ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A apologia e as formigas

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há alguns dias, algumas pessoas têm me dito que o problema maior do Brasil é a “apologia” da homossexualidade, do feminismo e da divisão da sociedade em “raças”.

Há alguns dias, formou-se uma rota de formigas, no pátio de casa. Lá vão elas, sem parar, pra lá e pra cá, organizadamente, carregando pedaços de folhas e flores enormes para o seu tamanho.

Apologia é um discurso que defende, justifica ou elogia alguma coisa. Os dois exemplos recorrentes do tal problema principal do país falavam sobre as manifestações em público de amor e carinho de pessoas do mesmo sexo e da liberdade corporal das mulheres.

Ora, essas pessoas não se importavam nem um pouco, quando perguntadas, a respeito da “apologia” da matança, da tortura e do autoritarismo, tão presente nos últimos tempos. Para isso, elas diziam: “é da boca pra fora, são brincadeiras”.

Quer dizer, então, que o amor e o carinho, a liberdade e autonomia das minas pra lidar com seu próprio corpo, a defesa e o elogio da cultura e da história negra, tudo isso são problemas sociais graves – mas a defesa e o elogio da morte de opositores e da violência como plataforma política são apenas bravatas engraçadinhas?

Acho que o vaivém das formigas, sobre o solo árido e pedregoso, de aparência tão insignificante, soa bem pedagógico: a tarefa é pesada, mas só com organização, disposição e persistência será possível cumpri-la.

Passo a passo, levando a semente para desarmar o ódio e construir uma sociedade que se paute pela comunhão, pela solidariedade, pela pluralidade, pela liberdade e igualdade para todos.

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domingo, 18 de novembro de 2018

Norbert Elias e a sociedade dos indivíduos


Toda sociedade grande e complexa tem, na verdade, duas qualidades: é muito firme e muito elástica. Em seu interior, constamente se abre um espaço para as decisões individuais. Apresentam-se oportunidades que podem ser aproveitadas ou perdidas. Aparecem encruzilhadas em que as pessoas têm de fazer escolhas, e de suas escolhas, conforme sua posição social, pode depender seu destino pessoal imediato, ou o de uma família inteira, ou ainda, em certas situações, de nações inteiras ou de grupos dentro delas. Pode depender de suas escolhas que a resolução completa das tensões existentes ocorra na geração atual ou somente na seguinte. Delas pode depender a determinação de qual das pessoas ou grupos em confronto, dentro de um sistema particular de tensões, se tornará o executor das transformações para as quais as tensões estão impelindo, e de que lado e em que lugar se localizarão os centros das novas formas de integração rumo às quais se deslocam as mais antigas, em virtude, sempre, de suas tensões. Mas as oportunidades entre as quais a pessoa assim se vê forçada a optar não são, em si mesmas, criadas por essa pessoa. São prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua sociedade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela. E, seja qual for a oportunidade que ela aproveite, seu ato se entremeará com os de outras pessoas; desencadeará outras sequências de ações, cuja direção e resultado provisório não dependerão desse indivíduo, mas da distribuição do poder e da estrutura das tensões em toda essa rede humana móvel.
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REFERÊNCIA
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ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. Página 48.
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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Desamparados e febris

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um das coisas que fico pensando, agora que o ovo da serpente está eclodindo, é no gigantesco desamparo em que nos encontramos enquanto sociedade. Como parar de agir não é possível, agimos desamparados

Tirando quem legitima e/ou procura justificar assassinatos de opositores políticos, espancamento de homossexuais, mulheres e negros, que não me parece ser a maioria, muitos se sentem perdidos, desamparados, revoltados. Como ajudar para que esses não acabem nadando no esgoto do fascismo?

Pensando rápido com a psicanálise, nossas ações podem se orientar por uma “demanda” ou pelo “desejo”. Uma ação orientada por uma demanda tem o desamparo como ponto de chegada, porque procura no outro um reconhecimento, um amparo narcísico. Só que o outro pode sempre dar de ombros para a nossa demanda, o desamparo prosseguir, e a busca também.

A ação orientada pelo desejo tem o desamparo como ponto de partida. Percebendo o desamparo, os desejos recalcados no inconsciente nos movem, orientam os impulsos para a ação. Agimos e nem pensamos “por que faço isso?!”.

No cruzamento do desamparo como ponto de chegada e partida, tudo aquilo que a sociologia crítica vem dizendo há tempos sai do armário de muita gente. A verdade é que as condições de possibilidade do fascismo permaneceram por aí, década após década, brotando em meio a uma sociedade em que tudo seguia mercantilizado e a maioria excluída e humilhada.

Aí, a demanda por ser reconhecido pelo outro explode em adesão ao homem bruto e autoritário, quase num efeito manada, perfeitamente adequado a uma sociedade que nunca pagou suas contas com seus múltiplos passados e presentes de opressão.

Aí, o desejo recalcado no inconsciente, condicionado por violências diversas, humilhações, vergonhas e impotências, explode no agir desejoso de escolher um caminho perverso, um caminho que replique e multiplique as próprias mazelas num espelho sombrio.

Não acho que tenhamos 50 milhões de fascistas no Brasil. Então parece claro que há uma verdadeira máquina de guerrilha simbólica invadindo nossos desamparos e acessando nossas demandas e desejos mais escondidos, manipulando nossas pulsões de destruição.

Numa das sociedades mais violentas e desiguais do mundo, é urgente conseguir acessar o desamparo em nós mesmos e no vizinho, no colega de aula, no parceiro de trampo.

Para diminuir os efeitos da longa noite que se avizinha, vamos precisar, numa espécie de contra-máquina simbólica, tocar na nossa subjetividade mais íntima, em demandas e desejos que nos façam agir pela comunhão, pela igualdade, pela liberdade e pelo respeito.

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