ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

sexta-feira, 28 de março de 2014

A audiência

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Lia a última publicação do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). As respostas de 42,7% da população pesquisada sugeriam que mulheres que vestem roupas curtas justificam possíveis violências sexuais contra elas mesmas. Tenso e incomodado, adormeci.

Tinha dúvidas se estava sonhando ou estava desperto. Encontrava-me numa audiência judicial (?!). Conhecia os bastidores do caso. Uma menina de uns 20 e poucos anos processava um antigo chefe por assédio. Lembro-me das risadas dos advogados. Quando a mulher chegara ao escritório, antes mesmo de mover a ação, ninguém acreditara nela. Vestida sensualmente, considerada vulgar pelos outros, ela seguira com a causa.

Naquela audiência, o advogado dizia:

- Veja bem, excelentíssimo. Minha cliente está aqui como está em todos os lugares. Livre, vestida como quer. Sim, com roupas curtas e apertadas. Justamente por isso, simplesmente por ser quem ela é, ninguém tem o direito de assediá-la. Ou aderimos de vez à barbárie?

O despertador gritou desesperado. Bah, que sonho louco. Dormi e acordei, apenas? Será? Sei não... Porém, fiquei na esperança de que o magistrado não agisse como os 42,7% que responderam ao IPEA. Que estudasse o caso. Que não fortalecesse a vergonha de ser homem nos dias de hoje.

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terça-feira, 25 de março de 2014

Agressiva estupidez

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Inebriado, viajava para longe. Tudo era meio macabro. Movimentar-se pela metrópole indicava uma guerra. Todos pensavam em si. Ônibus se jogavam pra cima de qualquer um. Atropelavam bicicletas como se fossem garrafas de plástico. Pedestres desrespeitavam as faixas de segurança. Ciclistas pedalavam na contramão.

A raiva parecia dominante. Buzinas serviam como armas, num primeiro momento. Depois, quem sabe, por qualquer razão, chegava-se às vias de fato. Todos reclamavam. Trabalhadores do transporte coletivo viviam sob fortes pressões. Motoristas de automóveis estavam sempre atrasados. Os pedaladores nunca eram respeitados.

A coisa ia ficando ainda mais feia. Xingamentos eram comuns. E assim a gente ia seguindo, civilizados que éramos. Aham...

Entre eu e o mundo, um oceano de estupidez. Se hoje estou pedestre, amanhã posso estar ciclista. E depois de amanhã motorista. Mas não preciso, em momento algum, estar mergulhado numa agressiva estupidez.

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sexta-feira, 21 de março de 2014

Entre o real e as aparências

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Chovia. O dia era feio demais. O rádio não parava de espalhar impropérios.

- Mulher não quer entrar na política! Elas querem é ficar em casa, não querem enfrentar as dificuldades!
- Acho que não tem que ter cotas para mulheres na política. Cada uma faz o que quer. Se elas não participam é porque não têm vocação!
- Esse negócio de mulher na política vai acabar com a família brasileira!

Náuseas. Fui tomado por elas. Pensei. Entre a realidade e a aparência há um labirinto de relações e acontecimentos. Lembrei o Mito da Caverna, narrado por Platão. Viajei. Quando se trata do papel da mulher na vida social, o universo masculino permanece na escuridão. Achando que as aparências traduzem o real. Negando a possibilidade de ultrapassar a penumbra. Com medo do protagonismo e da auto-organização feminina/feminista.

Enfrentar a sua própria caverna é o mínimo, é obrigação. Pode não ser fácil, mas já passou da hora de tentar.

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