ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

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quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Tempo de viver

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Viver é oscilar entre o peso e a leveza da existência. Essa ideia não me sai da cabeça desde que li Milan Kundera pela primeira vez. Na constante busca por cultivar meus sonhos pelas manhãs, a primavera chega como um tambor pulsando alegrias na voz de Milton Nascimento.

Entre os perrengues íntimos e as mazelas de um país assombrado pelo carrego neofascista, é preciso manter o vigor e a chama da leveza. Oscilar, mas também se firmar. Entre dias, horas e semanas mobilizadas pelo trabalho e pelos estudos, é preciso intensificar amizades e afetos e não deixar a bola cair.

Aqui, nesse guichê-escriba, a bola, o futebol, o futevôlei e a altinha são algumas das coisas que fazem a cabeça, para além da labuta. Eu e você sabemos que o melhor que a gente tem na vida é feito de miudezas cotidianas. É viver ao lado das nossas gentes; a abelha fazendo o mel; a estrela cair do céu; e é lembrar que o sono alimenta de horizontes o tempo de viver.

O mar anda agitado, mas a gente insiste em nadar. Daqui a alguns dias teremos um grande desafio coletivo. Mesmo com o melhor dos resultados, o assombro vai permanecer. Ainda assim, na corda bamba, vamos adiante. Sabendo que tudo o que move é sagrado, e remove as montanhas com todo o cuidado, meu amor!

 

sábado, 23 de julho de 2016

Entre o peso, a leveza e o equilíbrio


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, diz a sentinela enquanto Hamlet encontra o fantasma de seu falecido pai. “Há algo de podre na sociedade brasileira”, eu penso enquanto um raio de Sol me abraça em pleno inverno e as páginas de William Shakespeare fazem meu coração disparar. Assim é a literatura. Afeta os nossos horizontes e nos faz abrir a caixa de ferramentas da imaginação (e da crítica social, talvez?).

Alguns dos livros que andei lendo, neste semestre, fomentaram reflexões sobre o momento conturbado do Brasil. “Submissão”, do francês Michel Houellebecq, cutucou meus pensamentos já em janeiro. Fez-me refletir sobre todas as pequenas submissões às quais nós vamos cedendo no cotidiano. Coisas que parecem pequenas, como achar normal trabalhar um milhão de horas semanais e quase não ter vida, achar normal opressões e desigualdades, ou mesmo, como no livro, ir passo a passo se submetendo a uma “cultura alheia” que vai se impondo e dominando as nossas vidas.

Depois, foi a vez de me deparar com a formação religiosa extremamente endurecida, marcante nas personagens de Chimamanda Adichie, em “Hibisco Roxo”. A ânsia de mergulhar na vastidão deste mundo e na sua veia dionisíaca enfrenta o universo de experiências deixadas para trás por uma moral conservadora até o talo. A sanha religiosa do “chefe de família” narrado pela nigeriana contrasta com as práticas de violência física punitiva a qualquer ato "diferente" dos filhos e com diversas contradições entre o que as pessoas são e o que uma doutrina religiosa totalizadora acredita que as pessoas deveriam ser. A cara do Brasil e dos asseclas fundamentalistas, alguém diria.

“Casei com um comunista”, do estadunidense Philip Roth, mostra bem o teor da velha perseguição ao outro político, à ideologia rival transformada em inimigo interno. Demonstra uma senil caçada institucional ao comunismo, muito atual no cenário brasileiro contemporâneo – por incrível que isso possa parecer. Ora, vamos nos submetendo cotidianamente a uma vida estranha e desumana, em que a “vida em si” fica em segundo plano; vamos convivendo e sendo afetados por fundamentalismos variados, sobretudo religiosos, que não se sustentam no confronto entre doutrina e prática, mas fazem grandes estragos na dinâmica social; e vamos, também, observando cada vez mais qualquer coisa que não seja a “tradição do homem de bem e suas propriedades” ser colocada na prateleira da monstruosidade comunista. Ira Ringold, personagem de Roth, hora dessas pode aparecer, com outra roupagem, numa condução coercitiva sob os holofotes das grandes empresas de comunicação.

O texto que me desestabilizou mais, “Os Mandarins”, de Simone de Beauvoir, é uma autêntica “pedrada existencialista”. Um grupo de intelectuais de grande porte se debate na França do pós-Segunda Guerra sobre o seu papel nos rumos políticos do planeta. Como os antigos funcionários públicos chineses, a impressão inconsciente é que os habitantes do “mundo do conhecimento” vão perdendo, dia após dia, o seu lugar de influência nas arenas políticas e, portanto, na definição do futuro da vida em sociedade. A angústia e a melancolia de pessoas que tem muito a dizer, e poucos que as escutem, prenunciam uma era dominada por uma racionalidade instrumental, ao mesmo tempo em que feita de chavões e apelos publicitários. Hoje, os memes, as aparentes verdades simplificadoras e a violência como resposta primeira tendem a reinar onde o conhecimento é mais do que desvalorizado.

Por fim, Milan Kundera resume o meu sentimento nesse semestre que termina. “A insustentável leveza do ser” me jogou, de cabeça, no conflito entre o peso e a leveza no arrastar do tempo que vai passando, como numa espiral entre o velho e o novo, conquistas e atrasos. O evidente peso do contexto político nacional, de usurpação do poder e acirramento da barbárie, de ataques reiterados a direitos constitucionais e liberdades individuais, interage sem parar com a leveza dos avanços micropolíticos de igualdade e solidariedade que, sim, renovam-se por toda a parte. Mas, atenção, Kundera nos desperta: pode o peso se fazer leve, por vezes, e a leveza pesar tanto quanto o peso. Acho que a gente segue tentando descobrir onde vive o equilíbrio.

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sexta-feira, 20 de março de 2015

Conto da esperança

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O ódio e a intolerância andam firmes por aí. Sentimentos sombrios. Mas eles não precisam perseverar. Naquele dia, eles perderam espaço para a esperança e a alegria. Era carnaval. Nos blocos do Rio de Janeiro, lotados de amizade, azaração e euforia, o ódio e a intolerância tentavam ganhar espaço.

Um Japa com sotaque e procedência dos pampas se divertia com algumas amigas cariocas e os demais parceiros gaúchos. Ele já havia evitado duas confusões. Queria ser feliz, não brigar. Na paz, seguiram para um bar na Gávea. Cerveja vai, cerveja vem, ele notou olhares enviesados de um sujeito bastante grande. Daqueles sujeitos que costumam ser chamados de Marreta, Muralha ou Montanha. Montanha, para os íntimos.

O Japa seguia na boa. Esperto, sentia o coração bater mais forte. Montanha se aproximava. Não parecia afeito a muitos amigos gaúchos. Montanha chegou, ali ao seu lado.

- Aí, vacilão?! Tô vendo que tu tá tirando alta onda nessa porra, mermão! Qual foi?!?!

O Japonês gaúcho gelou. Era a terceira confusão que se apresentava. Ele já não suportava mais. Estava no seu limite.

- Bah, cara. Foi mal. Eu não vou brigar. Tu é gigante, muito forte, tu vai me esmagar. Eu não vou brigar. Se tu quiser, pode me bater. Não vou reagir. Tô aqui serenão, curtindo com as gurias e com a gurizada. Pode me bater.

Montanha recuou, meio perplexo. Desistiu do massacre. O Japa dos pampas sorriu aliviado. Não queria confusão.

Quase uma hora depois, o clima era de tranquilidade. Até que outro rapaz, daqueles tipos que se acreditam malandros, mas são apenas uns manés, chegou perto do Japonês na fila do banheiro. O Japa suspirou. Chega. Dessa vez ia brigar. Foda-se. Ergueu a cabeça para ouvir o Mané.

- Aí, gaúcho arrombado?! Qual foi?! Tá me zoando?!

O Japonês enfrentou e chutou o balde.

- Zoando é o caralho, meu! Vai te foder!

No ínterim entre o pau começar a comer e a esperança evitar o ódio, Montanha tomou a cena outra vez. O Japa tremeu. Montanha olhou para o Mané e deu números finais ao confronto:

- Porra, brother... A parada é a seguinte: o gaúcho não briga. Ele tá na paz. Vaza. Você quer brigar. Eu também. Vamos brigar eu e você!

De cabeça baixa, o Mané caiu fora. Dali por diante, Montanha e Japa beberam juntos, sorriram e curtiram a noite numa boa.

Por vezes, seja assustadora, alta ou longínqua, agir com humildade pode fazer da montanha algo acessível. E afastar o ódio e a intolerância. Há esperança.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Desconfiar é preciso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há um texto do genial Eduardo Galeano em que a desconfiança é celebrada. A história é singela. Um professor conclama os estudantes a se manifestarem quando, após o mestre abrir um pote com perfume, eles sentirem o cheiro. Com o pote quase aberto, alguns já declaram a força do aroma. E assim todos o fazem. Até que alguns pedem que se abra a janela, pois o cheiro está forte demais.

O professor, calado, apenas observa. E logo conta aos educandos: o pote está cheio de água, não há perfume algum.

Tal historinha passa pela cabeça acompanhando os noticiários dos grandes meios de comunicação. Como se os que vestem as suas camisas dissessem: nestas telas, nestas páginas ou neste rádio está a informação imparcial e verdadeira. Ao acreditar, os apressados cometem um grave engano. O que há ali é uma versão, uma versão que interessa a uma determinada visão política. Um simulacro da vida real. Que, nesse caso, exala um forte cheiro de excremento - para ser gentil.

Desconfiar é preciso. Desconfiemos.

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domingo, 21 de julho de 2013

Duas médicas, dois livros de Neruda


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Que dureza! Não queria comentar a questão, mas não tem jeito. Não depois de hoje. O cara chega para realizar uma consulta médica, pelo convênio, num estabelecimento de pequeno porte. Na região central da capital gaúcha, longe do interior. Gripão pegando, receio da tal H1N1. O cenário é tomado por umas 100 pessoas para serem atendidas. Duas dedicadas e atenciosas médicas. Após uma hora e trinta minutos, chamam meu nome:

- Fulano de tal!

Alegre, quer dizer, meia boca, eu comemoro sentindo o febrão dominante:

- Bingo!

Deveria ter levado um livro, dois, na verdade. Como a menina sentada ao meu lado. Ela lia dois exemplares em idioma original dos poemas de Pablo Neruda. Quis pedir um emprestado, só que a vergonha não permitiu. Sábia jovem que acrescentava bonitezas na sua longa e doentia espera. Nas próximas vezes, farei igual a ela. Levarei duas boas obras. Uma para emprestar voluntariamente.

Embora as médicas estivessem fazendo milagre por ali, os problemas da saúde no Brasil ficaram evidentes. Eles são institucionais, por vezes individuais, sim. Sobretudo, a lógica do sistema é que precisa mudar. Óbvio que necessitamos de mais estrutura. Enquanto isso, por dez mil reais, vamos botar a mão na massa, queridos “doutores”! Parece que precisamos de menos remediação e mais estratégias preventivas. Mais humanidade e menos mercado. Profissionais que se insiram nas comunidades, criando uma nova cultura holística de saúde. 

Uma outra medicina tem que passar a vigorar. Com urgência.
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terça-feira, 28 de maio de 2013

Mia Couto e sua “Terra Sonâmbula”


O escritor moçambicano Mia Couto (saiba mais) é uma das melhores expressões da literatura contemporânea. Sem dúvidas, a fuga das análises eurocêntricas acerca das produções acadêmicas e artísticas abre a possibilidade de amplo conhecimento e apreensão de materiais interessantíssimos. É nesse contexto que o trabalho disponibilizado abaixo está situado. De autoria da Historiadora (UFRGS), Imagem reproduzida do sítio http://prefaciocultural.files.wordpress.com/2012/04/terra-sonambula_rep_300.jpgProfessora de História, Especialista em História da África (FAPA) e Mestranda em História Contemporânea (UFF), Raquel Braun Figueiró (saiba mais), os citados  ecritos versam e aprofundam o livro cujo nome é “Terra Sonâmbula”, do escritor africano Mia Couto.

A literatura é uma forma de expressão de um povo através da qual podemos entender as suas culturas e a sua história. Nesse sentido, o presente trabalho visa apontar algumas das principais problemáticas relativas às literaturas africanas de língua portuguesa da pós-independência. Num segundo momento, realizar-se-á uma análise do livro Terra Sonâmbula, do autor moçambicano Mia Couto. Nele estão duas histórias distintas que se unem através da leitura dos cadernos de Kindzu por Muidinga. Apenas ao final, entendemos não serem histórias tão distintas, uma vez que Muidinga era Gaspar, o filho de Farida tão procurado por Kindzu. A narrativa de Muidinga e Tuahir é feita por Mia Couto, enquanto os cadernos de Kindzu são narrados pelo próprio Kindzu.

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sexta-feira, 24 de maio de 2013

O italiano Fernando Atthanasio


Passamos a publicar uma série de contos da Historiadora e Professora de História, Raquel Braun Figueiró (saiba mais), baseados nos estudos da autora sobre os acontecimentos que levavam algumas pessoas para a Casa de Correção de Porto Alegre no século XIX. Iniciamos com o conto “Fernando Atthanasio”, contando várias das histórias daCasa de Correção de Porto Alegre (Imagem original no sítio http://fotosantigas.prati.com.br/fotosantigas/PortoAlegre/Porto_Alegre_Casa_de_Corre%C3%A7%C3%A3o_1954.htm) capital gaúcha no passado e fazendo a imaginação viajar no espaço-tempo. Segue abaixo o link para o texto completo.

(…) Fernando Atthanasio era um italiano negociante na cidade de Porto Alegre. Era casado e contava com seus 33 anos no dia em que Silvado fora baleado. No dia do crime saíra após o almoço para jogar cartas e tomar um trago na venda do seu Victor Gaclord. Do meio para o fim da tarde, fora para casa tomar uma taça de vinho e comer um pedaço de salame, servidos por sua mulher, Eufrasia. Tomara seu casaco escuro e saíra para os lados das docas do entorno do mercado. Ali ficara a fumar na beira do rio e a pensar na vida como se estivesse em um daqueles momentos em que o tempo para. Lembrara os motivos que o fizeram vir a Porto Alegre com sua esposa, há pouco mais de um ano.

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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Operários em construção

Vinicius de Moraes*
Poeta, poetinha, camarada

No dia do trabalhador, uma homenagem para todos os trabalhadores deste mundo afora. Nenhum direito a menos! Nada deve parecer impossível de mudar.

Às vezes, enquanto trabalho em casa, na minha máquina, e busco no abstrato da paisagem urbana a forma do que quero dizer, acabo esquecendo de tudo para fixar minha atenção sobre os operários que terminam o edifício em frente. Chegaram agora à fase em que só falta pintar as esquadrias e dar caiação final no primeiro andar. Venho, há meses, observando-os trabalhar, erguer a sólida estrutura de oito pisos, com três apartamentos por andar. Vi-os situar as fundações, levantar o cipoal de aço e cimento que era como o esqueleto do prédio. Vi-os colocar-lhe os soalhos, enquadrar-lhe as portas e janelas, revesti-lo de sua epiderme intensa de tijolos refratários. Fui espectador emocionado de suas perigosas passagens para a prancha móvel, à guisa de elevador, sobre a área mínima da qual suspendiam-se para rebocar e caiar os grandes muros externos laterais da construção paciente e imóvel. Juro que ouvia tambores surdos, como antes do número de sensação ao trapézio volante de um circo, cada vez que um daqueles homens cor de cimento fazia arriscadíssima passagem da janela para a prancha estreita presa a roldanas colocadas no alto do edifício. Admirei-os em suas displicentes poses escultóricas, mãos na cintura sobre a tábua balouçante, indiferentes à sucção do abismo aberto em espirais de morte sob seus pés. A um vi fazer pipi lá para baixo, num perfeito à-vontade, provocando-me necessidade idêntica, ai de mim, fruto de uma reação de meu vago-simpático (pois que sofro de vertigem das alturas). À noite, ouvi-os cantar, no barracão que levantaram no pátio dos fundos, enquanto o fogo de sua cozinha rústica crepitava no escuro e seus violões ponteavam bordões dolentes. Apreciei-os brincar e brigar, passarem-se objetos, jogando-os com incrivel precisão, discutir problemas de construção e lances de futebol e receber empregadas da vizinhança com as quais se internavam prédio adentro: e que alegres voltavam desses rápidos seqüestros! Agora a estrutura se erige - mais um apartamento na colmeia em torno - e os operários esticam seu labor na preguiça dos retoques finais. Ergueram o prédio. Cumpriram seu dever. Criaram com suas mãos o plano de um arquiteto. Deram vida ao espaço. E em verdade eu vos digo que é justo o lazer que ora se permitem, pois multiplicaram uma só unidade residencial em muitas, capazes de abrigar as alegrias, tristezas, amores e lutas de outros tantos homens. E, fazendo-o, fizeram trabalho de homem.

* Reproduzido do site http://www.viniciusdemoraes.com.br.
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terça-feira, 19 de março de 2013

Murar o medo, por Mia Couto


O escritor moçambicano Mia Couto (saiba mais), habilidoso com as palavras e muito fértil com a imaginação, também possui uma sensibilidade grande relacionada aos acontecimentos da vida cotidiana. A reflexão abaixo pode despertar bons questionamentos, boas críticas e, ainda, boas problematizações acerca daMia Couto (Imagem retirada do sítio http://blog.ftc.br/comunicacao/wp-content/uploads/2011/08/Mia-Couto.jpg) construção e da consolidação de uma espécie de sentido imaginário hegemônico do medo.

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

“Meio sol amarelo”, grande livro da escritora nigeriana Chimamanda Adichie


Uma das melhores literaturas dos últimos tempos. Não é europeia, americana ou brasileira. A nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (saiba mais) alcança uma sensibilidade extrema, uma narrativa mais do que fluente, viva e pujante. Ainda que "Meio sol amarelo" (Companhia das Letras, 2008) trate livremente de um tema tãoChimamanda Ngozi Adichie (Imagem original no sítio http://www.africa-ontherise.com/wp-content/uploads/2013/02/Chimamanda-N-Adichie.jpg) complexo como os conflitos políticos, étnicos e sociais de uma Nigéria dos anos  1960, o texto é doce, quente e muito reflexivo.

Ugwu escolheu a cadeira mais distante e juntou os pés desajeitadamente. Preferia ficar em pé.

“Existem duas respostas para as coisas que eles vão lhe ensinar sobre a nossa terra: a resposta verdadeira e a resposta que você dá na escola para passar de ano. Você tem que ler livros e aprender as duas versões. Eu vou lhe dar livros, livros excelentes”. O Patrão interrompeu o que dizia para tomar um gole de chá. “Eles vão lhe ensinar que um homem branco chamado Mungo Park descobriu o Rio Níger. Isso é besteira. Nosso povo pescava no Níger muito antes que o avô de Mungo Park tivesse nascido. Mas, no seu exame, escreva que foi Mungo Park”.

“Pois não, sah”. Ugwu desejou que esse Mungo Park não tivesse ofendido o Patrão tanto assim (página 21).
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Um cemitério de latas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

O sol brilhava e esquentava o dia. Estava lá para apoiar uma pessoa que conhecia havia pouco tempo, mas dera tantos sinais de que merecia a ajuda, que ele tinha certeza que fazia a coisa certa. Em meio a muito pó, o depósito de veículos do governo estadual tinha um aspecto deteriorado. A missão era tirar o carro dali.

O automóvel estava legalmente no seu nome, mas há muito já não lhe pertencia. No decorrer do processo de transferência aconteceu o furto, fato que o fez parar lá, no local que mais parecia um cemitério de latas. Passaram ambos por uma porta enferrujada, sob a ordem de que apenas um poderia entrar. Tudo funcionava estranhamente. Entraram os dois. Chegaram ao carro e, então, as previsões se tornaram realidade: sobraram somente a carcaça e o motor fabricado nos idos de 1989.

Observaram atônitos, banhados pela quentura solar dos tristes trópicos. Atrás do banco do motorista, duas ferramentas atiradas davam os tons do prejuízo que o rapaz que ele fora auxiliar teria pela frente. Só que representavam mais do que isso. Representavam a desconfiança de que o ganancioso sistema de crimes, corrupções e ilegalidades envolvendo veículos automotores estava ali, evidenciado diante deles. Funcionários do depósito depenam ao máximo o fruto do desejo alheio, enquanto os dois (!) trabalhadores da perícia atendem ao enorme número de ocorrências diárias em toda a capital. Depois liberam o carro. A cena está pronta. E assim essa espécie de “máfia” segue ferindo o sonho dos outros.

Ele se foi, suado, pensando nos detalhes que fizeram com que o ideário da razão iluminista (igualdade, liberdade e fraternidade) perdesse o embate para a “mão direita” da modernidade. O núcleo duro das relações econômicas capitalistas, da procura incessante pelo lucro, do culto ao indivíduo que produziu seu sucesso sozinho, elementos que parecem vencer as belezas das utopias da humanidade. O final, este a gente ainda desconhece. O final desta historieta, entretanto, tem um gosto amargo indescritível.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fernando Atthanasio

Raquel Braun Figueiró*
Historiadora e Professora

– Atthanasio, Fernando Atthanasio.

Repetia várias vezes Laurindo de Oliveira Silvado, na noite que sucedeu aos tiros que levou no ventre e no braço direito, na doca do cais, ao anoitecer do dia 28 de novembro de 1893.

Fernando Atthanasio era um italiano negociante na cidade de Porto Alegre. Era casado e contava com seus 33 anos no dia em que Silvado fora baleado. No dia do crime saíra após o almoço para jogar cartas e tomar um trago na venda do seu Victor Gaclord. Do meio para o fim da tarde, fora para casa tomar uma taça de vinho e comer um pedaço de salame, servidos por sua mulher, Eufrasia. Tomara seu casaco escuro e saíra para os lados das docas do entorno do mercado. Ali ficara a fumar na beira do rio e a pensar na vida como se estivesse em um daqueles momentos em que o tempo para. Lembrara os motivos que o fizeram vir a Porto Alegre com sua esposa, há pouco mais de um ano.

Eufrasia era uma mulher madura, séria, esguia e observadora. Já contava com seus setenta anos ao casar com Fernando. Queria uma jovem companhia para a velhice, a qual ainda poderia lhe valer uns afagos que os homens da sua idade já não podiam mais lhe dar. Porém, queria também beber um pouco da juventude de outrem para não apagar totalmente os seus tempos áureos da memória, mesmo sabendo que o respeito de Fernando por ela não podia mais alcançar o fulgor de uma paixão e que ele talvez pudesse procurar outras mulheres com quem se deitar. Em Triumpho, sua cidade natal, Eufrasia havia acumulado certa quantia em dinheiro e deixou um filho mais velho que o marido. Naquela cidade, ao longo da vida tornara-se dona de campo e casa no valor de dois contos de réis e quantidade de gado no mesmo valor. A mulher vendera esse gado todo ao seu filho Silvio Gonçalves.

Fumando seu cigarro na beira do cais, Fernando Atthanasio lembrara tudo isso e os diversos mal entendidos travados entre ele e o filho da sua mulher. A situação tornara a vida em Triumpho insustentável. Tendo como negociar em Porto Alegre, o casal partira para a capital. Pensara em como a sua vida de imigrante diferia do que imaginara. Do sonho de terra e trabalhador agrícola, sua trajetória o transfigurara num errante das terras platinas. O que mais aquelas terras lhe reservavam?

À mulher, já casada e já tendo trilhado a maior parte de sua vida, restara acompanhar o marido e esperançar por uma velhice mais tranquila, longe das brigas travadas pelo filho e dos fuxicos da vila de Triumpho.

O que ambos não sabiam é que essa decisão não acalmaria a raiva de seu filho. Silvio Gonçalves fervilhava em pensar que o restante da herança de sua mãe iria para as mãos daquele mascate. Resolveu acabar com a raça do seu padrasto, encomendando a sua morte.

Nesse ponto é que todas as histórias se entrelaçam, quando o lanchão “Leopoldina” atracara na doca próxima ao mercado e a Fernando Atthanasio. Dela desembarcou Laurindo de Oliveira Silvado com um objetivo firme e frio a ser desfechado na capital. Fernando o reconheceu por saber da sua amizade com seu enteado. Foi ao seu encontro irado de raiva com a sua presença, indagando-o:

– O que fazes aqui diabo velho? Espero não ter vindo a mando do Gonçalves.

O outro proponente ficou surpreso em encontrá-lo tão rapidamente e retrucou as ofensas. Os ânimos se exaltaram a ponto de Laurindo Silvado já ter sacado a sua arma na frente de uma multidão de marítimos presentes no porto, sem se lembrar da discrição que essa incumbência necessitava.

Fernando Atthanasio, também armado, talvez a esperá-lo naquela embarcação ou talvez precavido pelas as incertezas da sua vida, disparou dois tiros contra Silvado e saiu em disparada para os lados do mercado, ainda tropeçando no meio do caminho.

A fuga desesperada de Fernando não o safou da pena de dez anos e seis meses na Casa de Correção de Porto Alegre. Haja vista, todos os marítimos, os negociantes e um músico que presenciaram partes daquela cena de um cair da noite na beira do cais da capital gaúcha. Fernando Atthanasio errou para a Correção da capital. Apenas em nove de maio de 1903 conseguira, outra vez, sentar-se livremente à beira do cais e se perguntar a quais outros lugares sua trajetória lhe enviaria.

* Raquel Braun Figueiró é Licenciada em História pela UFRGS, Mestranda em História Contemporânea pela UFF, Especialista em História da África pela FAPA e Professora de História na Rede Pública Estadual.
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terça-feira, 24 de abril de 2012

Dostoievski e a nudez do cárcere

O escritor russo Fiódor Dostoievski, confesso, mexe comigo. Desde a leitura de “Crime e Castigo”, passando por “Memórias do Subsolo” até chegar ao livro “Recordações da Casa dos Mortos”, o despertar do perpétuo movimento da dúvida ganhou fôlego dentro de mim. O talento dele faz com que minhas certezas se defrontem com a realidade imaginária das suas palavras, enredadas na astúcia de uma leitura profunda da vida humana individual e coletiva. Na última obra que referi acima, Dostoievski remonta sentimentos e histórias sob o ponto de vista de um prisioneiro na Sibéria. Ele mesmo foi preso e esteve por lá.

DOSTOIEVSKI, Fiódor. Recordações da Casa dos Mortos. Página 15 – Já declarei que no correr de muitos anos não presenciei entre tais homens arrependimento ou quaisquer ideias de rebate de remorsos, eles em geral cuidado de modo tácito haver agido errado. E isso de modo categórico. Sem dúvida deve concorrer para isImagem retirada do sítio http://www.algosobre.com.br/images/stories/assuntos/biografias/Fidor_Dostoievski.jpgso a desfaçatez que então paradoxalmente se transforma em brio. Será, mesmo? Quem há capaz de sondar direito tais almas; de descobrir o fundo mistério lôbrego do arbítrio por este universo afora? Aparentemente, todavia, minha atenção, nesse sentido, jamais em todo esse tempo lobrigou uma fresta de desespero ou de sofrimento que pudesse clarear nesses corações um compartimento de perplexidade, quando não de horror ao passado. Naturalmente meu julgamento a tal respeito é superficial, já que um criminoso tem sempre ensejo de reforçar a incomunicabilidade de sua consciência, mercê de uma filosofia de cinismo ou apatia. Os presídios, mesmo com trabalhos forçados, de primeira, segunda ou terceira categoria, isto é, em minas, em pavimentações, em artesanato e em degredo temporário ou perpétuo, longe estão de reformar o delinquente; são locais puramente de castigo, garantindo teoricamente a sociedade de renovação de atentados outros por parte de tais indivíduos que por isso são segregados dela. O encarceramento, o trabalho pesado, só hipertrofiam no recluso o ódio, a sede de instintos, sendo que complementarmente acarretam indiferença e marasmo espiritual. Não resta dúvida que o tão gabado regime de penitenciária oferece resultados falsos, meramente aparentes. Esgotada a capacidade humana, desfibra a alma, avilta, caleja e só oficiosamente faz do detento “remido” um modelo de sistemas regeneradores. Na verdade esse “reajustado” não é senão um ex-vivente, um despojo, um casulo murcho e inibido. Está-se a ver que o delinquente exacerba cada vez mais sua rebeldia que se organiza em potencial de rancor. Para ele a sociedade errou e ele quis castigá-la. Ou, quando não, o castigo que ele, sim, teve, uma vez cumprido é automaticamente uma absolvição, antes mesmo do termo já se considerando ele de contas feitas com a sociedade. Ora, desde as eras antes do direito em ordenações, se sabe que aqui ou alhures no mundo isso de crime é crime deveras, tal conceito permanecendo enquanto houver humanidade viva. No presídio, então, por que é que a gente ouve por entre risadas irresponsáveis alusões aos atos mais hediondos, monstruosos e infames?

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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Millôr vive: Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação

Imagem retirada do sítio http://i.amalgama.blog.br/2012/03/millor-fernandes.jpg Millôr Fernandes (1923-2012)*

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantêm automaticamente em sua seqüência correta.

Através do uso intensivo do recurso TPA – Tecnologia do Papel Opaco – permite-se que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta “ERRO GERAL DE PROTEÇÃO”, nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.

O comando “browse” permite fazer o acesso a qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento “índice” instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.

Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você faça um acesso ao L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração.

Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O. através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.

 

* Milton Viola Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 192327 de março de 2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista brasileiro.

Começou a trabalhar ainda jovem na redação da revista O Cruzeiro, iniciando precocemente uma trajetória pela imprensa brasileira que deixaria sua marca nos principais veículos de comunicação do país. Em seus mais de 70 anos de carreira produziu prolífica e diversificadamente, estendendo sua criatividade ao jornalismo, literatura, artes, teatro, cinema e até ao esporte. Em seus trabalhos costumava valer-se do humor para criticar o poder e as forças dominantes, sendo em consequência confrontado constantemente pela censura. Dono de um estilo singular, era visto como figura desbravadora no panorama cultural brasileiro: no teatro, por exemplo, empreendeu uma revolução no campo datradução de peças, tanta era diversidade e a personalidade que impunha aos trabalhos – características que se manifestavam também em suas incursões como autor, artista plástico, jornalista e pensador.

Com a saúde fragilizada após sofrer um acidente vascular cerebral no começo de 2011, morreu em março de 2012, aos 88 anos.

Mais informações na fonte original
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mill%C3%B4r_Fernandes

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Abaixo segue o link para a entrevista de Millôr Fernandes no programa Roda Viva, da TV Cultura.

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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Só mais um Silva? (Parte 1)

Imagem retirada do sítio https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJdxh74sU4NnUcx3vjc4qPTf2qP500kT2IPpFC125MLIyG6CasdyVlIj0yoSeHMlArXAFFgJQEZBB_y03orYqwSr2I9zoLS4CDKXMBfvNqwufgLu3uajdPqGbXe3wyOBG_QNdOU7V4VhM/s400/multid%C3%A3o.bmp No meio do caos e da multidão, ele era só mais um Silva?

Ele era um rapaz bastante normal para a sua idade. Gostava muito de futebol, das aventuras com as meninas, da vida agitada com os amigos e, inclusive, da batalha para vencer os desafios escolares. Não seria um episódio como aquele que o faria desistir de levantar de todos os dias, buscar um sorriso no rosto ao visualizar o sol brilhante. Não um episódio nefasto como aquele. Era chegada a hora de mudar o rumo de sua vida com uma decisão, uma ação que não poderia esperar.

Silva vivera até aquele momento numa cidade pequena, às margens do estuário Guaíba, região metropolitana de Porto Alegre. Na verdade, às margens de um rio que banha a capital do Rio Grande do Sul, pois assim o local foi e permanece definido no imaginário característico do gaúcho. Do outro lado do vasto aglomerado de águas, cujo deleite do sol deitando-se diariamente proporciona um espetáculo tão belo como as mais belas expressões da natureza. Lá nascera e crescera Silva, o protagonista da situação encardida daquele momento crucial. Tinha a sensação de se confrontar consigo mesmo, com as suas mais íntimas intenções.

Com 18 anos, ele conhecia bem a capital, mantinha boas relações com uma rapaziada de diversas quebradas daquela selva de pedras. Viu e viveu uma realidade que retrata uma considerável parcela dos jovens brasileiros, imersos nas dificuldades financeiras, numa vida em que os prazeres mundanos se confundem com a violência própria das sociedades contemporâneas. Sempre traçava comparações entre a vida na metrópole e a sua vida, nas longas viagens de ônibus, pelas quais chegava e saía da capital, lembrando-se das noites às margens do Guaíba, do vento cortante que se entrelaça ao frio peculiar da região sul. Desta vez, precisava pensar bem antes de tomar qualquer atitude.

Silva dormiu e acordou sobressaltado. A cena daquela criança, verdadeiro homem, não lhe abandonava os pensamentos. Como poderia um indivíduo como aquele, um homem que não tinha uma dezena de idade, agir de uma maneira em que se poderia afirmar a presença da deterioração incontestável do ser humano? Seria aquela uma prática espontânea, derivada dos impulsos “naturais”, trazidos por aquele menino na sua base genética e/ou biológica? Seria ele fruto de uma sociedade que vangloria a competição, os discursos de uma moral caduca, descontextualizada?

Era preciso descer do ônibus e conversar com alguém, dividir a tensão da necessidade que sentia em não deixar passar aquela oportunidade de ajudar uma pessoa. Ele sabia que o menino não iria gostar da sua ideia, tampouco da materialização dela, mergulhado que estava nas ondulações da realidade diária, desconcertado pelos caminhos da rua. Jogado nas agruras da eterna briga pela sobrevivência, pela comida do dia, pelo abrigo da chuva e do frio, aquele moleque de cabeça raspada e feições de homem feito possuía personalidade, uma identidade marcada. Não seria nada fácil convencê-lo.

Silva abriu a porta de casa, beijou sua mulher e sentou-se ofegante no sofá da sala. Maria Joana sentiu na chegada daquele homem com quem dividia sua vida uma energia estranha, diferente da rotina a qual ambos estavam acostumados. Silva estava nervoso, seu semblante transparecia isso. Mari, como a chamava Silva no carinho do cotidiano, aproximou-se e com um olhar de quem sabia o que estava falando, perguntou de maneira simples:

– Conta, meu grande amigo. O que te aflige?

– Eu não sei o que fazer Mari, hoje estive a ponto de perder a compostura com uma visão que tive lá na capital. – Disse Silva.

Maria Joana foi até a cozinha e colocou uma chaleira com água para esquentar. Voltou para a sala, observando Silva jogado no sofá, de olhos fechados notadamente obscurecidos por alguma brutalidade da realidade social do século XXI. Apertou alguns botões, retirou de uma estante hermeticamente organizada um velho disco de uma música caribenha que é capaz de mexer com qualquer sujeito transtornado pela carga de sentimentos do mundo urbano mal resolvido. Pôs o objeto musical para tocar e voltou à cozinha, a fim de finalizar a preparação do mate. Sentou-se no sofá, abraçou Silva e ficaram ali, durante dois quartos de hora apreciando o mate e a serenidade da música que abduzia seus espíritos numa maré de tranquilidade.

A noite se impôs sem piedade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mia Couto: Murar o medo

Mia Couto
Escritor

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
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sábado, 2 de julho de 2011

Gabriel García Márquez e os Buendía

Cem Anos de Solidão (Cien Años de Soledad no título  original) é uma obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982, e é actualmente considerada uma das obras mais importantes da literatura Latino-Americana. Esta obra tem a peculiaridade de ser umas das mais lidas e traduzidas de todo o mundo. Durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em Março Imagem retirada do sítio https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjVpBz6TZupMjXGUenbkFfR_A7q3GqiI6yixXGWGWwoxuIZz-pb1EYP9PTYN7nFd9RrHfVdakzQ-7ckOd1dt7prOY2c4o5_ncQ3PnFc-K4vk16HBNI-0HDU8egrzRYQ96CAbQQtEgKC_72F/s1600/cem-anos.jpgde 2007, Cem anos de solidão foi considerada a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de Dom Quixote de la Mancha. Utilizando o estilo conhecido como realismo fantástico, Cem Anos de Solidão cativou milhões de leitores e ainda atrai milhares de fãs à literatura constante de Gabriel García Márquez.

A primeira edição da obra foi publicada em Buenos Aires, Argentina, em Maio de 1967, pela editora Editorial Sudamericana, com uma tiragem inicial de 8.000 exemplares. Nos dias de hoje já foram vendidos cerca de 30 milhões de exemplares ao longo dos 35 idiomas em que foram traduzidos.

Muitos falam da necessidade de se ler Cem anos de solidão com um bloco de apontamentos ao lado, com o intuito de se traçar a árvore genealógica dos 500 mil Aurelianos, José Arcadios e variações destes mesmos nomes para compreender a teia de personagens que vai sendo criada à medida que os anos avançam. No entanto, a real essência está em ver a história além das suas personagens e entender o círculo que se fecha ante às previsões de um fim anunciado. Há diversos elementos que se entrelaçam formando um conjunto bastante interessante, pois, como disse Pablo Neruda, "este é o melhor livro escrito em castelhano desde Quixote".

Texto retirado da Wikipedia, a Enciclopedia Livre.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

“Terra Sonâmbula”, de Mia Couto


Raquel Braun Figueiró*
Historiadora e Professora

Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado sem conta nem tempo (COUTO, 2007: 203).

Introdução

A literatura é uma forma de expressão de um povo através da qual podemos entender a sua cultura e sua história. Nesse sentido, o presente trabalho visa apontar algumas das principais problemáticas relativas às literaturas africanas de língua portuguesa da pós-independência. Num segundo momento, realizar-se-á uma análise do livro Terra Sonâmbula, do autor moçambicano Mia Couto. Nele estão duas histórias distintas que se unem através da leitura dos cadernos de Kindzu por Muidinga. Apenas ao final, entendemos não serem histórias tão distintas, uma vez que Muidinga era Gaspar, o filho de Farida tão procurado por Kindzu. A narrativa de Muidinga e Tuahir é feita por Mia Couto, enquanto os cadernos de Kindzu são narrados pelo próprio Kindzu.

Apontamentos sobre as literaturas africanas

As literaturas africanas são recentes e normalmente escritas na língua do antigo colonizador. Esse último fato não exclui a originalidade dessas literaturas e a originalidade da literatura de cada país africano. Entretanto, muitos debates e problemáticas surgem acerca disso. Uma primeira problemática que destacamos seria quais os elementos que denotam originalidade nas literaturas africanas e quais denotam cópia da literatura do colonizador. Quanto a isso, Ana Mafalda Leite explica que:

Se, antes das independências, as obras e os autores são enquadrados dentro do sistema literário da metrópole, posteriormente, muitas das leituras tendem a situá-las intertextualmente devedoras de obras e movimentos literários europeus, tendo em conta o espaço matriz de colonização, o que, naturalmente é necessário fazer, mas não unicamente. A autonomização dos processos literários africanos, de língua portuguesa por exemplo, partilha diversas heranças intertextuais além da literatura portuguesa (literatura latino e hispano-americana, literaturas africanas em outras línguas e os intertextos da tradição oral) que são igualmente importantes para a caracterização dos aspectos especificamente regionais e nacionais diferenciadores. (LEITE: 1998, 13).

Sob a afirmação da autora entendemos que antes das independências havia textos que pretendiam seguir os moldes da literatura do colonizador, mas que após esse processo histórico as literaturas africanas (nesse caso aquelas escritas em português) ganham autonomia e originalidade ao mesclar os elementos de diferentes tradições literárias, sejam eles latino-americanos, africanos ou procedentes da tradição oral. Com isso, a mesma autora também nos explica que “o termo proposto de literatura neo-africana recobre um corpus específico de textos produzidos pelos africanos em línguas européias, e distinguem-se por uma unidade fundamental de referência e de visão do mundo” (LEITE, 1998: 16).

Aqui se torna necessário fazer uma ressalva quanto à oralidade na tradição africana, uma vez que o fato da oralidade ter importância na tradição africana não significa que ela seja “inata” aos africanos assim como a escrita é “inata” aos europeus. Tal cuidado é necessário para não interpretarmos um acontecimento acidental como um acontecimento essencial. Como salienta Leite:

A predominância da oralidade em África é resultante de condições materiais e históricas e não uma resultante da “natureza” africana; mas muitas vezes este facto é confusamente analisado, e muitos críticos partem do princípio de que há algo de ontologicamente oral em África, e que a escrita é um acontecimento disjuntivo e alienígeno para os africanos. (1998: 17)

Outra indagação importante ao tentarmos entender a literatura africana consiste em saber se a utilização da língua do antigo colonizador seria um produto neocolonial ou não. Quanto a isso há, inclusive, escritores africanos que reivindicam a utilização da língua africana anterior ao colonizador para a escrita literária. Porém, tal visão fundamentalista desconsideraria todo o processo histórico vivenciado por esses povos, responsável por fazer quase impossível a manutenção de uma escrita literária utilizando tais línguas. Conforme Mafalda Leite:

É ainda um principio nostálgico, idealista e essencialista, pensar em termos estáticos na recuperação de uma mundividência pré-colonial, não levando em linha de conta as transformações sofridas nestas sociedades com o colonialismo, as independências e a modernização.

Insistir numa visão monolítica e indiferenciada de uma estética africana é uma forma também de negar a heterogeneidade e complexidade do universo cultural africano. É talvez ainda a manifestação de uma visão neo-panafricana, que encara o continente como indiferenciada totalidade, neste final do século, quando diferentes nações africanas constroem há várias décadas o seu percurso literário próprio e diferenciado. (1998, 24).

Para complementar as reflexões de Leite, outra estudiosa, Rita Chavez, ao investigar a literatura angolana, coloca-nos uma problemática importante para pensar essa questão da utilização da língua do colonizador, ao perguntar-se: “como exprimir uma cultura nova, identificada com a libertação, através de um código que foi também instrumento de dominação?” (2005: 71). Afinal, a língua do colonizador é um instrumento de dominação, mesmo sendo apropriada pelo povo colonizado, não deixa de remeter ao passado em que uma sociedade foi subjugada. Por aí a resposta que a autora dará vai ao encontro da conclusão exposta por Mafalda Leite, ao passo que, para ela,

considerando a língua como um fator de cultura, que reflete e produz, a um só tempo, um conjunto de condicionamentos internos e externos, o artista procura recursos que lhe permitam utilizar o português sem que um tal uso implique a perda de identidade de seu projeto sócio-político-cultural (CHAVES, 2005: 72).

Além disso, para essa autora um ponto para consolidar esse processo de angolanização da língua portuguesa seria a incorporação de marcas da oralidade nos textos escritos (no caso da literatura angolana).

Relacionada à problemática acima exposta segue-se outra, em que devemos considerar que ao estudar literatura africana outra ponderação muito presente é aquela referente à nacionalidade da literatura e como a produção dessa literatura influenciou no processo nacional. Não obstante, muitos dos textos de literatura africana produzidos hoje são escritos na língua do antigo colonizador. Para Pires Laranjeira, a literatura africana representa processos técnicos de escrita que se erguem contra os modismos europeus. É no processo de ruptura com o modelo de literatura do colonizador e na inovação proposta pelos autores da literatura africana que reside a libertação dessas literaturas (LARANJEIRA, 1992: 10). Esse processo de ruptura inicia-se na década de 1940.

Contra a “escrita flutuante”, passível de ser apropriada por colonialistas ou portugueses de má fé, se erigiram todos os movimentos literários africanos, de maior ou menor envergadura, com ou sem conseguimento. Tornar a escrita irrecuperável pelo poder das metrópoles ou do neo-colonialismo, eis o propósito de alguns dos maiores escritores africanos. A literatura, na sua perspectiva, é sempre política, ou pelo menos fortemente politizada, ainda que não explicitamente. (LARANJEIRA, 1992: 12).

Ainda que utilizando a língua do colonizador, a literatura africana ganha originalidade ao se apropriar do signo colonial e utilizá-lo como ferramenta de luta e de expressão de uma cultura.

Quanto à denominação da literatura em cada parte da África o mesmo pensador salienta as dificuldades de usarmos, no caso da literatura aqui estudada, o termo “literatura africana de expressão portuguesa”. O uso desse termo visa agrupar e delimitar as literaturas dos países africanos com língua portuguesa. Entretanto, ele apresenta o problema de

[...] imediatamente, a partir da classificação, se fica com o preconceito de que as literaturas, em quantidade, são tão irrisórias que não merecem tratamento apartado. Conseqüência: assuntos e autores que mereciam ampla e minuciosa abordagem ficam sujeitos [...] a simplificações, mutilações, incompletudes e desvirtuações (LARANJEIRA, 1992: 17).

No que se refere a essa denominação também Ana Mafalda Leite faz uma ressalva ao sublinhar que elas traçam generalizações que nos fazem perder de vista as particularidades nacionais. Nas suas palavras:

As designações abrangentes, ainda hoje usadas, do tipo, “literaturas africanas de língua portuguesa”, “literaturas lusófonas”, “literaturas anglófonas e francófonas”, são em si portadoras de uma significação ideológica obtusa, que permite a indefinição nacional, e leva a uma generalização do particular em favor de traços apenas comuns pelo uso e um mesmo instrumento lingüístico, e processos temáticos de contestação similares durante o período colonial. (1998: 13).

Portanto, as literaturas africanas apresentam originalidade e particularidades conforme o processo histórico que aconteceu em cada país. Ana Mafalda Leite nos explica:

Cada literatura nacional africana tem as suas características próprias e desenvolve-se segundo moldes estáticos e lingüísticos, cuja distintividade resulta não só das diferenças culturais étnicas de base, mas também das diferenças lingüístico-culturais que a colonização lhes acrescentou. É praticamente insustentável qualquer generalização que conduza a elaborações teóricas que não levem em linha de conta as especificidades regionais e nacionais africanas. (1998: 27).

As literaturas africanas de língua portuguesa dialogam com as “tradições” cada uma da sua maneira e conforme o seu contexto histórico específico. Mafalda Leite relata que os escritores africanos fazem essa apropriação da língua do colonizador, “nativizando-a”.

Nas literaturas africanas de língua portuguesa, tendo em conta a especificidade de colonização que favoreceu a indigenização do colono e a aculturação do colonizado, em graus mais ou menos extremados e substancialmente diferentes das outras colonizações, a relação com as tradições orais e com a oratura, começam por manifestar-se exactamente pelas diferentes “falas” com que os escritores africanos se assenhorearam da “língua”. A “pilhagem” ou “roubo” da língua portuguesa pelo colonizado mostra que a “africanização”, perversamente, se institui e processa no interior do instrumento comunicativo, num processo transformativo e nativizante. (LEITE: 1998, 33).

A maioria dos escritores das literaturas africanas de língua portuguesa são assimilados, uma parte significativas de ascendência européia, quase todos de origem urbana, sem contato directo com o campo, e não dominam, salvo raras exepções, as línguas africanas. Esse facto não é comum nos outros países africanos, onde a ligação com o “terroir” se mantém desde a infância e os escritores geralmente são, pelo menos, bilingues. (LEITE: 1998, 30).

Segundo a autora, Mia Couto poderia ser enquadrado como um autor que realiza a “modelação da língua, instrumento privilegiado da contaminação, mestiçagem e entrosamento das culturas, orais e escritas” (LEITE: 1998, 32).

Terra Sonâmbula

O livro Terra Sonâmbula de Mia Couto discorre sobre duas histórias que a princípio parecem distintas, mas que ao final do texto se ligam. O texto se divide em Capítulos e em Cadernos de Kindzu, sendo que está estruturado de forma que após cada Capítulo inicia-se um Caderno de Kindzu. Assim, essa parte do texto será dividida entre reflexões sobre os capítulos e, posteriormente sobre os Cadernos de Kindzu.

Os capítulos do livro tratam sobre a história das personagens Tuahir e Muidinga e sobre o seu cotidiano em uma “estrada morta”, ou seja, uma estrada sem movimento. Tuahir é um velho e Muidinga um menino que deve ter em torno de 11 anos. O pequeno é chamado de miúdo pelo velho. Tuahir e Muidinga são dois desabrigados que vagam pela Moçambique da pós-independência tentando sobreviver. Fácil é perceber a partir da leitura do texto o deslocamento causado pela guerra civil que se instalou no país após a independência. Durante esse deslocamento eles encontram um machimbombo (ônibus) queimado e instalam-se nele. Dentro desse ônibus há pessoas mortas e uma delas carrega uma mala, na qual estavam guardadas comida e alguns escritos denominados Cadernos de Kindzu. Os cadernos são lidos por Muidinga para os dois, visando preencher seus dias e noites solitários.

Na medida em que a leitura se desenrola, as personagens penetram cada vez mais na história e, sentindo a necessidade da leitura dela, de modo que o próprio Tuahir chega a afirmar, ao final do quinto capítulo, que “Esse fidamãe desse Kindzu já vive quase conosco” (2007: p.90). Ao fim desse capítulo vê-se a importância da contação de histórias em Terra Sonâmbula, que provavelmente expressa a importância dessa prática na cultura moçambicana. Cabe salientar que a contação das histórias de Kindzu ocupa metade do livro.

Um elemento importante levantado a partir do ato de contar a história nesse livro é o fato de ser o jovem Muidinga que conta a história e não o idoso Tuahir, como sempre imaginamos ao pensar na figura do griô. Isso acontece porque a contação da história de Kindzu ocorre através do domínio da leitura, que é um conhecimento das gerações mais novas. Quando, no quarto capítulo Siqueleto solta ambos e morre depois do menino escrever seu nome numa árvore também nota-se o domínio desse signo pelas novas gerações. O fato não exclui, porém, o respeito que o menino tem pelo mais velho, expresso, por exemplo, na confiança que o miúdo deposita em Tuahir quanto ao conhecimento do caminho de volta para o ônibus, quando parecem perdidos.

Um último elemento da contação de histórias é percebido quando, no início do quinto capítulo, o narrador chama o machimbombo de moradia e ao fim Tuahir revela a importância que as histórias de Kindzu têm para eles. Isso nos permite pensar que a contação de histórias inclusive estabelece um laço de moradia com o lugar onde ela é contada, estabelecendo uma ligação entre o Machimbombo queimado e os dois personagens.

Enfim, o que prende Muidinga e Tuahir no machimbombo? Na primeira vez que Tuahir sai do machimbombo, Muidinga diz que são os Cadernos de Kindzu que despertam a vontade de voltar ao abrigo. Já quando Muidinga quis sair dali, Tuahir usa a desculpa de que ali ninguém apareceria e ali estariam protegidos, pois o país estando em guerra era melhor que ninguém os encontrasse. A partir do quarto capítulo (o da morte de siqueleto), quando os personagens parecem estar estabelecidos no machimbombo, eles começam andar em círculos ao redor de onde ele se encontrava. Nesse momento é que Tuahir e Muidinga começam a conhecer o entorno e passam a acontecer coisas ao seu redor. No quinto capítulo o ônibus já é designado como moradia pelo narrador. Com efeito, ao longo de todo livro eles saem do machimbombo apenas para andar em círculos, somente no final da história eles se despedem de vez do lugar, para encontrar o mar.

Outro ponto interessante para refletirmos é a constante mudança de paisagem. Ao longo da obra a paisagem vai mudando. O que significa a mudança constante da paisagem da estrada? Não seria a leitura que os faz ver as coisas de forma diferente?

Por outro prisma, a relação fraternal entre os dois personagens também é uma constante no livro, sobretudo porque ambos acolhem-se como pai e filho – ou tio e sobrinho. Em meio a essa relação Muidinga busca sempre por suas raízes, descobre que o velho o tirou de uma vala de um campo de desabrigados onde jogavam crianças mortas. Ao ver que o menino estava vivo, Tuahir o salva. Todavia, ele não se lembra de nada disso, pois o velho o levou em um feiticeiro para que ele esquecesse o seu passado, o que acaba por não funcionar no momento em que o pequeno termina de ler os cadernos de Kindzu e descobre a sua origem.

No que se refere aos cadernos lidos por Tuahir e Muidinga em seu cotidiano solitário e faminto, Kindzu é escritor e protagonistas dessa história, narrada em forma de diário. Dentre os principais temas tratados, destacaria, em primeiro lugar, o desenraizamento do lugar de origem. Kindzu, ao ver o seu mundo tradicional se desestruturar com a guerra civil, sente-se perdido e quer procurar novos lugares. A conseqüência disso é um desprendimento de sua terra natal.

Esse desprendimento não vai ser bem compreendido pelo seu pai, mesmo esse estando morto. Aí partimos para um segundo tema recorrente no romance: relação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Uma ideia que pode parecer estranha à ocidentais cristãos, mas demonstra o modo de pensar a vida e a morte na tradição moçambicana, visto que o contato entre os dois mundos ocorre sem estranheza. Os exemplos disso são muitos ao longo do livro. Entre eles há um no Segundo Caderno de Kindzu, quando Kindzu conversa com seu pai falecido através de um sonho. Nesse exemplo também se percebe um terceiro tema recorrente na obra: a importância dos sonhos na tradição moçambicana. Nos Cadernos de Kindzu nota-se a importância dos sonhos constantemente para a organização dos caminhos a serem seguidos. Kindzu afirma que “O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos” (2007: 17);

Um quarto aspecto, a partir da leitura de “Terra Sonâmbula”, está associado à podermos visualizar a importância da relação entre pai e filho, porquanto nos cadernos de Kindzu o pai aparece como uma figura importante e presente. Tanto assim, que Kindzu apenas começa a se sentir perdido em sua terra natal após a morte de seu pai, já que Kindzu considerava sobre si mesmo que: “Minha alma era um rio parado, nenhum vento me enluava a vela dos meus sonhos. Desde a morte de meu pai me derivo sozinho, órfão como uma onda, irmão das coisas sem nome” (COUTO, 2007: 22).

Outro importante tema tratado nos cadernos de Kindzu é o da sociedade racializada. Várias vezes é possível perceber as diferenciações raciais existentes na sociedade moçambicana. Um excerto que ilustra isso bem é quando Kindzu faz referência “aos perigos” dele se relacionar com um indiano. O narrador explica:

Surendra sabia que minha gente não perdoava aquela convivência. Mas ele não podia compreender a razão. Problema não era ele nem a raça dele. Problema era eu. Minha família receava que eu me afastasse de meu mundo original. Tinham seus motivos. Primeiro, era a escola. Ou antes: minha amizade com meu mestre o professor. [...] Pior, pior era Surendra Valá. Com o indiano minha alma arriscava se mulatar, em mestiçagem de baixa qualidade (COUTO, 2007: 24-25).

A partir dessa relação de Kindzu com o indiano Surendra Valá também percebemos a influência da cultura muçulmana e indiana na região, resultando nas tradições suailis.

Um sexto tema importante dos cadernos é a presença das mulheres e as possibilidades de atuação feminina em um contexto machista. Essa atuação pode ser percebida, por exemplo, quando Carolinda faz uso de sua posição para tentar matar sua irmã, Farinda.

Por fim, quanto aos Cadernos de Kindzu, é extremamente importante fazer referência ao contexto histórico ao qual a história se desenvolve. Esse contexto também pode ser percebido nos capítulos, mas fica muito mais explícito na história de Kindzu. A rigor, os temas históricos que aparecem no romance seriam: a independência (expresso na figura de Junhito); a guerra civil; os campos de refugiados; os bandos armados; a corrupção (exemplificada na cidade de Matimati e na personagem Assane); o contexto ideológico influenciado pelo marxismo (administrador); e a figura do colonizador (Romão Pinto).

Ao fazer referência a corrupção que ocorria em seu país durante o contexto de guerra, Kindzu escreve em seu sexto caderno que Farida queria conhecer mais, saber o motivo da guerra, a razão daquele desfile de infinitos lutos. Relata que lembrou as palavras de Surendra, que diziam que tinha que haver guerra, tinha que haver morte.

E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre outros.

Com esse excerto fica compreensível o modo como a guerra facilita a ação de um governo desorganizado e corrupto em um país. Nesse sentido, outro personagem que ilustra a ação corrupta em um país em estado de guerra é Assane, já que exemplifica as possibilidades de corrupção que isso permite aos funcionários. O próprio machimbombo onde Kindzu estava se deslocando quando morre queimado era fruto de uma empresa de Assene que prosperou com esse contexto. Sabemos do advento desse tipo de negócio através das seguintes palavras do último caderno de Kindzu: “Fingi nem reparar. Nossa empresa? Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode prosperar mais rápido que em normais tempos de paz” (COUTO, 2007: 199). No que concerne à figura do colonizador, há a personificação do mesmo na personagem de Romão Pinto, o qual mesmo morto quer influenciar e ter parte nos negócios da nação.

O livro demonstra a desorganização e miséria pelo qual passava Moçambique após a descolonização. Para ilustrar isso o autor utiliza uma metáfora através do pensamento de Kindzu, quando a personagem afirma que “Agora, eu via o meu país como uma dessas baleias que vêm agonizar na praia. A morte nem sucedera e já as facas lhe roubavam pedaços, cada um tentando o mais para si. Como se aquele fosse o último animal, a derradeira oportunidade de ganhar uma porção” (2007:23).

A obra retrata a impressão de um contexto histórico em que chega ao fim um mundo, uma sociedade e suas tradições específicas, sem dar grandes projeções de um novo mundo próspero. Apenas o que se tem são esperanças de alguns dos viventes desses tempos de guerra. Farida e Kindzu podem ser pensados como analogias de uma geração perdida entre a tradição moçambicana e a cultura imposta pela dominação colonial (Farida) ou entre a tradição moçambicana e o novo país que se estrutura com a independência (Kindzu). Ambos estariam perdidos entre esses mundos e tentando se encontrar após a dominação colonial. No seu Quinto caderno, Kindzu escreve:

Entendia o que me unia àquela mulher: Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do Pastor Afonso, de Vírginia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, ela queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair da África, eu queria encontrar um outro continente dentro da África. Mas uma diferenças nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doenças da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar. (COUTO, 2007: 92).

Quanto às características que perpassam toda a obra (tanto os Capítulos, quanto os Cadernos de Kindzu), destacaríamos duas. A primeira delas seria a interligação e, por vezes, indissociação entre o ser humano e os elementos da natureza. Vemos isso quando Junhito vira galinha, quando Kindzu fica com escamas entre as mãos para poder remar, ele “se peixava”, ou ainda quando o homem que captura Tuahir e Muidinga vira semente. E nada disso que, para nós pode parecer estranho, ganha conotação de algo irreal ou impossível no livro. Exemplos como esses se repetem muitas vezes durante a obra, tanto nos capítulos sobre a “estrada morta” quando nos Cadernos de Kindzu.

A segunda característica que perpassa toda a obra e que é uma característica do autor é o uso de neologismo. Mia Couto escreve muitos neologismos em seu texto. Ao longo de todo o livro lemos novas palavras que se encaixam perfeitamente para explicar o relato de Mia Couto. Por exemplo, na página 59 há duas frases onde aparecem três palavras novas: “A canoa se ondeava, adormentada em águas perdidas. Meu peito bumbumbava, acelerado” (COUTO, 2007: 59). São muitas as palavras que aparecem ao longo da obra para darem sentido ao texto e possibilitar que imaginemos o cenário com maior nitidez. Assim, também são exemplos de neologismos que aparecem ao longo do texto: palavraram, esperantes, troteondeando, peixava, alicatéia, xicalamidades, africandade, pirilampejava, invencionices, vagueandear, aguou, abismalham, pontapina, anichavam, doidoendo, pensageiro, calcorrear, sozinhidão, saltinhadores, convinvência, gesticalada, palmando, anjonautas, desarrascava, cabedaloso, esbarrigados, espalhafarto, boquiaberturas, abismaravilhado, abichado, desandarilho, desenrasca, arreliação, matraquear, Carolinda, inutensílio, nuventa, exactamesmo, calafriorento, choraminguante, cambalinhando, deslocalizara, infanciando, inaposento, desbotura, desencostadas, passarinhando, saltinhador, timiudamente, dormitoso, pernalteava, cantarinhar, lamentochão, desmeiada, escãozelada, nenhures, direitamento, facocherando, miraginações, administraidor, descaminhei, desexistir, descaminhou.

Conclusão

O título do Livro Terra Sonâmbula ganha um sentido importante ao longo da obra. É aquela terra que não está nem dormindo e nem acordada, ela sonha em um ambiente onde o marasmo, a esperança do fim da guerra e a miséria própria da guerra se fazem presentes, assim resta aos habitantes sobreviverem. É nesse cenário de guerra que aparecem pessoas que vagam famintas e onde a leitura de uma história pode ser um alento para sua sobrevivência. A partir da obra também podemos entender um pouco da história do Moçambique após a sua independência e das questões que são colocadas para um novo país e, porque não, para uma nova literatura que também pretende se libertar do julgo do colonizador.

Referências

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: Experiência colonial e territórios literários. São Paulo:Ateliê Editorial, 2005.

COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LARANJEIRA, Pires. De letra em riste: Identidade e outras questões nas literaturas de Angola, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe. Porto: Edições Afrontamento, 1992.

LEITE, Ana Mafalda. Oralidades & Escritas nas literaturas africanas. Lisboa: Edições Colibri, 1998.

* Raquel Braun Figueiró é Professora de História no Colégio Estadual Inácio Montanha; Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Especialista em História da África pela Faculdade Porto-Alegrense (FAPA); Licenciada e Bacharela em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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