ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

terça-feira, 28 de abril de 2015

A ideologia que supera a realidade

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Nem oito, nem 80”. Expressão interessante. Busca o caminho, o percurso, não os extremos. Li o texto de um amigo publicado hoje num jornal de grande circulação. O título sentencia: “Nos EUA, a realidade supera a ideologia” [1]. Fiquei curioso. Não entendi o que isso poderia significar. Em suma, o texto defende que a segurança, a educação e o respeito à diversidade sustentam uma realidade indiferente a discussões ideológicas nos Estados Unidos da América.

Diante da fragilidade da argumentação exposta, resolvi confrontá-la minimamente à realidade empírica. Não basta passar um período de tempo em determinado local para atribuir a ele verdades empíricas. É preciso disposição para investigar, compreender o contexto, a história e as relações que se travam na sociedade em questão. As ciências sociais disponibilizam uma boa via de análise, seja pelo viés da economia, da sociologia, da antropologia ou da ciência política. Como não tenho a intenção de produzir uma pesquisa de caráter aprofundado sobre a temática, reflito sobre algumas considerações capazes de complexificar o debate.

A segurança pública nos Estados Unidos, por certo, tem as suas qualidades. Mas a superpotência está longe de ser o reino da paz e da tranquilidade. Uma análise para além do que os olhos podem enxergar em alguns dias demonstra isso. Richard Florida, economista e professor da Universidade de Toronto, indica que muitas cidades estadunidenses ostentam taxas de homicídios comparadas às de países considerados muito violentos. New Orleans compara-se a Honduras; Houston ao Equador; Washington ao Brasil. Desde 1982, ocorreram 61 assassinatos em massa em 30 estados do país [2].

No que tange à eficiência dos serviços públicos, restam controvérsias. A saúde está na mão do setor privado, e o Obama Care é percebido por muitos como um plano comunista. Na educação, também restam controvérsias. O vasto estudo dos professores da Universidade da Califórnia e de Harvard, Greg Duncan e Richard Murnane, evidencia que a desigualdade social nos Estados Unidos interfere na qualidade da educação. Quem tem melhores condições econômicas tende a ter uma escolarização de maior qualidade [3].

O argumento mais falacioso de todos: a lei funciona independente de classe social e o respeito à diferença impera. Ora, qualquer procura rápida aos meios de comunicação desmente essas sentenças. Jovens negros são reincidentemente assassinados pelas polícias, vivem na pobreza ou “apenas” sobrevivem ao racismo. Mães choram pelos seus filhos, cidades são saqueadas e protestos se disseminam [4]. Com efeito, as “ideias toscas” dos republicanos não estão isoladas. Outra vez, o professor Richard Florida demonstra que os conservadores são maioria em diversas regiões estadunidenses [5]. O Tea Party não é um clubinho qualquer.

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De fato, os Estados Unidos têm suas qualidades e elas podem e devem ser valorizadas. Não vejo problema algum nisso. Porém, quando deixamos de lado um confronto sério dos argumentos com a realidade empírica e, ignorando isso, dizemos que a realidade demonstra determinado argumento, acabamos reproduzindo opiniões que se afastam da complexidade do real inerente às sociedades contemporâneas. Seria possível discorrer sobre inúmeros outros tópicos. Há uma vasta estrada entre o oito e o 80.

Referências

[1] http://zh.clicrbs.com.br/…/mauricio-tonetto-nos-eua-a-reali….
[2] (a) http://oglobo.globo.com/…/doze-fatos-sobre-armas-os-estados…;
(b) http://www.citylab.com/…/gun-violence-us-cities-compa…/4412/.
[3] https://www.russellsage.org/publications/whither-opportunity.
[4] (a) http://zh.clicrbs.com.br/…/prefeita-de-baltimore-declara-to…;
(b) http://brasil.elpais.com/…/internaci…/1416878092_531438.html.
[5] http://www.theatlantic.com/politics/archive/2012/02/why-america-keeps-getting-more-conservative/252995/.

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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Na Lagoinha, sem medos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O saudoso Eduardo Galeano dizia que somos feitos de histórias. Gosto de histórias. Também gosto de acampar. Nem sempre foi assim. Afinal, a ordem hegemônica é buscar o conforto com todas as forças. Ora, foi na primeira vez que acampei que vivi uma das histórias que nunca foge da minha memória.

Tinha 17 anos, pouca grana e muita alegria pra viajar cheio de amigos, sobretudo após ter finalizado o colégio. O último paradeiro da viagem era um paraíso. É um paraíso. Depois de atravessar os morros que levam à Lagoinha do Leste, aquela imensidão de beleza cobriu os nossos olhos. Que lugar. A natureza sabe das coisas, escondeu da humanidade uma obra de arte viva e pulsante.

Só que os humanos somos teimosos. Chegando à Lagoinha, caminhamos até a beira, que se confunde com o oceano majestoso. Avistamos um lugar na areia e pensamos em montar o acampamento. Quanto amadorismo. Não sabíamos, mas nossa escolha era um péssimo local. Havia outros muito mais adequados.

Ao agilizarmos as barracas, uma doce jovem se aproximou, tão bela e sensual quanto misteriosa, trazendo seu gato num dos ombros. Espantados, calamos receosos. Ela não.

- Meninos, nossos amigos acabaram de largar. Vocês não querem parar ali do lado da nossa casa? Eu sou a Daniela.

Casa? Não havia casas na Lagoinha, isso nós sabíamos. Havia e há muito mato e beleza, mas casas não. Desconfiados, com medo, tomados pela sensação de que aquela moça nos traria perigo ou problemas, relutamos. Aquilo só poderia ser treta das mais graves.

Não lembro a razão, mas seguimos a dica. Chegamos ao acampamento sugerido e encontramos uma verdadeira casa feita de lonas, taquaras e pequenas pedras. Alexandre chegou e se apresentou. Fomos tratados pelo casal, dali até o fim da nossa estadia, como bons amigos. Feijão, café, fogo a qualquer momento, histórias, cachacinhas e a viola rolando no entorno da fogueira. Muitos aprendizados. Pura alegria.

O dinheiro e o poder perderam espaço naquele improvável encontro. Quando estou de saco cheio, desanimado, sem acreditar que um mundo com menos ódio e violência é possível, costumo recordar daqueles dias. Lindos dias. Alexandre ou Daniela parecem me dizer: senta aí, toma um café, tenho uma história pra te contar. Então sou tomado por saudades daquelas pessoas que pouco conheci, mas que me fazem não perder a esperança. Sim, Galeano: há de se viver sem medos.

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Analfabetismo político

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Trabalho em sala de aula, na rede pública, desde o dia quatro de maio de 2009. Não é muito tempo, sei bem. Mas já se passaram quatro escolas e alguns milhares de estudantes. Do maloqueiro ao CDF. A intensidade da experiência que tive e tenho é tanta, tão incrível, que essas pessoas me fazem acreditar que a educação formal tem um papel importante nas sociedades humanas.

Porém, definitivamente ela não é a solução para todos os males. Não é panaceia. Basta atentar para o nível de escolaridade das pessoas que ocuparam a Avenida Paulista no último domingo, em protesto contra o governo. A imensa maioria possui curso superior completo (1). O que não encobre uma retumbante evidência oriunda das suas próprias bocas e dos seus próprios cartazes: lá estavam muitos analfabetos políticos.

Não, não estou dizendo que para manjar de política é preciso aderir à doutrina esquerdista, centrista e/ou direitista. Nada disso. Para não ser um analfabeto político, é preciso buscar informações, sistematizá-las, pensar, refletir e confrontá-las com a realidade. Apurá-las. Desconfiar. Encarar o poder da dúvida, da incerteza e da pluralidade. Ler, minimamente, as referências da área, aquelas pessoas que, independente do lado que defendem, dedicam-se ou dedicaram-se a estudar os fenômenos sociais e políticos. Pelo menos isso.

A imensa maioria dos manifestantes em São Paulo cuspia as suas certezas bizarras, desconectadas com o mundo objetivo. Defesas da sonegação de impostos; odes a linchamentos; confiança em figuras políticas autoritárias, em jornalistas rasteiros e a mais absurda das crenças, a de que o PT está trazendo o comunismo para o Brasil; todas essas alucinantes ideias estavam nas ruas e vêm ganhando terreno no espaço público, com contornos de sabedoria e ativismo. Nesse discurso não há lacuna, não há dúvida, não há a vida e a perspectiva do outro. Há cegueira, brutalidade, violência e uma genuína ignorância.

O futuro é incerto. Eu sigo acreditando na importância da educação formal. Levanto a cabeça todos os dias com essa fé e encaro a labuta. Ao Sol e à sombra, saudoso Galeano. Só que a coisa complica quando alguém sentencia, sob aplausos da massa, que o PCC é um braço armado do PT e que o mesmo PT trouxe 50 mil haitianos para votar no partido. Aí eu me recordo que finalizar um curso superior pode não ajudar a driblar o analfabetismo político. E eu me recordo de algo que venho pesquisando e argumentando: as condições e as vivências fora da escola podem ser tão ou mais condicionantes para a aprendizagem do que a própria escolarização.

Referência

(1) Vale conferir a pesquisa feita por professores da USP e da UNIFESP entre os manifestantes do dia 12 de abril, na capital paulista. Ainda que se possa questionar a metodologia da investigação, os dados são interessantes e ajudam a problematizar os interesses e pensamentos dos participantes. Os dados estão publicados no seguinte endereço: http://www.lage.ib.usp.br/manif/.

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