ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

quinta-feira, 16 de março de 2023

"A escola não é uma empresa", livro do sociólogo Christian Laval

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Analisando documentos oficiais franceses e de organismos mundiais sobre a educação, Christian Laval argumenta que a escola se transformou numa instituição à serviço do modelo neoliberal de sociedade. Pelo menos desde a década de 1980, o sistema de ensino francês teria sido dominado por uma visão empresarial e de mercado, com uma reconfiguração completa dos seus objetivos.

A ideologia republicana que orientava os objetivos da escola francesa teria dado lugar às perspectivas do capital humano. Isso pode ser notado através da presença constante da propaganda de empresas privadas no interior das escolas, por uma neotaylorização do regime de trabalho docente, pela descentralização do poder do setor público e pela mutação da direção escolar em gestão educacional.

Nessa linha, o conhecimento passou a ser associado a uma espécie de acúmulo de capital humano, sendo os estudos um investimento mais ou menos rentável. O ideal humanista de uma escola emancipadora perdeu lugar para o culto da eficiência, da adaptação ao mercado e da procura pelo sucesso econômico, associado ao sucesso na vida.

Nessa escola submetida à lógica empresarial, a direção se tornou gestão, tratando as atividades educacionais pela ótica administrativa. As escolas são classificadas por rankings e a atuação docente se volta para bases curriculares direcionadas para atender as métricas das avaliações de larga escala. A autonomia docente é reduzida e a aprendizagem engessada.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Roda viva

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sonhei que me olhava no espelho por alguns minutos perguntando: como vai? Sem resposta, meu corpo entrava numa espiral do tempo desse ano que chega ao fim. Nessa roda viva, giravam as ausências de quem partiu e os vazios que ficaram.

Um mês, 12 deles, alguns instantes, toda uma jornada. O que importa a conta? Como lidar com esse caminho só de ida? A gente vai contra a corrente, resiste até não poder resistir; cultiva a mais linda roseira que deseja cultivar; e aí vem a roda viva, sacode geral e carrega o destino e a roseira pra lá.

Que balanço... Mas o giro vai ser de permanecer vivo e prosseguir a mística, com quase 38 voltas na Terra, sem ligar para a estatística. Vai ser de sorrir com essas quase quatro décadas de sonho e de sangue, e de América do Sul. De seguir cultivando a roseira. De peitar a bola pro alto e se fazer presente no que importa, nesse presente que é viver.

Como vai? Andando com gente (humana e mais que humana) firmeza e afetuosa, porque dei sorte na vida. No miudinho, passo a passo, à contrapelo da existência enlatada. Oscilando. Agradecido. Com as veias abertas, sem deixar de caminhar. E sorrir. Aceitando o giro que ensina - com a roda viva, que a tudo leva, ficando pra lá de 2022.