ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

terça-feira, 29 de março de 2016

Tenebroso roteiro no ar

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há um roteiro tenebroso no ar. Avança o impeachment. Sai o PT. Os fanáticos anti-PT fazem a festa pelas ruas do país, bebendo e comendo, de champanhe a filé, tudo bancado pelas associações das classes abastadas brasileiras. Será que alguém dessa turma volta às ruas para pedir a saída do sempre-governo PMDB e suas dezenas de parlamentares acusados de corrupção? Duvido muito.

O governo do PMDB segue instável até 2018, mas a maré verde-amarela desaparece das ruas. Sobram os “indignados com tudo isso” e os petistas. Os petistas voltam inflados para a oposição, com ares de injustiçados, como se não tivessem colocado o PMDB na sua própria chapa em duas eleições presidenciais, como se não tivessem cedido uma parcela gigante do governo para o PMDB sempre-governo. Indignados e petistas, somados àqueles que acreditam na necessidade de uma nova política, de novas regras e atores, pessoas independentes ou de movimentos e organizações menores, tendem a voltar às ruas, não aceitando a mentira deslavada da “estabilidade” ao sabor das velhas oligarquias.

Nas ruas, todos nos encontraremos com uma lei Anti-Terrorista carimbada pelo quarto mandato presidencial do PT. Encontraremos os aparatos de repressão do Estado como sempre, daquele mesmo jeito, violento e intimidador, não como nos domingos de selfie com os verde-amarelos. O cerco estará mais armado do que nunca. A criminalização da esquerda e dos manifestantes em geral, que já existe e se manifesta com clareza, pelo menos, desde os protestos de junho de 2013, caminhará a passos ainda mais largos. Não haverá selfies. Todo cuidado poderá ser prudente. Ah, e a arapuca terá sido armada de uma vez por todas nos governos do próprio PT, com as suas taxas de encarceramento em massa, seu endosso lamentável ao desastre que se mostra a política de segurança pública no Rio de Janeiro, o desrespeito às comunidades tradicionais e etc. Baita tiro no pé.

Mas o roteiro pode ir mais longe. Dos inúmeros projetos que tramitam no Parlamento, ávidos por retirar direitos dos trabalhadores e das classes populares, além de atacar direitos individuais de mulheres e homossexuais, muitos deles estarão contemplados na “Ponte para a Idade Média” proposta pelo PMDB. Negociações entre patrões e empregados valendo mais do que a Legislação, tornando o 13º salário, as férias remuneradas e o descanso semanal remunerado "questões" a negociar com o empregador; ataques aos servidores públicos, sempre considerados ineficientes e burocráticos, sem se considerar as diversidades entre as diferentes funções públicas e as diferenças salariais; possíveis cobranças de mensalidade em Universidades e Institutos Federais; desvinculação das obrigatoriedades orçamentárias para com saúde e educação, sucateando (mais ainda) esses setores; enfim, a lista de ataques pode se estender*.

Daí, lá em 2018, com as alternativas políticas em frangalhos, com a possibilidade de que o desespero se traduza numa crítica à política de modo geral, virá uma nova eleição presidencial. Talvez com algumas das ofensivas acima ainda por fazer, talvez com outros ataques em vista. O fato é que o contexto para a defesa dos direitos sociais, conquistados a duras penas durante décadas, e conquistados apenas parcialmente, poderá ser quase impraticável. Nossas contradições podem se aprofundar. Eu realmente espero estar equivocado nesse roteiro. Só que com o caráter das nossas principais instituições democráticas se mostrando a cada dia, o meu medo de acertar é muito grande.

* Há muitos projetos em curso no Congresso Nacional cujos objetivos antagonizam com direitos sociais e individuais. Alguns deles estão listados aqui.
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quinta-feira, 17 de março de 2016

Mais democracia e menos ódio


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Nosso país está em chamas. Eu achei um escárnio, uma vergonha a manobra política do Governo Federal, colocando Lula como ministro. Eu não sei se ele é corrupto ou não. Sou um crítico dos governos petistas por vários motivos, mas não posso dizer se Lula é ladrão, porque não tenho conhecimento para isso – pelo menos até agora. Assim como nos casos de Aécio, Cunha, Dilma e etc. Investigar de maneira transparente e com amplo direito a defesa é o mais democrático a fazer. A corrupção tem que ser combatida.

É muito preocupante a paixão e o ódio ao PT. Paixão e ódio são sentimentos explosivos, nada racionais. Política tem um pouco disso, sim. Mas precisa ter a razão como principal ferramenta dos debates. A gente não pode sair pela rua cuspindo ódio para as outras pessoas, só porque elas parecem petistas, tucanas ou qualquer outra coisa. Isso não tá certo. Isso é loucura. Até porque a grande maioria de nós, que vive o Brasil, sofre com problemas cotidianos semelhantes.

Acho importante protestar, sempre achei, lembram? E protestar, inclusive, contra coisas que eu não protestaria. Todos podemos e devemos. Mas intimidar as pessoas que não concordam com o seu protesto não tá certo. Bater em alguém que usa barba, camiseta vermelha ou cabelo comprido é tão errado quando bater em alguém que não tem barba, usa camisa engomada e cabelo feito em cabeleireiro caro. Isso é loucura.

Cada um de nós, numa democracia, por mínima que ela seja, tem o direito de ter uma posição política. O que a gente não deve é botar todos os opositores no mesmo saco, quando nos convém. Eu, como um cara de esquerda, preocupado em diminuir as desigualdades sociais e aumentar as oportunidades para todos, não posso dizer que todas as pessoas de direita são corruptas, fascistas, imundas e que merecem morrer. Isso não leva a lugar nenhum. Interdita a democracia e a própria vida social. Não faz sentido que alguém me chame de petista, comunista ou qualquer outro ista e me associe diretamente à corrupção, roubalheira ou autoritarismo de esquerda.

Acho que a gente precisa conhecer melhor as coisas. Saber bem o que é ser de direita, o que é ser liberal, quais são as ideias desse campo político. Saber bem o que é ser de esquerda, comunista, socialista ou social-democrata. Mas, mais do que isso, saber que entre as duas pontas há um universo. Há muita coisa a se pensar, a construir, a articular e propor. Nenhum extremismo é democrático. Precisamos ultrapassar a taxa de 8% de pessoas que leem e entendem bem o que leram, fazendo relações e analisando criticamente as coisas. Dependemos disso.

Todos nós queremos justiça e que a Justiça, uma instituição do Estado, funcione bem. Só que a gente sabe que ela não funciona bem há tempos. A Justiça é um dos nossos grandes problemas. Vocês lembram o Amarildo? A Cláudia, arrastada pela PM no RJ? As invasões em sedes de movimentos políticos nas jornadas de 2013? As prisões arbitrárias de ativistas? Os milhares de casos de pessoas, em geral pobres e negras, que não conseguem se defender de acusações e estão presas nas masmorras brasileiras mesmo sem a condenação oficial efetivada?

Por essas e outras, assim como o poder político das sociedades modernas (Executivo e Legislativo) deve ser fiscalizado com verdadeiro controle social, a Justiça também. Longe de mim questionar, sem provas, a legitimidade ou não dos julgamentos dos magistrados. Mas controle social e fiscalização, para servidores públicos extremamente bem remunerados, é uma obrigação na democracia. Não podemos endeusar servidores do Estado. Eles são pessoas. Têm preferências políticas, no entanto não deveriam mostrar as suas preferências aos quatro ventos. Justiça combina com discrição. A ética tem que ser a ética da responsabilidade, e não a ética da convicção, para lembrar de Max Weber.

Por fim, faço um apelo. Tenho visto um número crescente de ex-alunos que começam a acreditar em discursos autoritários como solução para o país. “Pega, mata e come” pra todo lado, como se isso resolvesse algo, sendo que isso, na verdade, é um baita tiro no pé. Lembrem que vocês podem não ser pegos hoje, mas amanhã a tirania pode se virar contra vocês. Só com o aprofundamento da democracia, com participação popular, controle social do orçamento público, com racionalidade no debate político, informação e conhecimento, é que alguma coisa melhor pode surgir. Aumentando a repressão e o autoritarismo, soltando as bestas que habitam a nós todos, nós estaremos na merda de vez. Bater e cuspir nos outros é ignorância fascista, não é ser politizado.

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