ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Reconstruir uma razão crítica

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O ano mal começou e o tempo continua voando. Coisas da vida. Olho pela sacada a correria na cidade e fico pensativo: “pra onde vai essa porra toda?”. Não tem como saber com exatidão. Não dá pra prever o limite e as consequências da ofensiva autoritária e conservadora que toma conta do país. Parece haver um movimento global nessa direção. Num piscar de olhos, penso o quanto tenho sorte por ter conseguido criar um conjunto de relações com pessoas que me mostram, no cotidiano, todas as bonitezas da vida.

Quando volto a pensar no que está em jogo hoje, por vezes me vêm à cabeça a questão da “razão” nos conflitos políticos, sociais e morais. Será que viramos bestas irracionais? Se é fato que convivemos dia após dia com os problemas que nos afetam, desde a deterioração aprofundada da natureza, até múltiplas violências, opressões e desigualdades, cabe perguntar por qual motivo não usamos a razão para deixar as coisas melhores? Por que o projeto das sociedades organizadas racionalmente segue em crise e, para alguns, beira ao inevitável colapso? Como alguém pode justificar a barbárie com um pretenso uso da razão?

Na Filosofia e nas Ciências Sociais, coexistem distintos caminhos para discutir esse tema. Noutros textos percorri alguns deles¹. Em geral, existem os apologistas da razão a qualquer custo. Existem outros que a desconstroem sem piedade. E têm os que tentam reconstruir as reflexões sobre a razão com uma abordagem crítica e pluralista. Por aí, uma linha que me instiga vê a razão em duas dimensões: a razão objetiva e a razão subjetiva. A razão objetiva se manifesta de duas maneiras. A primeira está presente como uma estrutura que coordena a vida das pessoas em relação a um fim último definido de modo racional. A segunda se reflete no pensamento enquanto forma de compreensão dessa estrutura que atua na realidade. Já a razão subjetiva é simplesmente uma função de coordenação entre meios e fins. Os fins são definidos pela razão objetiva, e a potencial junção das duas dimensões completaria a ideia de “razão”.

Quase um profeta, Max Horkheimer, filósofo do movimento conhecido como Escola de Frankfurt, propõe ambas as categorias numa obra cada vez mais atual, publicada em 1947, no calor do final da Segunda Guerra². “O eclipse da razão” parte da premissa de que o triunfo das modernas sociedades capitalistas (e sua dominação de classe, colonialista e patriarcal) fez com que a razão subjetiva tomasse conta da razão objetiva. Com isso, a razão teria se transformado em mero instrumento, somente um mecanismo de seleção de meios eficientes para determinados fins relativos aos interesses dos indivíduos.

Isso significa que teríamos perdido a capacidade coletiva de buscar um fim último, cujos horizontes fossem refletidos e pensados crítica e racionalmente. Nessas sociedades, a razão passa a ser entendida pelas pessoas como um operador prático relacionado aos seus interesses particulares, reificando a si mesma a tal ponto que ela pode vir a expressar apenas a autopreservação do indivíduo. A supremacia exclusiva da razão subjetiva teria aberto as portas ao nazifascismo e demarcado a crueldade extrema e o genocídio racista no contexto de uma civilização que pregava a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

Quando penso no que vai dar essa porra toda, ao contrário de desconstruir a razão, namorar a irracionalidade ou sobrevalorizar a experiência por si só, penso que um dos pontos importantes para entender os nossos tempos passa por reconstruir o sentido da razão e como ele se atualiza nas relações sociais. Para isso, abrir o debate a perspectivas que ultrapassem a tradição ocidental pode ser um bom começo, caminhando para uma racionalidade mais “cosmopolita”. Aliás, a razão precisa ter um caráter crítico, no intuito de fomentar a qualidade cívica do debate público e democrático sobre o bem-estar coletivo e a liberdade, fundado em argumentos, razões e motivos.

O problema, diria o sábio, é combinar tudo isso com o outro time. A conclusão mais perigosa acerca de uma sociedade cujos membros agem conforme uma racionalidade que só opera distinguindo meios e fins pessoais, num espaço social marcado pela violência e pelas desigualdades, acaba apontando para uma escalada da barbárie. Podemos chamar também de uma escalada do autoritarismo e da opressão. Os cínicos, por sua vez, poderão chamar de “A escalada do homem de bem” ou “A escalada dos homens de bens”. Faria pouca diferença.

Notas 

¹ Uma das “lentes” que acredito promissora para pensar a atualidade encontra-se na articulação teórica de Jessé Souza, unindo a teoria das lutas simbólicas (Pierre Bourdieu) com uma hermenêutica da moralidade moderna (Charles Taylor). 

² O livro “O eclipse da razão” (1947) se situa entre dois outros textos de Horkheimer sobre o mesmo assunto. “O fim da razão” (1941) ensaia a noção de que a razão vai se tornando um mero instrumento de coordenação entre meios e fins pessoais, até que não haja mais lugar para a razão, a não ser a autoconservação individual. Depois, o autor supera essa abordagem com a tipologia da dupla dimensão: razão objetiva e razão subjetiva. Em “Dialética do esclarecimento” (1947), Horkheimer e Theodor W. Adorno avançam nesse debate, chegando ao conceito de “razão instrumental”.

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sábado, 24 de dezembro de 2016

Michael Sandel e a sociedade de mercado

Estaríamos passando de uma economia de mercado a uma sociedade de mercado?

Frase de Sérgio Vaz

A apologia irreflexiva da economia de mercado pode estar nos transformando em sociedades de mercado. Não apenas a produção e circulação de bens materiais, mas praticamente todas as relações nas sociedades humanas podem se tornar relações de compra e venda. Em sociedades muito desiguais, ricos e pobres, pessoas de diferentes origens sociais e estilos de vida podem passar a ter cada vez menos espaços de compartilhamento de experiências. Perde o ideal democrático, pois se não tivermos mais espaços de convivência e negociação das nossas diferenças, o caminho fica livre para o ódio e a intolerância. Essas provocações de Michael Sandel (veja o vídeo no TED), filósofo e professor de Harvard, ajudam a nos fazer pensar no caminho que estamos trilhando enquanto civilização humana. Quem sabe a gente não faz diferente?

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

"Estadofobia" x "Estadolatria"

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A “Estadofobia” de boa parte dos governantes atuais e dos meios de comunicação de massa, na verdade, esconde uma “Estadolatria” indiscutível. O mantra de reduzir e reduzir e reduzir o Estado, a qualquer preço, mascara uma visão de Estado que, na prática, prevê um Estado bastante forte e atuante.

Ora, os governos atuais pretendem reduzir o lado mais “democrático” do Estado, o seu “braço esquerdo”. Ciência, educação, saúde, cultura, meio ambiente e outras pautas que foram incorporadas pelo poder público através de muita luta popular, sobretudo durante o século XX, na busca por expandir para toda a população os serviços básicos que conformam a dignidade humana, passam a ser descartáveis e direcionadas para o mercado - e, portanto, acessíveis para quem puder pagar.

Por outro lado, o monopólio da violência física, dos instrumentos de “justiça” e da máquina administrativa responsável por recolher os tributos da população, em geral, pouco ou nada entram no debate. De fato, por vezes, policiais também acabam pagando o pato da austeridade-para-alguns, tão na moda neste mar de lama chamado 2016. Ainda assim, repressão pesada, vigilância e coerção não correm riscos quando chega a tesoura do pessoal da teoria econômica ortodoxa. Auxílio-moradia a juízes, privilégios de desembargadores, isenções fiscais às grandes corporações, enfim, nada disso importa.

Forja-se uma “Estadofobia” para alguns, ou melhor, para as funções que ajudam a ampliar os horizontes da sociedade, ajudam a estimular a emancipação humana, e uma “Estadolatria” para a regulação e o controle, para o embrutecimento e a segurança das grandes propriedades. Nessa toada, a “Estadofobia”, por incrível que pareça, sequer propõe a garantia legal e real de direitos individuais contra o poder do Estado. Segue o Estado controlando o casamento das pessoas, as substâncias que elas utilizam, suas gestações e, não é de se duvidar para o futuro-presente próximo, o que as pessoas pensam e falam.

A “Estadofobia” de hoje fomenta o inverso daquilo que poderia equilibrar as oportunidades de uma vida digna, considerando o complicado contexto das modernas sociedades capitalistas. Em vez de (a) garantir as liberdades individuais, retirando-se de um jogo que não é seu (b) regular os conflitos entre capital e trabalho, dando suporte para a imensa massa de trabalhadores não ficar a mercê somente dos interesses das oligarquias e grandes corporações (c) incentivando a ciência, o micro, o pequeno e o médio empreendedor, a cultura, o cooperativismo, projetos sustentáveis e educação e saúde para todos, é exatamente o oposto que vira a “solução mágica” a ser aplicada goela abaixo.

Desse jeito, logo estaremos diante de uma “Estadolatria” às avessas dos ideais democráticos, pelo menos os mais utópicos: um Estado cada vez mais regulador, controlador, vigilante, repressor e cobrador de impostos. O resto o mercado absorverá e quem não puder pagar que se vire. A democracia, sobrevivendo por aparelhos, parece só precisar de um empurrão para ir às cucuias de uma vez por todas, em pleno século XXI.

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