ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 13

América do Sul, Brasil,

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Gira, tempo!

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O tempo é um troço muito louco. Há poucos meses as árvores do quintal estavam secas, sequinhas. Com as novas condições, as flores foram surgindo. Agora, elas são pura exuberância, mesmo quando as flores caem já sem vida.

O Brasil vem secando o que tem de mais exuberante há um bom tempo. Os donos do poder e suas linhagens de agrofamilies, farialimers e bajuladores não se contentam em fazer desabar as florestas e a economia. Desejam sugar o nosso futuro.

Em parte, os bichos humanos somos como as árvores. Precisamos de condições adequadas para florescer ou dar frutos. Pode ser que, mesmo com boas condições, as gentes padeçam, briguem e sofram. E é verdade que temos as ferramentas para reduzir nossos desencantos coletivos. Tudo junto e misturado.

Calhou que os fanáticos por armas, morte e destruição assumissem o governo em tempos de peste. Não foram os 30 mil anunciados há décadas; se foram mais de 600 mil brasileiros. Honrar os nossos mortos e quem batalha no perrengue diário é também correr e responsabilizar os genocidas e suas milícias fascistas.

O ano que se avizinha deve ser de muita treta. Nas frestas e fendas do poder, uma jogada é encantar a vida. Vibrar com a conquista das pequenas alegrias possíveis, enquanto uma política de existir. Isso não vai zerar o nosso passado e nem remediar todos os males. Pode, isso sim, fazer girar o presente sem que o futuro siga raptado.



quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Florescer e não recuar

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há 19 anos eu era um guri de dreads no cabelo e com um sorriso de piá. Neste final de 2021, tenho recordado o dia em que terminava o Ensino Médio e eu deixava a escola em que fiz todos os meus estudos básicos.

Ontem pela manhã eu tive o prazer de me encantar com o sorriso da "mocinha" de cabelos alaranjados e com os afagos da Kambili. A existência vale mesmo é pelas miudezas do cotidiano.

Entre o tempo que se foi e o tempo que está sendo (um presente, ainda que em meio ao caos), revejo o guri da cabeleira emaranhada como se um filme girasse minha cabeça. Nele, a educação é um tema sempre presente.

Um dos primeiros praticantes experientes da educação formal que me guiaram a aprender que conhecimento não deve ser mercadoria merece ser citado - um salve ao querido professor Caju e às suas aulas de Geografia.

Quando cheguei ao Campus do Vale pela primeira vez, uma verdadeira encantaria tomou conta de mim. Vivi cada momento dos mais de dez anos por lá com muita intensidade e envolvimento, seguindo os passos de diversas pessoas. Tantas histórias. 

Feito de erros e acertos, perrengues e alegrias, vejo agora o dia passar e percebo que o tempo é um troço muito louco. As flores que caem das árvores no quintal me lembram as pessoas que me constituem: a gente vai seguir lutando para que seja possível florescer nas fendas do desencanto dos canhões e dos genocidas. E não recuar.