ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A lenda do boxe Muhammad Ali


Imagem retirada do sítio http://iml.jou.ufl.edu/projects/Spring05/Shaffer/main_ali.jpgEstadunidense de Kentucky, Ali recusou-se a lutar no Vietnã


Muhammed Ali começou a se tornar um grande lutador de boxe vencendo as Olimpíadas de 1960. Em 1964, conquistou o título de Campeão Mundial dos Pesos Pesados profissionalmente, derrotando Sonny Liston. Os Estados Unidos enfrentavam acontecimentos políticos de bastante importância na década, marcada pelo combate ao racismo e pelas lutas em prol dos direitos civis. A resistência negra era liderada por ícones como Malcom X e o movimento dos Panteras Negras.

Cassius Clay, seu nome de batismo, converteu-se e tornou-se muçulmano. Passou, então, a ser chamado de Muhammad Ali. Em 1967, foi convocado ao serviço militar para a Guerra do Vietnã, mas negou-se a participar do conflito. Numa das maravilhosas e inteligentes frases desferidas por Ali durante sua vida, já que suas lutas eram carregadas de discursos antes e depois, ele afirmou que não iria guerrear com os vietkongs, pois nenhum deles o havia chamado de crioulo (nigger) em sua vida.

Assim, o "democrático" governo de Lyndon Johnson vetou Ali de praticar o boxe profissional e impetrou ação judicial pedindo a sua prisão por cinco anos. Seu título de Campeão Mundial de Pesos Pesados foi excluído.

Muhammad Ali, como gostava e exigia ser chamado, sempre ressaltando que Cassius Clay representava um nome oprimido, escravizado, um passado de tormentas para os descendentes de africanos, brigou com a justiça dos EUA até ser liberado para praticar o esporte que era o seu ofício. Desafiou o então campeão mundial da sua categoria e acabou perdendo para Joe Frazier.

Em 1974, Don King, magnata dos empresários do boxe estadunidense, organizou uma luta entre George Foreman e Muhammad Ali, em solo africano, em Kinshasa, no Zaire (atual República Democrática do Congo). Na véspera, Foreman alegou lesão e adiou o embate.

Ali nocauteou Foreman após vários assaltos dominados por seu oponente, e retomou o tão merecido título de Campeão Mundial de Pesos Pesados no boxe profissional. Não há como não considerá-lo o maior boxeador de todos os tempos, trata-se de uma verdade quase intocável.

Por fim, mais importante do que o atleta, é a figura humana de Clay/Ali, independente de como o chamem. O fato é que a rejeição completa do racismo sofrido na pele, as posições políticas declaradas e sua atuação profissional significam um exemplo de resistência aos parâmetros de desigualdade que compunham – e, em parte, ainda compõem – as sociedades ocidentais capitalistas contemporâneas.

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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Paranoia como projeto político

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A gente vive pedindo mais saúde, educação e segurança. Contudo, hoje, se vamos à luta por mais recursos para a educação pública, somos comunistas. Se vamos à luta por mais recursos para o SUS, somos comunistas. Se vamos à luta por uma outra política de segurança, voltada para a cidadania e os direitos humanos, somos comunistas.

A gente vive pedindo uma reforma política. Porém, se apoiamos e vamos à luta com os estudantes que ocupam centenas de escolas pelo país todo, somos comunistas. Se vamos à luta com os corajosos secundaristas, que querem reinventar a democracia, solapar o seu caráter oligárquico dominante, construir organizações horizontais e incentivar o protagonismo e a participação, somos comunistas. Esquerda e igualdade são termos achatados na expressão "comunismo" e, de imediato, criminalizados.

É impressionante. Qualquer rejeição ao racismo, ao machismo, à misoginia, à homofobia e qualquer tentativa de fortalecer proteções sociais para os trabalhadores e as classes populares, logo é taxada de comunista. Que diabos. O fantasma da Guerra Fria, recriado e requentado num contexto bastante diferente, ainda segue como falácia na boca dos que querem manter tudo como sempre esteve. Nada mais do que uma forma de tentar criminalizar quem busca mais igualdade e liberdade para todos.

Isso me faz lembrar do personagem Ira Ringold, protagonista do livro “Casei com um comunista”, do genial estadunidense Philip Roth. Ira, comunista, e seu irmão, professor de literatura inglesa, incentivador do pensamento crítico, sofrem todas as consequências da perseguição política do macartismo nos EUA, logo após o fim da Segunda Guerra. Suas vidas são devastadas pela intolerância política, enquanto escândalos e mais escândalos envolvendo governantes não merecem maiores atenções.

Uma ideia de Ira Ringold não me sai da cabeça. Mesmo sendo um personagem controverso, ele acerta quando diz que, para muitos dos que nos governam, o problema do país não é a forma como tratamos os trabalhadores, os negros, as mulheres, os homossexuais, os deficientes, os jovens, não é o abismo de oportunidades entre ricos e pobres. O problema, para eles, são os poucos comunistas que ainda existem. Não dá pra acreditar, mas essa paranoia segue por aí. Só dá pra acreditar se percebermos que a paranoia, na real, é um projeto político e ideológico.

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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Entre o passado e o futuro

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um dia depois do outro, observamos o retrocesso. Nem são as tenebrosas transações dos velhos oligarcas que mais me deixam perplexo. A Ponte para a Idade Média ganha força nas ações já tomadas e nas que estão por vir. Dois lemas alardeados, de fato, resumem bem o retorno ao passado: "não pense em crise, trabalhe" e "ordem e progresso".

Trabalhar é importante e necessário para a sobrevivência da maioria dos humanos. Pensar, ampliar horizontes, fazer associações e criar o diferente e o alternativo, por sua vez, são atitudes tão relevantes quanto trabalhar. Sobretudo num país em que mais da metade das pessoas trabalha e quase nada recebe, num país em que a desigualdade de oportunidades deveria envergonhar a todos nós. Pensar pode ser uma forma de se abrir para o possível, e a partir disso, preparar o terreno para mais conhecimentos e menos fanatismos. Para mudar a vida prática.

Sem incentivar o pensamento e focada na ordem e no progresso, nossa sociedade tem muito pouco a ganhar. Reparando bem, a ordem atual das coisas exclui multidões, violenta multidões e favorece, quase sempre, os mesmos favorecidos. O incômodo e a descrença numa democracia procedimental e oligárquica me parece se expressar no protagonismo das juventudes pelo mundo e nas suas ocupações das ruas e espaços públicos. Jovens pessoas que pensam e agem. Que querem fazer o novo e não se curvam ao fatalismo dos que gerem o Estado e o mercado. Que querem democracia com liberdade e igualdade.

Professores em greve, secundaristas ocupando escolas, enfim, todos aqueles que constroem hoje o amanhã, pensando e agindo, rejeitam o passado que os oligarcas querem impor sem sequer passar pelo crivo eleitoral. Nesses eu boto fé. Com esses eu quero somar. Porque a ordem e o progresso para meia dúzia, sem pensamento, tendem a exterminar a nossa própria humanidade. Disso acho que estamos fartos.

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