ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Fazer uma fogueira

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A última semana do semestre letivo na universidade foi acompanhada do meu credenciamento como docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS. Teve também reunião da Residência Pedagógica em dia de dilúvio e quatro bancas de TCC, sendo três de trabalhos que eu orientei. Uma correria louca, cheia de aprendizados.

A última atividade da semana, a última banca, foi uma síntese de como venho procurando praticar a docência e a educação. Foi um momento acadêmico tomado pela emoção. Um acontecimento bonito, feito de significados, sabedorias, sensibilidades e experiências. Uma troca entre pessoas, na qual o ato de conhecer se fez vivo e pulsante.

A educação na modernidade ocidental tem se caracterizado por ser um processo de acúmulo de conhecimentos. Transmitimos ou inculcamos em aprendizes o que foi produzido pela humanidade durante séculos. A escola e a universidade são as instituições exemplares dessa concepção dominante, baseada numa espécie de monorracionalidade.

Apesar da sua relevância, essa abordagem carrega limitações. Educar é muito mais do que isso. Não se resume a levar informações "para dentro". O conhecimento pulsa quando leva as pessoas "para fora", para habitar com atenção o mundo em que vivem. Quando ajuda a caminhar pelos labirintos da existência, experimentando percursos menos "intencionais" e mais "atencionais".

O antropólogo Tim Ingold, cuja obra inspira essa perspectiva, cita a imagem de que educar não é como encher um balde, mas é como fazer uma fogueira. Não se sabe como vai ser. Sempre há riscos. Porém, pode ser chama e potência. É redescobrir a vida em fluxo. Até porque, olhar para o mundo só a partir do conhecimento acumulado pode fazer com que se veja apenas o próprio conhecimento, e não o mundo.
 

 

terça-feira, 25 de julho de 2023

bell hooks e o ensino de ciências sociais (evento online)

 
O Laboratório Virtual e Interativo de Ensino de Ciências Sociais (LAVIECS/UFRGS), o Programa de Residência Pedagógica em Sociologia (PRP/UFRGS) e a disciplina de Sociologia no Ensino Médio: Teoria e Prática, do currículo da licenciatura em Ciências Sociais da UFRGS, apresentam o evento online "bell hooks e o ensino de ciências sociais".

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sexta-feira, 16 de junho de 2023

Uma centelha para o conhecimento

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Difamando o frio intenso do quase inverno ao sul do mundo, olho pela janela do trabalho algumas pessoas gargalhando. Ainda há quem sorria na Universidade. Então, do nada, eu mesmo me pego sorrindo e divagando: e se a alegria e o entusiasmo fossem a centelha que mobiliza o cotidiano da produção e da circulação de conhecimento?

Pensando bem, os fatos objetivos me dão um banho de água congelante, porque revelam um cenário assustador. Qualquer pessoa que conversa com estudantes, especialmente com quem está na pós-graduação, percebe em muita gente que algo não vai bem. Percebe o desânimo, a ansiedade e diferentes adoecimentos. Em alguns casos, também entre docentes esses são sentimentos corriqueiros.

Vale a reflexão sobre como o jogo acadêmico e suas métricas do produtivismo ensandecido e do prestígio como principal recompensa tendem a desencantar a relação com o saber. O excesso de pressão e de vaidade, o exercício de micro poderes e os assédios variados minam um terreno que deveria ser sempre fértil para bons processos pedagógicos e boas pesquisas científicas.

A falta de sensibilidade e acolhimento por parte de ocupantes de posições superiores nas hierarquias acadêmicas é um tiro no pé de todos nós. Funciona como um veneno que vai fazendo com que excelentes estudantes tomem asco do ambiente universitário. Fomenta o anunciado apagão de professoras e professores e a debandada de cientistas para outros países. Uma política pública robusta de financiamento educacional e científico é para ontem.

Não menos importante é o aspecto econômico que atravessa todo o contexto. As e os estudantes de graduação, em geral, estão sem grana e se viram para se sustentar enquanto estudam. Na pós-graduação stricto sensu, muita gente está sem bolsa de pesquisa. Por isso, precisa conciliar a demanda de leituras e tarefas (por vezes um troço sem noção) com o trabalho em turno integral.

Há quem diga que é assim mesmo, e que esse é o preço a se pagar pela excelência. Isso é uma falácia. É possível ser rigoroso e acolhedor, ao mesmo tempo. Corrigir sem humilhar. Estimular o envolvimento e o engajamento, ao invés de ironizar o outro ou se afogar na própria vaidade. Competir menos e cooperar mais. E têm muitas pessoas fazendo dessa forma, buscando esse caminho. Afinal, sem estudantes a Universidade não faz nenhum sentido.