ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma catarse chamada carnaval

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Já passava das quatro horas da manhã do primeiro domingo de março. Os Imperadores do Samba iniciavam o seu desfile no Complexo Cultural do Porto Seco. Das arquibancadas seguia a empolgação. Belo samba, uma apresentação contagiante. A dança e a cantoria dos presentes demonstravam que a escola tinha tudo para sagrar-se campeã. Sagrou-se.

Pensava. Pode-se gostar ou não de samba. Assim como de rock, funk, música clássica, futebol ou cinema. Contudo, há um discurso relativamente difundido que aponta ao carnaval uma característica deficitária do povo brasileiro. Uma espécie de farra contínua. O resumo dos males. Quase como se o carnaval indicasse uma falência de valores, esculpida em imoralidades aviltantes. Rasteiras e preconceituosas falácias.

No carnaval, seja competitivo, seja no estilo dos blocos de rua, há uma catarse que experimenta a inversão aberta das barreiras (essas, sim, mais contínuas) colocadas nos excessos que envolvem o corpo. Subsiste uma busca pela liberdade de fantasiar-se, cantar e dançar. Uma liberação da sexualidade sem muitos rodeios. Uma consagração da alegria, num curto espaço de tempo, em contraposição ao cotidiano de tarefas, razões e controles.

Estou nessa com o Roberto DaMatta, antropólogo carioca: “O carnaval cria uma cidadania especial no caso do Brasil. Cidadania que permite andar pelas ruas do centro comercial de nossas cidades com a roupa que quisermos (ou até mesmo sem roupa) e em pleno dia, sem a menor preocupação de sermos atropelados ou vistos por nossos patrões, pais ou amigos aristocráticos”. Ainda (bem).

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mais uma temporada

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Certa vez, num dia qualquer, pensava na vida. Nas vidas. Próximas ou alheias. Quando me dei conta, tinha que voltar ao trabalho. Hoje, numa segunda-feira, preguiçosa como só as segundas-feiras sabem ser. O começo de mais uma temporada.

O que esperar? Vai saber... Certo da incompletude, das incertezas que estão por vir, lia algumas páginas. Problematizava o planejamento do ano. Muitos temas, objetivos e diálogos. Muitos diálogos. Muitas relações.

Dos estudantes, desejo que venha a disponibilidade para a troca de ideias. Que venham as suas opiniões, os seus saberes e as suas crenças. É a partir do universo do jovem, chacoalhado pelas lentes das Ciências Sociais, que se tornará possível alguma aprendizagem mútua. Sem doutrinação, buscando que as razões e os motivos daquilo que a gurizada pensa ultrapassem a ilusória naturalidade do cotidiano.

Sigamos tentando. Com vontade e alegria.
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Fervem as metrópoles

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

As metrópoles fervem. Enquanto isso, no meio do mato, em frente ao mar e cercadas de rochedos, duas pessoas conversam.

- Na minha cidade, os rodoviários estão em greve. Eu sabia que uma hora o bicho ia pegar. Os caras trabalham em péssimas condições. Mesmo com os problemas do sindicato, uma hora ia estourar.
- Lá onde eu moro, a moda agora é fazer parte de uma espécie de “Liga da Justiça”. Uma pá de maluco sai na rua e começa a querer fazer justiça com as próprias mãos.
- Bah...
- Pois é. E se você diz que não é por aí, o pensamento rasteiro toma conta. Sempre os mesmos falsos argumentos: “Leva pra casa o bandido!”. Não conseguem entender que a vida é feita de relações, oportunidades e circunstâncias. Tratam os outros como essências prontas desde o nascimento. Essências boas ou ruins.
- Complicado. É muito semelhante com o pessoal que tá em greve. Quem tem preguiça de pensar, atitude normal hoje em dia, esperneia com raiva e ódio, como se a vida fosse uma equação simples: “Tá ruim trabalhar lá, troca de emprego!”.
- Porra, eu fico boladão com isso tudo.
- Como não ficar?!

Já no acampamento, na sombra e com uma vista impecável do oceano, dos morros e da praia, juntam-se outros humanos. Fortalecem-se relações. Ali, com poucos recursos, o tempo passa ao sabor dos ventos que espantam o calor. Pelo menos até a hora de voltar para as metrópoles.
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