ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

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sexta-feira, 14 de abril de 2023

Educação e uma sociologia viva

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na quarta passada terminaram as aulas da disciplina de teoria sociológica que eu lecionei nesse semestre, na universidade em que trabalho. Eu queria ter escrito ontem sobre o quão incrível foi aprender e ensinar com essa turma fora de série, mas a vida me atropelou e eu fui tomado por mais uma das tretas do cotidiano docente.

Ao conseguir respirar fundo, voltei a lembrar das noites de encontros agitados que começaram na véspera da morte da minha mãe. Têm coisas na vida que não se explicam, apenas são como são. Acabei revivendo meus quase 14 anos de docência. Durante esse período, tive muitas turmas nas quais se formou uma comunidade de aprendizagem engajada em praticar com atenção as diversas atividades propostas por mim, o praticante mais experiente. Considero isso uma baita alegria, porque nem sempre rola.

Com essa galera, agora, nesse 2022/2, a gente experimentou a sensação de que a educação é, sim, uma possibilidade real - mesmo nestes tristes trópicos. Finalizamos nossa jornada coletiva buscando entender a nossa própria história e a realidade social em que estamos inseridos, a partir dos conceitos e teorias que estudamos. Só que isso foi apenas uma parte do que aconteceu conosco. Sinto que construímos, texto após texto, aula após aula, troca após troca, saberes e conhecimentos que podem servir como energia para ajudar a encantar e dar sentido às nossas vidas.

Em tempos de tentativas de sequestro do futuro por parte do extremismo de direita, com suas armas e políticas de morte, a gente propôs vida, alegria, envolvimento e sabedoria. Contra a precariedade da existência e também o elitismo, rejeitamos a máquina de moer gentes e seus fanáticos e capangas. Oferecemos acolhimento e sensibilidade a quem se fez presente na experiência pedagógica. Juntos, misturados, coloridos, diversos, dispostos a somar, compreender e dialogar. Fizemos uma sociologia viva.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Max Weber e a objetividade do conhecimento das Ciências Sociais


Bernardo Caprara

Sociólogo e Professor
 
O vídeo tem como objetivo apresentar a obra de Max Weber, enfatizando seus aspectos epistemológicos, em relação com o "fio condutor" do seu pensamento (o processo de racionalização da vida).




O vídeo se divide em cinco partes, sendo que os detalhes dos conteúdos de cada parte estão descritos abaixo:

(1) Revisão dos conteúdos dos vídeos 01, 02 e 03: ciência moderna, empirismo, positivismo e materialismo dialético;

(2) Weber e Marx: crítica weberiana ao determinismo econômico marxista e afinidade eletiva entre o "ascetismo intramundano" do empresário protestante e o "espírito" do capitalismo na sua origem;

(3) Weber, aspectos gerais: múltiplos temas de pesquisa, racionalização como fio condutor do pensamento weberiano e a relação entre a ciência e o "desencantamento" do mundo;

(4) Weber, epistemologia: antinaturalismo e crítica ao positivismo, limites da quantificação nas ciências humanas, causalidade, valores e interpretação, tipos ideais e neutralidade axiológica;

(5) Conclusão: diagnóstico weberiano da modernidade, diálogo com diagnóstico marxiano (reificação/racionalização), dilemas da "gaiola de ferro/carapaça dura" (voluntarismo da ação na proposta metodológica x determinismo da ação nas pesquisas realizadas?).

Acesse também:

As referências que fundamentam o vídeo são: FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1975; OLIVA, Alberto. Ciência e ideologia: Florestan Fernandes e a formação das Ciências Sociais no Brasil. Porto Alegre: EdiPUCRS, 1997; PIERUCCI, Antônio Flávio. O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: Editora 34, 2013; SELL, Carlos Eduardo. Max Weber e a racionalização da vida. São Paulo: Vozes, 2013; VANDENBERGHE, Frédéric. Uma história filosófica da sociologia alemã: alienação e reificação. Volume 1: Marx, Simmel, Weber e Lukács. São Paulo: Annablume, 2012; WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais. 5a edição. São Paulo: Cortez / Unicamp, 2016; WEBER, Max. A ética protestante e o "espírito do capitalismo". São Paulo: Companhia das Letras, 2004.WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2011.

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quinta-feira, 2 de julho de 2020

O materialismo histórico e dialético


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O vídeo tem como objetivo apresentar as características do materialismo histórico e dialético, elaborado por Karl Marx, em parceria com Friedrich Engels, destacando suas fontes principais (dialética idealista, materialismo mecanicista, economia política empirista e filosofia política socialista).
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Além disso, o vídeo discute as diferenças do método marxiano de análise da realidade social na relação com o empirismo e o indutivismo. A aula contou com uma edição pormenorizada, que contém trechos do filme "O jovem Karl Marx" (Diaphana Films, 2017) e uma fala do Prof. Dr. José Paulo Netto (UFRJ), especialista em marxismo.


As referências que fundamentam o vídeo são: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998; MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2011; MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2011; OLIVA, Alberto. Ciência e ideologia: Florestan Fernandes e a formação das Ciências Sociais no Brasil. Porto Alegre: EdiPUCRS, 1997; VANDENBERGHE, Frédéric. Uma história filosófica da sociologia alemã: alienação e reificação. Volume 1: Marx, Simmel, Weber e Lukács. São Paulo: Annablume, 2012.

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segunda-feira, 17 de junho de 2019

O método sociológico em Weber


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Contrariando qualquer forma de determinismo, o alemão Max Weber é considerado um dos clássicos da Sociologia e fundador de uma tradição bastante fecunda nas Ciências Sociais. Weber destoa dos autores que propunham abordagens metodológicas para as ciências da sociedade a partir de laços estreitos com as ciências da natureza. Segundo o autor, não é possível tratar as relações entre seres humanos como “coisas”, ou encontrar uma “linha mestra” (teleológica) da História humana.

Para produzir uma ciência da vida social, é fundamental compreender a ação das pessoas desde o ponto de vista do sentido e dos valores que elas atribuem às suas ações, e não simplesmente desde pretensas causas e condicionamento externos. A trajetória de Weber abrange a proposição de construir um quadro conceitual para dar conta do conjunto das atividades humanas, situando-as nos seus períodos históricos específicos. Às ciências do comportamento humano cabe resgatar e compreender a marca característica de cada época e de cada cultura, demarcando-as na dimensão dos fatos, e não das abstrações por si só.

Weber deixa claro que é preciso separar a Sociologia da opinião. A Sociologia não teria como objetivo amparar reformas ou revoluções sociais, na medida em que demanda uma “neutralidade axiológica”, um guia para o cientista social capaz de mantê-lo sempre atento às diferenças entre o que é “normativo” e o que é “real”, ou entre o que é “juízo de valor” e o que é “juízo de fato”. Nada disso significa que o sociólogo não possua valores pessoais ou opiniões sobre quaisquer fenômenos da vida coletiva, mas, sim, que esses juízos de valor não podem macular o trabalho científico, ligado aos juízos de fato. A Sociologia não é uma atividade especulativa ou uma analítica conectada ao exercício da política.

Não obstante, como se pode definir o método sociológico, na visão weberiana? Na perspectiva de Max Weber, a Sociologia deve ser definida como uma ciência que pretende compreender e interpretar as atividades sociais e, assim, capacita-se a explicar as causas, os processos e os efeitos das ações humanas em sociedade. Tais atividades sociais são definidas pelo autor como “ação social”, caracterizando o comportamento humano que produz sentidos subjetivos e se orienta e se relaciona com o comportamento de outras pessoas. Dessa forma, nem toda atividade ou ação humana é uma “ação social”, pois ela demanda uma relação ou orientação para com outras pessoas ou grupos de pessoas. A compreensão e a interpretação das causas e efeitos das ações sociais constituem o objeto próprio da análise sociológica.

A Sociologia weberiana é uma ciência compreensiva e explicativa, cujo centro analítico reside em compreender e explicar os valores e sentidos pelos quais se pautam as ações sociais. Contudo, essa dimensão compreensiva em termos metodológicos não é uma criação de Weber, mas remete ao filósofo alemão Wilhelm Dilthey e a toda uma posterior corrente de pensadores “neokantianos”. Com a obra “Introdução às ciências do homem” (1883), Dilthey promove uma separação relevante entre os métodos das ciências da natureza e os métodos das “ciências do espírito”. A distinção principal entre os métodos se deve ao fato de que as ciências humanas lidam com seres dotados de consciência e que agem motivados por valores, crenças, representações e racionalidade, não se limitando a reagir aos estímulos dos ambientes que frequentam.

Em virtude disso, as ciências humanas não podem se vincular ao positivismo, e precisam adotar o método compreensivo, reconstituindo o sentido que os indivíduos atribuem às suas ações. Os fenômenos sociais não são simples consequências de pressões externas ou causas que se impõem às pessoas. A vida em sociedade é o resultado das decisões levadas a cabo pelos próprios indivíduos, que agem produzindo sentido às suas ações. Em Weber, a procura por evidenciar as causas dos fenômenos sociais é o complemento lógico da Sociologia compreensiva. Explicar é perceber a analisar o efeito de uma ação X sobre uma ação Y, buscando as conexões entre as ações sociais através de cadeias causais. Quando se dá forma a esse encadeamento causal, faz-se perceptível as possíveis contradições e os possíveis conflitos oriundos dos sentidos dados pelos indivíduos no decurso das suas ações.

Conforme o sociólogo alemão, a vida em sociedade possui uma pluralidade de causas, sendo cada sociedade singular e passível de ser explicada por meio de uma combinação de múltiplos fatores: econômicos, políticos, culturais, morais e etc. A ciência da sociedade pode apontar tendências e probabilidades. A Sociologia não tem condições de dizer o que os indivíduos devem fazer, pois ela é uma ciência empírica, devendo analisar aquilo que os sujeitos podem ou querem fazer. Weber se utiliza das comparações em diversos momentos da sua obra, o que fornece a possibilidade de destacar as singularidades das configurações históricas, sociais, religiosas e etc. – tudo aquilo que o cientista social pode estudar.

Weber sugere, ainda, o uso de um instrumento conceitual definido como “tipo ideal”. Na tarefa de analisar as ações sociais, o cientista pode criar categorias que não consistem em representações exatas dos fenômenos estudados, mas acentuam deliberadamente determinados trações desses fenômenos. O tipo ideal não é um espelho da realidade, mas auxilia na análise dos componentes da realidade a ser pesquisada. Trata-se de uma ferramenta de investigação com fundamentos totalmente lógicos, e não um fim em si mesmo. O tipo ideal é útil, também, para a busca de causalidades, pois comparando a realidade de um fenômeno e a lógica do seu tipo ideal, o sociólogo pode captar e confirmar a coerência do fenômeno e distinguir as causas exteriores que recaem sobre ele.

Referências

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais. São Paulo: Editora Cortez, 2016.

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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O método sociológico em Marx


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O materialismo histórico e dialético proposto por Karl Marx está associado a uma concepção de realidade, de mundo e da vida em sociedade. Ao entrar em contato com os problemas sociais da Alemanha, Marx começa a desenvolver uma concepção materialista, procurando entender os problemas concretos das vidas das pessoas.

Os estudos de Marx provinham do método de pesquisa e pensamento de Friedrich Hegel, com o seu modelo idealista orientado pela lógica dialética. Para Hegel, o pensamento metafísico se pautava pela tendência a perceber os conceitos de modo estático, separados uns dos outros, com a definição isolada do sujeito e do objeto. Contrapondo a metafísica, Hegel define o desenrolar da história humana não como um fio dotado de continuidade e linearidade, mas como um devir formado por uma tríade localizada no mundo das ideias: uma afirmação (tese), uma negação (contradição, antítese) e a negação da negação (síntese).

Essa perspectiva se associa ao conceito de “dialética”, retirado da filosofia pré-socrática, sobretudo no “embate” entre Heráclito e Parmênides. Enquanto o primeiro sustentava que tudo está em constate movimento e transformação (“o rio que nos banhamos nunca é o mesmo, nem mesmo nós somos”), o segundo defendia a tese de que o movimento e a transformação constituem apenas um mundo de aparências, sendo a “essência” algo imutável.

Marx adere à leitura dialética da história, seguindo sua leitura de Hegel. Contudo, em contato com as teorias materialistas, sobretudo de Ludwig Feuerbach, passa a ser influenciado pela abordagem que não vê nas ideias (idealismo, como em Hegel) o eixo articulador das atividades humanas, mas no mundo material o seu foco principal. Trata-se de uma inversão da dialética hegeliana, priorizando a matéria antes das ideias, o que acaba definindo o “materialismo histórico e dialético” como o método analítico marxiano.

O materialismo histórico e dialético fundamenta-se no método dialético de Hegel, salientando não o mundo das ideias, mas o mundo material. Marx entende que, na produção social da sua existência, os seres humanos tecem relações específicas que são independentes das suas vontades particulares, mas dizem respeito a relações de produção material. Essas relações de produção, em conjunto, conformam a estrutura econômica das sociedades, a base sob a qual se ergue a superestrutura jurídica, política, religiosa e etc, que correspondem a determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida concreta, material, condiciona o desenvolvimento da vida em sociedade, da vida política e intelectual como um todo. Marx deixa claro que, no se esquema analítico, não é a consciência dos homens que define a sua vida social, mas a sua vida social que define a sua consciência.

É preciso, também, fazer uma distinção entre o método de exposição formal e o método de pesquisa, em Marx. A pesquisa necessita captar detalhadamente a matéria, analisar suas diferentes formas de evolução e investigar as suas íntimas relações. Terminado esse trabalho minucioso de pesquisa, torna-se possível expor adequadamente o movimento do real. A exposição deve espelhar em forma de ideias o que acontece na vida material, na vida concreta dos seres humanos em sociedade, num determinado momento histórico e nas suas relações com o passado.

Dessa forma, o percurso do método de pesquisa é mais amplo, mais detalhado, sendo que o método de exposição expressa uma síntese da análise concreta, que pode ser apresentada, inclusive, em sequência diferente de como foi aplicado o método de pesquisa. Isso porque o método de exposição das conclusões de qualquer estudo deve primar por apresentar os resultados de maneira pormenorizada, fazendo com que estes resultados sejam claramente compreendidos por outras pessoas.

No materialismo histórico e dialético, entender a realidade social demanda analisar, pelo pensamento, um conjunto amplo de relações, particularidades, detalhes que compõem uma totalidade. Se o objeto de análise do pensamento é mantido isolado, ele se torna imobilizado no próprio pensamento, convertendo-se numa mera abstração metafísica. Contudo, a abstração é uma fase intermediária, pois, partindo de um mundo concreto e o levando até o nível da abstração, fica possível chegar a um concreto mais complexo, capaz de captar o que é verdadeiramente importante. Sem passar pela abstração, o concreto é apenas superficial, vinculado apenas às aparências.

O principal trabalho de pesquisa de Marx, a crítica rigorosa do capital, mostra-se como um exemplo evidente do uso do materialismo histórico e dialético, na busca por revelar a dinâmica da produção e da transformação do ser social produzido pelas relações de produção capitalistas. O método marxiano procura partir do real, do concreto, do olhar caótico sobre um todo desorganizado; depois, analisando com maior precisão, utilizando dos recursos da abstração, procura delimitar conceitos cada vez mais simples; por fim, do concreto permeado por abstrações, bastante detalhado, procura iluminar as determinações do fenômeno em estudo de maneira simples e objetiva. 

Referências

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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quinta-feira, 23 de maio de 2019

O método sociológico em Durkheim


 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A obra de Émile Durkheim deve ser pensada em contato com o período histórico em que estava inserida: a III República Francesa, cuja principal “obsessão” era unir a nação, superar incertezas políticas e resolver a “questão social” por meios pacíficos e através do direito. Diante disso, Durkheim ficou conhecido como um dos fundadores da Sociologia, pois participou da sua institucionalização enquanto disciplina acadêmica É nesse contexto que Durkheim elabora o que ele chama de “regras do método sociológico”.

A Sociologia durkheimiana é a ciência dos fatos sociais. Os fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir, fixas ou não, que exercem coerções exteriores sobre os indivíduos. Podemos pensar no direito, de imediato, como um fato social por excelência, tendo em vista que as leis constrangem as pessoas a segui-las, agindo de maneira coercitiva sobre os indivíduos. Porém, Durkheim ressalta que não apenas o direito, mas outros diversos fenômenos sociais guiam nossas práticas, quase como sistemas de regras invisíveis, como o modo de se vestir, de consumir, de pensar e etc.

A tarefa principal do sociólogo é destacar e analisar esses comportamentos que se traduzem em regularidades determinadas socialmente. Em outras palavras, cabe ao sociólogo observar e explicar os fatos sociais (e sua causalidade) com o apoio de categorias e instrumentos científicos. Os fatos sociais são, portanto, o objeto próprio e específico da Sociologia.

Na esteira da lógica científica, a primeira consideração a ser feita no trabalho sociológico é a necessidade de tratar os fatos sociais como “coisas”. No entanto, é preciso atenção nesse ponto. Isso não significa que os fatos sociais devam ser reduzidos a fatos naturais. Para Durkheim, tratar os fatos sociais como “coisas” equivale ao tratamento dado pelos cientistas naturais sobre seus objetos de estudo, isto é, observar “de fora” o seu objeto de investigação científica. O sociólogo deve saber se colocar à distância dos fatos sociais que pretende analisar, e manter sempre a busca pela maior objetividade possível nas suas análises.

Ocorre que temos aí uma complicação para uma ciência que trata de fenômenos nos quais os próprios cientistas estão mergulhados – os sociólogos habitam o mundo social. Por isso, Durkheim defende que é imperativo “afastar sistematicamente as prenoções” que possuímos da vida em sociedade, no decurso do trabalho sociológico. É fundamental rejeitar as chamadas “falsas evidências” que a nossa experiência sensível com o mundo social nos lega cotidianamente. O social não é e não pode ser visto pelo sociológo como algo transparente e inteligível de imediato. Essa é uma primeira característica essencial do método sociológico durkheimiano.

Um segundo ponto relevante diz respeito ao desiderato que compete ao sociólogo no percurso de construção dos seus objetos de estudo, a regra de isolar e definir com precisão aguçada a categoria de fatos que se propõe a pesquisar. Numa analogia com a biologia médica, o autor separa o que se considera “normal” do que se considera “patológico”. O fato social “normal” tem relação com um tipo social determinado, numa fase determinada de seu desenvolvimento e que se produz na média das sociedades do mesmo tipo, numa fase específica da sua evolução. O crime, por exemplo, é um fato social normal, pois não se conhece sociedades sem a existência de crimes.

É primordial, ainda, um terceiro ponto metodológico em Durkheim. Fugindo de especulações que, para o autor, não mereceriam sequer uma hora de seus esforços de pesquisa, é preciso explicar os fatos sociais por fatos sociais anteriores, e não por elementos biológicos, psicológicos e etc. O sociólogo tem de priorizar o “método das variações concomitantes”, que consiste na comparação das variações respectivas das variáveis estudadas. O conjunto de regras metodológicas pensado por Durkheim fornecem as bases do que poderíamos chamar de racionalismo positivista.

Referências

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Weber e os tipos de dominação


Weber chamou a probabilidade de encontrar obediência em um grupo de pessoas de dominação. A dominação, para durar, precisa ser legítima: isto é, precisa, de alguma forma, convencer as pessoas de que é certo obedecer. Elas podem se convencer por motivos diferentes. Weber identificou três principais tipos de dominação legítima. Eles não são os únicos possíveis e, na prática, quase sempre se misturam em um processo de dominação. Os três tipos de dominação legítima, segundo Weber, são os seguintes:

  • Dominação tradicional: é a dominação que se baseia no costume - quando se obedece porque "sempre foi assim" - ou em um hábito tão forte que nos pareceria estranhos nos desviarmos dele. Muitas monarquias, por exemplo, foram e são legitimadas pela tradição: obedecer ao rei e à sua família já se tornou parte da maneira de viver de determinada sociedade, e os súditos achariam estranho viver de outro jeito. Em algumas religiões, é comum que os fiéis obedeçam ao líder espiritual porque esse comportamento já se tornou parte importante das crenças daquela religião.
  • Dominação legal-racional: é a dominação que se baseia na crença de que é correto obedecer à lei. Não porque a lei seja inspirada por ordem ou crença divina, ou porque se concorde com todos detalhes de todas as leis, ou porque obedecer seja sempre do seu interesse, mas porque a lei deve ser cumprida.
  • Dominação carismática: é a dominação que se baseia na crença de que o líder político possui qualidades excepcionais, dons extraordinários. Os liderados podem acreditar que o líder é inspirado por Deus, ou que é excepcionalmente capaz de compreender o verdadeiro destino da nação.

Referência

MACHADO; AMORIM; BARROS. Sociologia Hoje. São Paulo: Ática, 2014. Páginas 211-212.

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quinta-feira, 21 de maio de 2015

O que é comunismo?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No Brasil atual, alguns grupos de pessoas têm defendido a tese de que estamos vivendo no comunismo ou, pelo menos, caminhando para um regime comunista. A tese é bastante absurda, mas tem se espalhado por aí. Vejamos o que diz o sociólogo e professor Allan Johnson (1997, p. 46), da Universidade de Wesleyan, em Middletown, Connecticut, Estados Unidos.

(…) Da forma descrita por Karl Marx, comunismo é um modo de produção no qual os meios de produção e virtualmente todos os demais aspectos da vida social são controlados pelos que deles participam mais diretamente, isto é, pelos trabalhadores, membros da comunidade, e assim por diante. A vida das pessoas é organizada menos em torno da cobiça, competição e medo do que da satisfação de necessidades humanas autênticas, cooperação e compartilhamento. A base material da comunidade é a capacidade de produzir abundância de bens. A base social inclui ausência geral de propriedade econômica privada, divisões de classe social, desigualdades em riqueza e poder e instituições opressivas, como o Estado.

Marx imaginava o comunismo como o resultado inevitável do socialismo, o qual acreditava que seria consequência de transformações revolucionárias das sociedades capitalistas industriais. Após a derrubada do capitalismo, o Estado governaria em benefício dos trabalhadores e asseguraria que não haveria contra-revolução capitalista. Com a passagem do tempo, contudo, o Estado perderia sua razão de ser, uma vez que o controle dos ritmos da vida social seria cada vez mais concentrado no nível local, entre os mais diretamente envolvidos. O Estado, acreditava Marx, simplesmente murcharia.

Uma vez que não houve revoluções socialistas em sociedades industriais avançadas, tampouco houve sociedades comunistas segundo o modelo marxista, embora muitas sociedades socialistas tenham sido erroneamente rotuladas como tal (sobretudo porque, embora na prática fossem socialistas, sua ideologia era comunista). O mais perto que a experiência humana chegou do comunismo foi entre as sociedades tribais, em especial entre as que se entregavam principalmente à coleta de alimentos como meio de subsistência. Resta a ser visto se o comunismo pode ser implantado em sociedades industriais avançadas.

Referência

JOHNSON, Allan. Dicionário de Sociologia: Guia Prático da Linguagem Sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Um pouco de Max Weber


O sociólogo alemão Max Weber (saiba mais) é, sem dúvidas, um dos maiores pensadores do século XX. Na série de estudos sobre os clássicos da sociologia, que apresentamos em 2010, esboçamos um pouco das ideias de WeberImagem reproduzida do sítio https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjq8kUR1VXuY-USUO9WpyCsYcbi1mFOhZuJWwwPQ79q1Fj6H1kIGQ4rZtMDKh0SaYBIKFBJAM84xtkdBgY_TLNvfqO6JIF2g8TBGmFNKriWw5ZYPOVnrRqke2Xm3g0iQON79mEDnBzXMBwF/s400/max+weber2.jpg. Abaixo trazemos novamente o link para as considerações referidas, constituídas a partir da leitura de duas obras fundamentais do autor: “A ética protestante e o espírito do  capitalismo” e “Economia e sociedade”.

O sociólogo alemão Max Weber foi um dos principais responsáveis por defender o rigor científico para as análises das sociedades. Situado num período em que os métodos naturalistas, vinculados às ciências exatas, influenciavam bastante o espaço das ciências sociais, Weber dedicou-se a afastar as noções de que a vida social pode ser avaliada sob o prisma de relações concretas, desprovidas de subjetividade.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

As formas elementares da vida religiosa


Ocorre na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia, o Seminário Internacional As Formas Elementares da Vida Religiosa (importante livro de Émile Durkheim), nas comemorações dos 40 anos do PPG. A coordenação do evento é das professoras Dra. Clarissa Eckert Baeta Neves (saiba mais) e Dra. Raquel Weiss (saiba mais). Fazem-se presentes participantes de vários países que debatem as implicações e as abordagens derivadas da obra cujo nome estampa o título do referido seminário.Imagem reproduzida do sítio http://www.durkheim-br.org/ Abaixo disponibilizamos o link que leva ao site e algumas considerações expostas nele.

O ano de 2012 marca os cem anos do último livro que Émile Durkheim publicou em vida, Les Formes Elementaires de la Vie Réligieuse. Mas, afinal, qual a relevância de um evento que tem um livro como foco? Para se oferecer uma resposta pertinente a essa pergunta é preciso, antes de tudo, levar em consideração o sentido dos assim chamados “clássicos” para a área das ciências sociais em geral, e da sociologia em particular. Talvez poucos autores tenham formulado tão bem quanto Anthony Giddens o que é um clássico e qual o seu estatuto para a sociologia. A construção de seu argumento começa com duas perguntas que são absolutamente centrais. Primeiro, “o que devemos entender por ‘clássicos da sociologia’” e, depois, “a expressão teoria social clássica tem alguma força real ou é apenas um rótulo vago e conveniente?”.

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Karl Marx, 1818/1883

……………………………………………………………………………….Bernardo Caprara
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Karl Marx e Friedrich Engels foram responsáveis por uma extensa obra que se relaciona com os mais diversos campos do saber. Não obstante, foi nas análises sobre o capitalismo que ambos se tornaram reconhecidamente importantes, na medida em que seus nomes persistem até hoje em correntes teóricas vinculadas à classe trabalhadora ao redor do planeta.

A Ideologia Alemã
pode ser considerado um dos principais textos da dupla. Nestes escritos estão contidas críticas aos pensadores alemães vinculados ao chamado hegelianismo de esquerda, ao qual Marx utiliza a obra para romper de uma vez por todas. Ao criticar Bruno Bauer e Max Stirner, ele identifica nas suas teorias a primazia do pensamento sobre a atividade humana, isto é, o idealismo presente nos autores inspirados em Hegel. Através do amadurecimento intelectual, Marx também ataca o materialismo mecânico de Ludwig Feuerbach, que não incorpora a dialética ao seu escopo, mesmo que rejeite o idealismo. No livro estão contidas as Teses sobre Feuerbach, que sintetizam as considerações sobre o autor. Marx esboça, ainda, uma perspectiva da sociedade comunista, na qual o trabalho estaria desprovido do caráter de exploração de classe, e os indivíduos poderiam satisfazer suas necessidades materiais em harmonia.

Retirando de Hegel a dialética – o devir, o vir a ser, a dinâmica de transformação inevitável da vida, o choque permanente entre os opostos, a negação da negação – e associando-a a visão de que é a atividade humana real que precede a sua consciência, Marx fundamentou o materialismo histórico e dialético. Tratava-se de colocar a dialética de Hegel de ponta a cabeça, invertendo a lógica de que o pensamento antecede as ações reais, e para transformar a sociedade seria preciso substituir as ideias predominantes por novas. Desta forma, as ações de homens reais na vida real, sob o ponto de vista material, originam a consciência que eles terão delas e deles mesmos.

Este entendimento está alicerçado numa profunda análise das transformações ocorridas na história, em que Marx observa que as modificações nas estruturas econômicas iam alterando o caminho das ideias. No prefácio de Para a Crítica da Econômica Política, ele declara que sob a estrutura econômica das sociedades se ergueriam grandes superestruturas. Na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem à etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e a qual correspondem formas determinadas de consciência.

O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas o seu ser social que determina sua consciência. Esse argumento é muito criticado por diversos pensadores, visto que para os críticos empreende uma sentença por demais economicista. Na introdução dos mesmos escritos, Marx trabalha a questão do método da economia política. Deve-se pensar o concreto como unidade do diverso, ponto de partida efetivo, mas resultado do processo de síntese, abstraído. A ilusão de Hegel, elevar-se do abstrato ao concreto, significa a maneira do pensamento de se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado.

Marx prossegue seus estudos e lança, em 1848, um documento que mudaria o rumo dos trabalhadores assalariados, classe oriunda das necessidades de produção da indústria capitalista. O Manifesto do Partido Comunista, material de divulgação política, convocava os trabalhadores do mundo a se unir, em busca do fim da exploração do trabalho humano. A obra sugere o trilho para o proletariado retirar o poder político das mãos da burguesia, centralizando nas mãos do Estado controlado pelos trabalhadores, numa ditadura do proletariado, a fim de construir uma sociedade sem classes.

O capitalismo, proveniente da acumulação primitiva de capital, da apropriação (cercamentos) de terras coletivas, se desenvolve consolidando a burguesia enquanto classe social dominante e dissolvendo a ordem feudal para dentro dos livros de história. As transformações das forças produtivas (meios de produção e força de trabalho) vão condicionando a sociedade capitalista, e trazendo a tona uma nova classe social, a antítese da burguesia, que acabara por engendrar seus próprios algozes. Ao proletariado, trabalhadores assalariados que utilizam sua força de trabalho como mercadoria para manter sua sobrevivência, cabe a tarefa de enfrentar a exploração da burguesia e orientar a construção de uma sociedade sem classes. A luta entre classes sociais, nessa concepção, carrega o sentido de motor da história humana. Por intermédio de uma análise histórica organizada, Marx encontra a opressão entre diferentes classes sociais no decorrer do processo histórico. Ainda no Manifesto Comunista, estão contidas críticas as correntes socialistas utópicas, e resumidas algumas concepções do chamado socialismo científico.

A propriedade privada dos meios de produção (instrumentos, terra, fábricas, capital), elemento central da dominação burguesa, caracteriza o modo de produção capitalista. Nessa sociedade, os despossuídos do capital possuem somente sua força de trabalho para vender como mercadoria de sobrevivência, sendo a relação estabelecida entre o capitalista e o operário operando sob a égide do prejuízo, em última instância, aos trabalhadores. O capitalista usa o lucro para reinvestir, como capital, para fazer mais lucro, à custa do trabalho explorado dos operários. Nesse processo, a mais-valia, excedente de trabalho do operário apropriado pelo patrão, representa o caráter da acumulação de lucro da classe dominante. Ela pode ser absoluta, com ampliação da jornada de trabalho mantendo salários, ou relativa, com o enfoque na mecanização, aumentando a produtividade física do trabalho. Marx ressalta, a saber, a distinção entre capital constante e capital variável. O primeiro consiste nos investimentos do capitalista em fábricas, instrumentos de produção; o segundo, na força de trabalho, fonte única de mais-valia.

De fato, as contribuições de Marx e Engels para as ciências humanas ultrapassam os limites de qualquer tentativa de enquadramento nessa ou naquela disciplina. Constituíram, em si e na sua repercussão nos últimos séculos, uma nova fase no pensamento social e na vida de milhões de pessoas.
 
REFERÊNCIAS
 
MARX, Karl. O Manifesto do Partido Comunista. Porto Alegre: L&PM, 2001.
 
___________. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
 
___________. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

 

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