ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Potência, substantivo feminino

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Hoje tive um sonho daqueles. Sonhei com três etapas da minha vida: infância, adolescência e vida adulta. Meus sonhos são sempre uma bagunça, mas nesse uma coisa ficava clara: eu estava muito tenso porque não podia falhar, não podia chorar e tinha que ser “macho”.

No sonho, me vi criança, depois de sofrer uma falta num jogo de futebol, começando a “entender” qual era o lugar dos guris nas interações sociais. A necessidade de não fraquejar, não demonstrar inseguranças, não acarinhar os amigos. Melhor era ser bruto.

É verdade que, em casa, isso não acontecia. Já na adolescência, com o mundo invadindo a gente em pitadas, a vida aparentava ser ainda menos subjetiva. Havia uma objetividade no “imaginário” ou no “inconsciente coletivo” sobre o que era ser um homem.

Senti tudo isso fortemente durante o sono. Então me vi adulto, olhando pra mim mesmo, com uma complexidade imensa represada no peito, boquiaberto ao ver que nunca fui aquele homem que durante tempos senti a estranha pressão para ser.

Um pouco antes de acordar, mirando o horizonte como um espelho, eu não cabia no papel que me era atribuído, no qual ser um homem adulto é jamais ser ou parecer uma criança, uma mulher ou um homossexual. Negativas que atravessam o “ser homem”.

Independente de qualquer coisa, eu não podia mais aceitar que o amor, o acolhimento, o carinho, a sensibilidade, a atenção, o afeto, um abraço... Não podia aceitar que essas fossem qualidades a serem reprimidas, ou vomitadas na sua negação, na porrada ou na bala.

Não é possível fugir de si mesmo. Quando despertei, lembrei que vivo num país em que mais da metade da seleção de futebol masculina que jogou a última Copa do Mundo foi formada por homens criados apenas pelas mães. Pensei na força e na potência daquelas minas, e nas merdas que saem do bueiro dessa masculinidade tóxica que está aí.

É evidente que não devo dizer que "toda mulher é assim" ou "todo o homem é assado". Posso dizer, isso sim, que estamos prestes a levar a brutalidade, o cinismo e a reafirmação das nossas mais profundas dominações, desigualdades e violências ao nosso cargo político mais importante. E que são milhões de mulheres e seu arsenal de potência Humana, de crítica, resistência e criação, que lideram as fileiras para evitar que isso aconteça.

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Abrir as gaiolas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na minha cabeça, a liberdade era o assunto do momento. O Sol estava alto, mas o meu corpo pedia mesmo era um café. Pássaros voavam livremente num céu de brigadeiro. Perto da padaria, uma loja tipo “agro é pop” expunha mudinhas bonitas e variadas na calçada.

As mudas e a vida a crescer... Ah, divagante, presta atenção! Assim a gritaria de um monte de passarinhos me bateu de frente. Eram muitos, enjaulados, debatendo-se nas suas minúsculas celas, isolados da imensidão que só suas asas livres podem percorrer com a bênção da natureza. Estavam à venda. À venda!

Viajei longe. Um grande sociólogo francês dizia que a emancipação humana na modernidade passa pela psicanálise, por um lado, pra nos mostrar as pulsões inconscientes que nos atormentam; do outro lado, a socioanálise (Sociologia na veia) poderia deflagrar os imperativos sociais que nos constrangem e condicionam nossas práticas.

Tenho vivido ambas as sugestões e, de fato, são caminhos relevantes. Porém, começo a achar que são insuficientes. Como os animais encaixotados me fizeram pensar, logo os bichinhos que mais representam a liberdade, um corpo tolhido ao extremo parece aprisionar nosso ser, limitar demais a nossa existência.

O corpo é um operador analógico das nossas histórias. E tem sido, na cultura ocidental, pelo menos, mais um problema, um tabu, do que uma dádiva. Não sei qual é o caminho, nem o sentido que liberta cada um. Mas eu é que não me sento, no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

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terça-feira, 29 de maio de 2018

Crônica da Caixa de Pandora

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No Brasil continental, cheio de águas e perfeito para ferrovias, mas refém das estradas e do petróleo, durante o caos alguém viraliza nas redes sociais: “Abriram a Caixa de Pandora!”.

Do lado direito, bem na ponta, dedos nervosos distribuem suas verdades incontestáveis, recebidas no grupo da família, em perfeito português: “Tanbén, Pandora é uma puta comunista, tem mais é que arregassar a Caixa dela e cagar ela à pal!”.

Ainda à direita, menos na ponta, o tom é acadêmico: “Pandora interveio demais na Caixa, tem que deixar a Caixa se autorregular que tudo acaba livre e justo”.

Há também os dedos ativos à esquerda. Bem na ponta (a ponta que não é ponta, porque ponta é uma construção social e, assim, deve-se desconstruir a ponta), a avaliação é lacradora: “Pandora, no fundo, adora passar pano pra essa cambada toda, ela não joga no nosso time. Eu avisei”.

Como tendo ao canhotismo, sigo atento, agora à ponta esquerda tradicional: “Pandora precisa organizar a Caixa, falta a ela uma vanguarda esclarecida, capaz de conscientizá-la para a Revolução”.

Tem a turma do deixa-disso, os legalistas da época em que uma gambiarra mantinha a Caixa fechada, ou quem se atira no raso e aplaude o circo pegar fogo – a Caixa, no caso.

Nessa confusão toda, só não podem faltar os dedos ativos e os corpos curvados, focados no espelho preto dos dispositivos, reservatório das nossas próprias mazelas.

Pandora, por si só, não deixa por menos: abre mesmo a Caixa, fiel a sua curiosidade. Os males do mundo se debatem. Só a esperança permanece presa. O fogo consome a civilização. Segue o baile. Os de cima, sobem. Já os de baixo, se deixar, vão descer mais e mais.

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