ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Meritocracias ao avesso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

À frente, centenas de pessoas descem do trem. É cedo, rua bombando.

À direita, no trânsito, o homem de 40 e poucos anos fala ao celular:

- Pode passar a SUV pra outro... meu guri tá indo pra Inglaterra, não vai mais ficar com a nave.

À esquerda, debaixo do viaduto, uma família faz o fogo de chão pro café da manhã.

O homem à direita segue ao telefone. Sinal fechado. Ele dá risada:

- Porra, irmão! O guri fez o melhor colégio, melhor cursinho e tudo mais. Mas não passou. Essa banda na Europa é pra amenizar o baque.

À sombra do viaduto, toalha perfeitamente esticada sobre a mesa improvisada, talheres, pratos e copos sortidos, duas fatias de pão e um café preto aguado. Quatro pessoas pra comer. Duas crianças lavam o rosto e os dentes, sob o olhar atento dos pais.

Atrás, dois vizinhos comentam a chegada da família ao viaduto.

- Falei com eles ontem. Ele tem curso superior, mas não consegue emprego. Há um ano eles viviam dos bicos de ambos. Até isso rareou. Pode ver, ali tá tudo caprichado, com esmero. Tudo limpo, dentro do possível naquelas condições. Olha a barba super bem feita dele.

Aberto o sinal, o pai do garoto viajante arrancou sua Mercedez. Os vizinhos completaram:

- Viu esse que tava no telefone, falando do filho? Negou três vezes uma vaga pro cara na empresa dele. A mina, nem pra faxina ele aceitou.

- Ué, mas por quê?

- Disse que até tinham um currículo razoável, mas que, morando na rua, só podiam ser vagabundos, gente que não se esforça.

Brasil, século XXI. Meritocracias ao avesso. Vida aviltante - ao cubo.

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terça-feira, 10 de abril de 2018

O perigo da pós-verdade

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma das coisas mais preocupantes no tempo presente e no futuro próximo é a avalanche de notícias e informações falsas chegando para cada um de nós, por meio de várias plataformas. Se com a falsificação de textos e imagens uma parcela enorme da sociedade já tem dificuldades de distinguir o que é verdade e o que é mentira, quando se popularizar a manipulação de vídeos e áudios nós estaremos, literalmente, mais que perdidos. Isso já tá rolando, sob a alcunha de “deep fake news” (“falsificação profunda de notícias”, em tradução livre). 

Uma das loucuras nisso tudo é que a discussão sobre o “estatuto da verdade” já existe há muito tempo na Filosofia e nas Ciências Humanas. Entre as notícias que recebemos no cotidiano, em geral temos condições de distinguir o que é falso e o que não é. Em grande parte ainda é simples separar o joio do trigo. Já existem até sites e jornalistas fazendo isso. Ocorre que a noção de “fact check” (“checar os fatos”), esgaçada até o limite, não nos leva a um lugar conclusivo. É fácil questionar diversas conclusões dos “checadores de fatos” sobre determinados temas mais complexos, que envolvem maior subjetividade. A menos que se cheque absolutamente tudo (tarefa insana!), a própria seleção do que checar já denota alguma ausência e pode enviesar um debate.

No fundo, Jornalismo e Ciências Humanas estão diante da popularização de algo que atravessa os nossos fazeres profissionais há um bom tempo, que é a necessidade de estar sempre discutindo o que se entende por verdade. No Jornalismo, temos, sobretudo, a questão da imparcialidade. Nas Ciências Humanas, pra falar só de alguns caminhos, podemos pensar que a verdade é objetiva e basta pesquisá-la; que ela é objetiva, mas é preciso um trabalho de pesquisa metódico e sistemático; podemos pensar que só temos condições de conhecer uma parte dela, porque a verdade é carregada de subjetividades; ou, enfim, que o foco não deve estar na busca da verdade, mas somente nas subjetividades das relações humanas.

Nas últimas décadas, o distanciamento da comunidade científica e a seletividade ideológica dos meios de comunicação de massa ajudaram a pôr essas instituições sob a desconfiança de diferentes setores da sociedade. A essa altura do campeonato, com o mundo em chamas, parece que estamos à deriva, e que diferentes grupos disputam a direção de um barco que ninguém calcula pra onde vai. Nessa batalha, perdemos todos. Sem o mínimo de confiança nas mensagens que nos bombardeiam sem parar, em qual mentira vamos acreditar?

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Aristóteles, a ética e a técnica



"Se devemos a Sócrates o início da filosofia moral, devemos a Aristóteles a distinção entre saber teorético ou contemplativo e saber prático. O saber teorético ou contemplativo é o conhecimento de seres e fatos que existem e agem independentemente de nós e sem nossa intervenção ou interferência, isto é, de seres e fatos naturais e divinos. O saber prático é o conhecimento daquilo que só existe como consequência da nossa ação e, portanto, depende de nós. A ética e a política são um saber prático. O saber prático pode ser de dois tipos: práxis ou técnica.

Na práxis, o agente, a ação e a finalidade do agir são inseparáveis ou idênticos, pois o agente, o que ele faz e a finalidade da sua ação são o mesmo. Assim, por exemplo, dizer a verdade é uma virtude do agente, inseparável de sua fala verdadeira e de sua finalidade, que é proferir uma verdade; não podemos distinguir o falante, a fala e o conteúdo falado.

Na práxis ética, somos aquilo que fazemos e o que fazemos é a finalidade boa ou virtuosa. Ao contrário, na técnica, diz Aristóteles, o agente, a ação e a finalidade da ação são diferentes e estão separados, sendo independentes uns dos outros.

Um carpinteiro, por exemplo, ao fazer uma mesa, realiza uma ação técnica, mas ele próprio não é essa ação nem é a mesa produzida por ela. A técnica tem como finalidade a fabricação de alguma coisa diferente do agente (a mesa não é o carpinteiro, enquanto uma fala verdadeira é o ser do próprio falante que a diz) e da ação fabricadora (a ação técnica de fabricar a mesa implica o trabalho sobre a madeira com instrumentos apropriados, mas isso nada tem a ver com a finalidade da mesa, uma vez que o fim é determinado pelo uso e pelo usuário). Dessa maneira, Aristóteles distingue a ética e a técnica como práticas que diferem pelo modo de relação do agente com a ação e com a finalidade da ação".

Referência

CHAUI, Marilena. Introdução à Filosofia - Ensino Médio, volume único. São Paulo: Ática, 2010. Páginas 271-272.

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