária uma neguentropia da educação histórica. Uma forte contribuição poderia vir de um ensino de história, sociologia e filosofia fortalecido – ao contrário do que parece querer o atual governo federal – para além das polarizações partidárias do presente, que apresente, de modo contextualizado, imparcial e processual, as múltiplas trajetórias das tradições políticas e de suas distintas possibilidades de interpretar a nossa situação, deixando aos indivíduos o direito e a capacidade de formar o seu próprio juízo.

Neste sentido, para concluir, acredito que, no século XXI, a polarização entre socialismo e liberalismo deve começar pela aceitação dos simples termos de debate postos, de um lado, por Marcel Gauchet, e, por outro, por Jürgen Habermas.

Marcel Gauchet nos lembra, mandando um recado à tradição socialista, que o liberalismo é um incontornável “fato jurídico e social do indivíduo” nas democracias modernas. Somente a partir do seu reconhecimento é que podemos, portanto, iniciar o debate sobre como interpretá-lo e como regulá-lo tendo em vista o imperativo democrático de igualdade e de formação da vontade geral:
Não esqueçamos jamais: a orientação liberal, muito antes de ser uma doutrina política, é um dado de fato, é uma articulação central de nossas sociedades. Ela tem a força de realidade das barreiras de direito que protegem o domínio das liberdades pessoais, e a densidade material dos prolongamentos da propriedade. Podemos discutir ao infinito, a partir daí, qual é a extensão desejável deste domínio protegido. É aqui que começa o debate entre ‘liberalismo’ e ‘socialismo’. Mas este debate não tem sentido senão em relação a um fato primeiro – digamos que o fato jurídico e social do indivíduo. Liberalismo e socialismo (na medida em que entendamos que esse permaneça democrático) são apenas, aparentemente, interpretações amplificadoras ou corretoras do fato liberal. O grande fato liberal no último século foi a autonomização em relação ao Estado de uma sociedade formada por indivíduos (GAUCHET, Marcel. La religion dans la démocratie. Paris: Gallimard, 1998, p.54).
Habermas, por sua vez, manda um recado ao outro lado do espectro, que saíra aparentemente vitorioso após a queda do mudo de Berlim. Ora, se o liberalismo é um fundamento normativo das constituições democráticas, isso não quer dizer que ele se identifica ao capitalismo tardio, e tampouco isso significa que o socialismo não seja um igual fundamento do Estado Democrático de Direito. Cabe-nos, portanto, ler com atenção esta passagem de Direito e Democracia (1992), a fim de perceber a atualidade da questão socialista (juntamente com a ecológica) para as democracias de nosso próprio tempo, esquivando-nos assim da tentação idiotista presente nos populismos que ganham perigosa força, hoje, no Brasil e no mundo:
O colapso  do socialismo de Estado e o  final da “guerra civil mundial” colocaram em evidência a falha teórica do partido fracassado [o socialista]: descobriu-se que ele confundira o projeto socialista com o esboço – e a imposição forçada – de uma forma de vida concreta. Todavia, se entendermos por “socialismo” um protótipo de condições necessárias para formas de vida emancipadas, sobre as quais os próprios participantes precisam se entender preliminarmente, não é difícil verificar que a auto-organização democrática de uma comunidade jurídica forma o núcleo  normativo do  projeto socialista. De outro lado, o partido que se considera vitorioso [o neoliberalismo] não pode comemorar o seu triunfo. Pois, no momento em que poderia assumir a herança indivisa da autocompreensão prático-moral da modernidade, ele desanima perante a tarefa ingente de levar adiante a domesticação social e ecológica do capitalismo no âmbito de uma sociedade mundial ameaçada. Se, certamente, ele respeita, rapidamente, o sentido epistêmico típico de uma economia orientada pelos mercados e, ao menos, está protegido contra uma dilatação exagerada do medium do poder de burocracias estatais, falta-lhe, contudo, uma semelhante sensibilidade em relação à fonte [da democracia] que está propriamente ameaçada [a saber,] – uma solidariedade social que deve ser recuperada e conservada em estruturas jurídicas (HABERMAS, J. Direito e Democracia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2012 [1992] p.12-13, grifos meus; fiz pequenas alterações na tradução para facilitar entendimento).

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O menino pobre e o gênio da bola

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Hoje eu vi uma foto emocionante: um menino de poucos anos de idade vestindo uma sacola plástica, que o seu talento transformou numa camiseta da seleção de futebol da Argentina. Nas costas, o nome e o número de Lionel Messi.

Essa semana eu vi os dados da Oxfam, ONG internacional, sobre a desigualdade de riquezas no planeta. São números provenientes do banco europeu Credit Suisse, que publica todos os anos um relatório acerca da desigualdade de riquezas em escala mundial.

Os dados são alarmantes. Não há como não se preocupar com a afirmação de que 62 pessoas possuem a mesma quantidade de riquezas que o restante das pessoas que habitam a Terra. Messi deve ser uma delas, parte do 1%. O menino, fã de Messi, é um integrante dos demais, os 99%.

A polarização político-ideológica reage aos números. A direita ortodoxa questiona a metodologia dos estudos; a esquerda ortodoxa sentencia que está provada a falência completa do capitalismo.

Sigo acreditando que as desigualdades de oportunidades são um problema central das sociedades humanas na atualidade. Mais do que verificar se os dados estão sobre ou subestimados, mais do que atacar um rival impessoal com palavras de ordem, a questão que me parece fundamental é investigar como ocorre a gênese e a legitimação da reprodução das desigualdades na vida de todos nós, pessoas comuns, dia após dia, de modo pré-reflexivo e intransparente*.

Esse me parece o desafio mais importante da sociologia crítica contemporânea.


* Uma das tentativas proeminentes de realizar essa investigação encontra-se na obra do sociólogo Jessé Souza, sobretudo em "A construção social da subcidadania" e "A tolice da inteligência brasileira". Leituras obrigatórias.

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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Thomas Marshall, cidadania e classe social


             
A cidadania é um status concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações pertinentes ao status. Não há nenhum princípio universal que determine o que estes direitos e obrigações serão, mas as sociedades nas quais a cidadania é uma instituição em desenvolvimento criam uma imagem de uma cidadania ideal em relação à qual o sucesso pode ser medido e em relação à qual a aspiração pode ser dirigida. […] A classe social, por outro lado, é um sistema de desigualdade. E esta também, como a cidadania, pode estar baseada num conjunto de ideais, crenças e valores. É, portanto, compreensível que se espere que o impacto da cidadania sobre a classe social tomasse a forma de um conflito entre princípios opostos. Se estou certo ao afirmar que a cidadania tem sido uma instituição em desenvolvimento na Inglaterra, pelo menos desde a segunda metade do século XVII, então é claro que esse crescimento coincide com o desenvolvimento do capitalismo, que é o sistema não de igualdade, mas de desigualdade. Eis algo que necessita de explicação. Como é possível que estes dois princípios opostos possam crescer e florescer, lado a lado, no mesmo solo? O que fez com que eles se reconciliassem e se tornassem, ao menos por algum tempo, aliados ao invés de antagonistas? A questão é pertinente, pois não há dúvida de que, no século XX, a cidadania e o sistema de classe capitalista estão em guerra.

REFERÊNCIA

MARSHALL, Thomas Humphrey. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. Página 76.
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segunda-feira, 16 de março de 2015

Por mais democracia

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sobre os protestos de ontem: dirijo-me aos amigos e conhecidos que exerceram o seu direito democrático de criticar o governo, a corrupção e até pedir a saída da presidente eleita há poucos meses. Ponto para a democracia. Manifestar-se é legítimo.

Porém, peço licença para compartilhar convosco uma preocupação. Vocês dividiram espaço com coisas muito bizarras e lamentáveis, coisas que vocês certamente não concordam. Nos seus próximos atos, não caiam na armadilha de defender ditaduras militares, o machismo, a homofobia, o racismo, o ódio ou a agressão ao seu semelhante de camisa vermelha.

Não caiam na armadilha de acreditar que vivemos numa ditadura comunista/esquerdista, com um liberal ortodoxo no Ministério da Fazenda; com eleições financiadas por empreiteiras e construtoras capitalistas; com um atuante imaginário meritocrático, individualista e apologista da competição feroz; com tantos direitos trabalhistas desrespeitados diuturnamente em prol do enriquecimento de uns cada vez mais poucos cidadãos; com uma mídia hegemônica reacionária e cheia de contas secretas na Suíça. Não, definitivamente o Brasil não vive uma ditadura comunista/esquerdista.

Leiam Paulo Freire, não arrotem seu nome por aí. Ele é um dos intelectuais brasileiros mais respeitados no campo da educação em todo o planeta, sobretudo nos países que vocês mais admiram. É só verificar. Buscar conhecimento e informação. Não repitam que a educação brasileira é dominada pelo marxismo, pelo gayzismo ou qualquer ismo considerado de esquerda. Ela não é. Muito pelo contrário, a educação formal brasileira reproduz o arbitrário cultural dominante, na sua maioria. Um ideário do ter, não do ser; do eu, não do nós; da vitória contra a derrota.

Desculpem os meus receios e medos postos a público. É que eu não gostaria de vê-los bradando ao lado de fascistas de qualquer estirpe. Lotem as ruas. Preparem-se bem e critiquem o PT por aquilo que ele deve ser criticado. Por Belo Monte. Pela corrupção endêmica que o partido hoje faz parte. Pelo prosseguimento das políticas de drogas e segurança pública autoritárias em vários aspectos. Por se aliar com partidos escrotos como o PP e o PMDB. Enfim, pautas não vos faltam e faltarão.

Não se unam aos que desprezam a democracia. Usem o seu direito democrático de manifestação para aprofundar a democracia, não ajudar a corroê-la. Eu não estarei lá, mas espero que esteja vivendo, trabalhando, dialogando, tomando uma cerveja e abraçando vocês como sempre, dispostos que estaremos a achar um caminho negociado para as nossas diferenças.

Por fim, quero deixar claro: o meu campo político não é o que estava nas ruas ontem. De certo, cada vez menos tem a ver com o PT. O meu campo político eu não sei definir, mas ele pauta-se pela busca da redução da concentração de riquezas, pelo fim das opressões, pelo exercício profundo da democracia e dos direitos humanos, pelo fomento de políticas sociais contundentes e de várias coisas que provavelmente seriam escorraçadas das ruas por alguns no dia de ontem. Espero que vocês não venham a estar entre eles.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Por um Banco Central republicano


Guilherme Lacerda, Diretor do BNDES
Antonio José Alves Jr., Professor da UFRRJ
Reproduzido do site Brasil Debate

As ideias que se seguem são motivadas pela perplexidade frente ao ataque agressivo, na forma e no conteúdo, desferido contra o Banco Central do Brasil. Por sua história e pela seriedade de sua missão, essa instituição do Estado brasileiro jamais poderia ter sua administração adjetivada levianamente como temerária (uma conduta tipificada no código penal brasileiro).

Tais ataques não têm legitimidade política para sancionar a terceirização da gestão econômica do Brasil e muito menos encontram amparo técnico que as qualifique; são apenas expressão do apego a concepções anacrônicas, elaboradas quando o Brasil ainda engatinhava em termos de estabilidade monetária.

Desde a virada do século, economistas e dirigentes de bancos centrais em todo o mundo tem debatido o poder conferido às autoridades monetárias e sua missão. Esse debate se acentuou com o complexo quadro econômico mundial pós-crise. E são muitas as manifestações nesse sentido.

Em março deste ano, o Presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, admitiu que a busca exclusiva da estabilidade de preços, típica de um Banco Central Independente, “…tornou-se uma distração perigosa para a economia”.

Na mesma linha, Christine Lagarde, diretora-chefe do FMI, afirmou ter chegado a hora de se ajustar o controle dos governos sobre os Bancos Centrais; eles não podem ficar presos só ao objetivo da estabilidade de preços. E ela acrescenta que, como a crise ensinou, “a estabilidade de preços não necessariamente leva à estabilidade macroeconômica”. Ademais, as evidências revelam: os países que não têm meta de inflação ou Banco Central independente se saíram tão bem ou foram melhores que aqueles adeptos desse arcabouço na condução da política econômica.

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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Milanovic e a desigualdade de renda ontem e hoje: algumas questões

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Entre um café e um jogo espetacular da Copa do Mundo, penso nas desigualdades. Nos debates políticos, elas quase sempre entram em campo. Podem servir de suporte para diversos argumentos. Sem dúvidas, para olhar o real com densidade é preciso diagnosticá-las minimante. A esquerda diz que as desigualdades têm se fortalecido. Os liberais sentenciam que não. Eu mergulho na leitura. É aí que o economista do Banco Mundial [1], Branko Milanovic [2], tenta oferecer uma espécie de mapa da situação no capitalismo contemporâneo.

Da visão que promove, pode-se partir de três formas de investigar a desigualdade de renda ao longo do tempo [3]. O primeiro tipo é definido a partir dos Estados Nacionais. A estatística é calculada com o PIB ou os rendimentos médios de cada país, sem ponderar as diferenças de populações. Cada país tem um peso igual, independente do seu tamanho. Sob esse prisma, a desigualdade aumentou consideravelmente, pelo menos até a virada do milênio.

Figura 1: Três tipos de desigualdade

A segunda maneira de conceituar a desigualdade ainda utiliza as médias dos países, sem fazer do indivíduo a unidade de análise. Só que, dessa vez, leva em conta os tamanhos populacionais e pondera os dados de cada nação. Nessa curva, a desigualdade se mostra em decréscimo quase constante.

Numa terceira interpretação, a complexidade das relações humanas ganha força com o entendimento de que é necessário que os dados sejam trabalhados no nível dos indivíduos, e não das médias nacionais. Pensa-se acerca das desigualdades globais. Para isso, as pesquisas domiciliares de larga escala são relevantes. Essas estatísticas podem ser encontradas com alguma regularidade para distintos países somente da década de 1980 em diante. Nesse cenário, desponta uma variabilidade entre crescimento e diminuição da desigualdade, que aparece num leve contínuo declínio.

Figura 2: Indicadores globais de desigualdades de renda de 1952 até 2011

Com efeito, Milanovic deixa claro quem mais obteve benefícios com a globalização orientada nas duas recentes décadas: em primeiro lugar, os muitos ricos; depois, o segmento social que chama de “classe média de economias de mercado emergentes”, como China, Índia, Indonésia e Brasil. As pessoas que fazem parte do 1% mais rico do planeta viram a sua renda subir em 60%. As referidas classes médias, 80%. Houve uma evolução da renda também das classes médias baixas. Porém, entre os 5% mais pobres, a perda dos rendimentos reais foi grande e a desigualdade elevou-se. O autor sublinha, sem rodeios, que as pessoas mais afetadas negativamente pela economia mundial de 1998 a 2008 são africanas, alguns latino-americanos e os habitantes da antiga União Soviética.

Agindo segundo uma sociologia reflexiva, sinais de questionamentos surgem e se voltam sobre a temática. Além do fato de que as desigualdades de renda não contemplam com exclusividade as profundezas das relações de poder e dominação em curso nas sociedades contemporâneas, outras perguntas se destacam.

Se houve uma transformação positiva no período assinalado, de acordo com as concepções dois e três, a manutenção dos privilégios dos mais ricos não se faz bastante mais significante, tendo em vista que, para quem já tem muito, aumentar em 60% o seu montante representa uma lógica acentuada de persistência das coisas como elas estão? Mesmo aceitando sem muitas críticas esse movimento, a virada abaixo nas curvas da desigualdade, sendo puxada por países como Brasil e China, não sugere que políticas estatais de interferência concreta nos rumos econômicos são mais eficientes do que práticas de desregulamentação ampla dos mercados? Não foram justamente esses países que não se jogaram numa austeridade excessiva durante o calor da crise de 2008?

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[1] Importa lembrar que o Banco Mundial tem sido concebido por muitos analistas como um organismo multilateral colaborador do mercado financeiro, pautando políticas econômicas de cunho neoliberal. Ver:http://www.administradores.com.br/.../o-banco.../31091/.

[2] MILANOVIC, Branko. Global Income Inequality by the Numbers: in History and Now – An Overview. Policy Research Working Paper 6259. The World Bank, 2012. Disponível em: http://elibrary.worldbank.org/doi/pdf/10.1596/1813-9450-6259.

[3] Além disso, o texto defende que, desde a Revolução Industrial, a humanidade não via uma mobilidade entre classes sociais como a que se pode enxergar por intermédio dos dados citados pelo autor. Essa ideia é referenciada por alguns grupos liberais para sustentar as suas teses.

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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Lendo Piketty, parte 1

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O livro de Thomas Piketty, professor da Paris School of Economics, tem causado uma histeria feroz naqueles que enxergam comunismo por todos os lados. Sem conseguir refutar os dados da obra “O capital no século XXI”, apelam, como sempre, para os mantras favoráveis à desregulamentação ampla da economia capitalista. Berram como raivosos distantes de qualquer densidade argumentativa.

De fato, minha leitura até agora indica que Piketty não é um esquerdista, revolucionário ou comunista. O que ele faz é ampliar a metodologia de Simon Imagem: Bernardo Caprara.Kuznets, aplicada num estudo da década de 1950. Kuznets afirma que, na fase inicial do desenvolvimento capitalista, as desigualdades crescem razoavelmente. Porém, depois de consolidado o livre mercado, as desigualdades decaem e estabilizam o sistema. Com os dados da época, reduzidos aos Estados Unidos, Kuznets sustentou sua tese e disseminou o sentimento de que o crescimento econômico independente de qualquer política edifica a diminuição das desigualdades de renda.

Piketty, por sua vez, evidencia que os dados do século XX ilustram que a taxa de retorno do capital é maior do que o ritmo do crescimento econômico. O contexto político e social carrega grande importância. Para Piketty, o capitalismo contemporâneo nos países centrais concentra renda, promove desigualdade e está associado a baixo crescimento, privilegiando os mais ricos através da herança.

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terça-feira, 3 de junho de 2014

Escutando Paul Krugman

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Em meio às leituras, já na madrugada, viajei para longe. Estava na América do Norte. Como sociólogo estudioso das desigualdades, satisfazia-me com o diálogo que travava. Localizava-me frente a uma artilharia pesada contra o pensamento rasteiro. Conversava com o economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, professor da Universidade de Princeton. O assunto girava em torno de dois tópicos duvidosos: os ricos são ricos porque se esforçam; a desigualdade não está aumentando.

Dizia Krugman: “Os conservadores querem levá-lo a acreditar que as grandes recompensas, nos Estados Unidos modernos, são reservadas aos inovadores e empreendedores, pessoas que criam empresas e promovem o avanço da tecnologia. [...] Como aponta Matt Levine, da ‘Bloomberg View’, a renda de muitos dos mais conhecidos administradores de fundos não vêm de investir o dinheiro alheio, mas do retorno sobre sua riqueza – ou seja, a razão para que ganhem tanto é o fato de que já são muito ricos” [1].

Esclarecedor. Kruger seguia derrubando mitos, intercalando os dois tópicos da conversa, elucidando controvérsias: “Portanto, eis o que é preciso saber: sim, a concentração tanto de renda quanto de riqueza nas mãos de uns poucos aumentou imensamente nas últimas décadas. Não, as pessoas que recebem essa renda e possuem essa riqueza não formam um grupo sempre mutável: é comum que pessoas se movimentem entre os 10% mais ricos e o 1% mais rico, e vice-versa, mas histórias de alguém que tenha ascendido da pobreza à riqueza, ou feito o percurso oposto, são raras” [2].

Como professor, aprendia demais naquela troca de ideias. Despertei reflexivo. Pensativo. Um duro golpe no conservadorismo tinha atravessado os meus sonhos. Ah, mas talvez muitos dos aderentes à lógica binária argumentassem que Paul Kruger é comunista, que Princeton é uma instituição comunista e que o The New York Times, jornal centenário, é uma publicação vermelha. Vai entender...

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[1] Ver em http://www1.folha.uol.com.br/.../1451852-quanta-riqueza....
[2] Ver em http://www1.folha.uol.com.br/.../1463757-sobre-a-negacao....

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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Contra o pensamento binário

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
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Junho chegou. Há um ano, o Brasil fervia e sacudia os incautos. Agora, às vésperas da Copa do Mundo e das eleições de outubro, um ponto em particular chama a atenção. Trata-se das análises sobre a realidade brasileira. Podemos pensar sobre ela a partir de vários focos. Sugiro três, especialmente: aquele que achincalha o país dos petralhas corruptos; aquele que venera as conquistas das últimas décadas e solta o verbo contra a tucanada conservadora; e, por fim, aquele que não acha o seu lugar nesse complexo contexto.

Nas redes sociais e também nas ruas, existe um sentimento de que é necessário mudar. O período de reinado dos petralhas frente ao governo federal precisa terminar. O país está virando muito comunista (?), dá bolsas demais, oferece serviços demais para a população. Sendo que os direitos imperativos (saúde e educação) nunca melhoram. Sem falar dos mensaleiros, da violência e da impunidade constante. Esse é o Brasil que muita gente enxerga. Lugar onde ninguém quer trabalhar, mas muitos gostam de viver nas costas dos outros. Ninguém quer estudar, mas muitos ganham vagas nas Universidades. Ninguém quer fazer nada, mas muitos conseguem tudo a partir do Estado.

Na outra ponta, os rivais da tucanada conservadora apontam para o passado e demonstram que tudo está muito melhor agora. Que, agora, muitos milhões de brasileiros saíram da miséria através de incentivos estatais. Hoje, as universidades se tornaram populares e coloridas. Vivemos em pleno emprego. A desigualdade está caindo. Nossa economia figura entre as dez maiores do planeta. Não somos mais o país do futuro. Somos a nação do presente. Se voltarmos ao passado, se colocarmos a tucanada no poder de novo, nós jogaremos fora todas as vitórias duramente conquistadas. Recordar é ter medo daquilo que passou.

O terceiro foco possível desconjura as perspectivas acima e, assim, desconfigura qualquer localização binária nesse cenário político. É inegável que os governos dos petralhas modificaram alguns setores. A desigualdade de renda, medida pelo Coeficiente de Gini, diminuiu como nunca na história nacional. O índice passou de 0,594 em 2001 para 0,527 em 2011[1]. O salário dos 10% mais pobres aumentou 91,2% de 2001 a 2011[2]. A população autodeclarada negra teve um aumento de 66,3% na sua renda na última década, e a parda 85,5%[3]. De 1997 até 2011, o número de estudantes negros nas Universidades cresceu de 4% para 19,8%[4]. Não resta dúvida de que as cotas raciais e as demais Políticas de Ações Afirmativas têm imensa responsabilidade positiva nesse avanço do processo de democratização do ensino superior.

Outro detalhe intrigante direciona-se ao programa de assistência social mais rechaçado por parte da sociedade brasileira. O Bolsa Família demonstra algumas faces distintas daquelas sentenciadas pelos seus opositores. Diz-se que gera preguiça e acomodação. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), 72% dos adultos beneficiários do programa estão trabalhando no mercado formal ou informal; as crianças das famílias participantes possuem frequência escolar acima de 85% (dados de 2013). A Organização das Nações Unidas (ONU), por sua vez, declara que o Bolsa Família reduziu em 17% a mortalidade infantil nas áreas em que sua cobertura é profunda e extensa[5].

E aí, o que pensar? Acho que o caminho é não aderir ao pragmatismo eleitoreiro que se aproxima. Parece que, perto do pleito que está por vir, ou devemos defender a tucanada conservadora ou a petralhada no poder. É promissor ir além dessa falsa única dicotomia. Sim, houve mudanças no Brasil. Porém, essas mudanças, ainda que muito importantes, não alteraram a estrutura política e econômica sob a qual desenvolvemos as nossas vidas. A política econômica parece permanecer orientada pelo tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário – embora os economistas divirjam sobre uma continuidade ortodoxa ou flexível[6]. Os bancos calculam lucros de dar inveja a qualquer agiota[7]. As manifestações populares dão a entender, no mínimo, que as pessoas não se sentem integradas às instituições políticas e aos seus representantes.

Vejamos exemplos mais concretos. O Estado brasileiro, desde as instituições policiais, mata e mata demais. Amarildos e DG’s não são casos isolados. O já clássico livro do jornalista Caco Barcellos, Rota 66, para não citar pesquisas científicas, ilumina uma das séries históricas de violência exercida pela coerção institucionalizada. A sonegação de impostos é altíssima (cerca de 415 bilhões de reais por ano, o que representa um valor superior a tudo o que foi arrecadado pelo Imposto de Renda em 2011[8]). Os ricos no Brasil têm sua renda menos taxada do que os ricos na maioria das nações que compõem o G20[9]. As favelas dividem espaço com os poucos, mas exuberantes bairros europeus cravados nos trópicos. A educação básica e a saúde pública patinam.

Neste ensaio, tentei refletir sobre três possíveis abordagens acerca da atual realidade brasileira. Com o recurso de alguns dados quantitativos, tornou-se possível evidenciar as transformações ocorridas, sobretudo, na última década. Entretanto, a estatística mapeia horizontes amplificados e por isso carrega o prejuízo de não explicar as subjetividades intrínsecas aos pontos fora das curvas. O fato de defendermos as conquistas das últimas décadas não pode obliterar as nossas visões sobre as mazelas que persistem e insistem. O real se mostra, portanto, muito mais complexo do que as assertivas formuladas pela (in)capacidade do pensamento binário.

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[1] Conforme o estudo “A década inclusiva”, produzido pelo IPEA em 2012.
[2] Conforme o estudo “A década inclusiva”, produzido pelo IPEA em 2012.
[3] Conforme o estudo “A década inclusiva”, produzido pelo IPEA em 2012.
[4] Segundo o Censo da Educação Superior, produzido pelo IBGE em 2011.
[5] Disponível em http://www.onu.org.br/estudo-avalia-impacto-do-programa-bolsa-familia-na-reducao-da-mortalidade-infantil/.
[6] Debate em http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=
com_content&view=article&id=20234
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[7] Ver em http://www.feebpr.org.br/lucroban.htm.
[8] Dados divulgados pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (SINPROFAZ), em 2013.
[9] Ver em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014
/03/140313_impostos_ricos_ms.shtml
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domingo, 16 de março de 2014

O discurso vazio sobre os impostos


Por Mariana Schreiber
Da BBC Brasil

Reclamar dos impostos é hábito comum da elite brasileira. Mas uma comparação internacional mostra que a parcela mais abastada da população não paga tantos tributos assim. Estudos indicam que são justamente os mais pobres que mais contribuem para custear os serviços públicos no país.

Levantamento da PricewaterhouseCoopers (PWC) feito com exclusividade para a BBC Brasil revela que o imposto de renda cobrado da classe média alta e dos ricos no Brasil é menor que o praticado na grande maioria dos países do G20 – grupo que reúne as 19 nações de maior economia do mundo mais a União Europeia.

A consultoria comparou três faixas de renda anual: 70 mil libras, 150 mil libras e 250 mil libras – renda média mensal de cerca de R$ 23 mil, R$ 50 mil e R$ 83 mil, respectivamente, valores que incorporam mensalmente o 13º salário, no caso dos que o recebem.

Nas três comparações, os brasileiros pagam menos imposto de renda do que a maioria dos contribuintes dos 19 países do G20.

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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Pobreza é uma questão coletiva


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Pobre é pobre porque quer”. A frase me corroía por dentro. Não saía da cabeça a polêmica afirmação (?!) de um jovem conhecido. Num boteco da rodoviária, observava o real em volta de mim. Os funcionários combinavam as escalas do fim de ano. Queriam uma chance para visitar os familiares. Torci para que eles conseguissem. Diziam que o patrão era duro na queda. Voltei àquela frase tão difícil de digerir.

Viajei. De repente, organizei alguns dados do PNUD, vinculado à ONU. Cerca de 1,57 bilhão de pessoas vivem em estado de “pobreza multidimensional”. Além de possuírem renda baixíssima (R$ 2,50 por dia, em média), não têm acesso à saúde e educação. Não têm perspectivas de qualidade de vida. Filosofei, na linha do politicamente incorreto, na moda hoje em dia: “É muita gente querendo ser pobre!”. Por outro lado, um banco suíço diz que os milionários representam 0,6% da população adulta do planeta. Cuspi: “É muito pouca gente querendo ganhar milhões!”.

Sobressaltado, brilhou-me uma recente lição. Temos a tendência a enxergar o mundo a partir das nossas sociabilidades. A transformar casos minoritários, excepcionais, em regras infalíveis – desde as nossas interações com a parte do mundo que nos cabe. Tendemos ao equívoco. Isso pode nos levar a desferir frases aparentemente certeiras. Mas que, na verdade, não passam de pré-noções cheias de irreflexão.

O balanço do ônibus fez pensar no movimento da vida. Na sua complexidade. Nas oportunidades que se distribuem por aí, de modo desigual. Bastante desigual. Sempre tive oportunidades na vida. A melhor maneira de agradecer a isso parece ser aproveitar as chances que a vida me deu, tentando construir oportunidades para mais pessoas. Num mundo em que competir e vencer é a lei maior, as evidências apontam que a pobreza é uma questão coletiva. Não é puramente individual.

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terça-feira, 9 de julho de 2013

Belluzzo: Foucault e o neoliberalismo


A releitura do liberalismo econômico clássico, proferida pelos pensamentos de Friedrich Hayek e Milton Friedman, após a Segunda Guerra Mundial espalhou-se ao redor do planeta como uma fórmula mágica das elites do poder. Mais do que uma doutrina relativa ao campo da economia, o neoliberalismo carrega uma espécie de filosofia social embutida. Luiz Gonzaga Belluzzo (saiba mais), economista Michel Foucault (Imagem reproduzida do sítio http://lh3.ggpht.com/-ka8dkI1-sHk/UWqyxLlwc0I/AAAAAAAACl4/R8-9DTdt5eE/foucault%25255B12%25255D.jpg?imgmax=800).consultor  da Revista Carta Capital, disserta sobre como o intelectual francês Michel Foucault (saiba mais) soube compreender com profundidade o alcance do espectro neoliberal, para além dos quesitos tradicionais.

O mundo se abriu para o novo milênio dominado por certezas que hoje se desmancham sob a ação demolidora da crise financeira. A ideologia neoliberal, quase sem resistências, tentou demonstrar que, com a queda do Muro de Berlim, o espaço político e econômico tornou-se mais homogêneo, menos conflitivo, com a concordância a respeito das tendências da economia e das sociedades. Não há mais razão, diziam, para se colocar em discussão questões anacrônicas, como a reprodução das desigualdades ou as tendências dos mercados a sair dos trilhos, frequentemente destrambelhados pelos excessos nascidos de suas engrenagens.

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Belluzzo: “Os economistas”


O professor e economista Luiz Gonzaga Belluzzo (saiba mais), consultor da Revista Carta Capital na área, disponibiliza no seu blog um texto bastante interessante sobre o ofício e a prática dos economistas. Vale dar uma olhada nas suas palavras para compreender melhor esse campo de atuação científica.

Resolvi juntar algumas linhas que escrevi a respeito dos economistas, suas  teorias, convicções e previsões. No estouro da crise financeira, as maledicências sobre economistas, suas teorias, crenças e previsões corriaLuiz Gonzaga Belluzzo (imagem reproduzida do sítio http://www.cartacapital.com.br/economia/os-economistas/?autor=13).m soltas, à velocidade da peste nos centros financeiros do mundo. Mas, passado o susto, os que fracassaram em suas antecipações já sobem o tom de suas arrogâncias e voltam a trovejar sua cambaleante sabedoria.

A reputação dos economistas e o prestígio de sua arte de antecipar tendências variam na mesma direção dos ciclos do velho, resistente, mas talvez nem tão surpreendente capitalismo. Quando os negócios vão bem, as previsões mais otimistas são ultrapassadas por resultados formidáveis. É a festança dos consultores: o noticiário da mídia não consegue oferecer espaço suficiente para os profetas e oráculos da prosperidade eterna. Na era da informação a coisa é ainda pior: em tempo real, os meios eletrônicos regurgitam uma fauna variada de palpiteiros e adivinhões. Todos ou ao menos a maioria tratam de insuflar a bolha de otimismo.

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