ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Os livros resistem

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Talvez o meu objeto preferido seja o livro. Todos temos objetos que amamos. Uns amam seu telefone. Outros, suas roupas. Alguns amam raquetes, bolas, pranchas. Entre outras poucas coisas, gosto muito de livros.

O Brasil é ruim pra quem gosta de livros. Vários são caros. Duas das maiores redes de livrarias do país pedem socorro judicial, nesses tempos de armas e ódios. Grandes e pequenas editoras balançam. E a nação que só costuma "ler" best-seller, autoajuda ou "gurus fanáticos" não parece se importar muito.

A leitura é fundamental na minha vida. Embora desconfie que se esteja lendo muito pouco, até nas universidades, digo aos meus alunos que os livros são como janelas que podemos abrir e enxergar o mundo e nossa relação com ele. Abrindo essas janelas, podemos conhecer mais, podemos nos emocionar, embravecer, estimular e, sim, sonhar e agir.

Livros, em geral, são mercadorias. Assim, estão envoltos em relações de poder. As ofertas dependem das demandas. Em dias sombrios, censuras de todos os tipos costumam se abater sobre muitos deles. Diversos já foram queimados aos berros ensandecidos de pessoas que nunca sequer os leram. Nesses ocasos da História, os livros mais perniciosos costumam ser aqueles que revelam, denunciam e mobilizam contra a tirania, a injustiça e as dominações.

São esses os mais belos livros. Esses e aqueles que contam histórias que nos fazem entender ou romper nossos próprios desejos, que nos afetam e nos fazem compartilhar afetos. Que nos fazem rir e chorar. Penso que resistir à barbárie também é fomentar pequenas editoras e livrarias. Fomentar a troca e o empréstimo de livros significativos. Espalhar livros e utopias. Quem puder, que o faça - pois bem sabemos que os armamentistas, no fundo, temem as palavras.
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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Norbert Elias e o processo civilizador


O intelectual alemão Norbert Elias (saiba mais) transita por diversas áreas das ciências humanas e sociais. Pelo menos na história e na sociologia, seu espaço está garantido como um dos principais pensadores do século 20. Muitas das suas obras marcaram o pensamento social contemporâneo, mas foram, sobretudo, os dois volumes denominados “O processo civilizador” que deram um destaque bastante abrangente ao autor. Abaixo encontra-se uma resenha Norbert Elias [Imagem retirada do sítio http://politikon.fr/wp-content/uploads/2012/12/norbert-elias.jpg]sobre o primeiro dos dois livros, cuja elaboração foi realizada em conjunto por Bernardo Caprara e Janine Prandini Silveira.
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Nem sempre garfos foram utilizados à mesa na sociedade ocidental. O lenço difundiu-se com vasta abrangência pelos estratos da sociedade somente por volta do século XVIII. Até então, como os indivíduos faziam para limpar bocas e narizes? E como eram suas condutas à mesa? Dessas e outras questões aparentemente irrelevantes, o sociólogo alemão Norbert Elias consegue extrair sentido ao abordá-las sob um enfoque analítico longitudinal, isto é, procurando o sentido das minúcias dos hábitos cotidianos da civilização ocidental no curso da história. O problema de que trata Elias em “O processo civilizador”, cuja primeira edição data de 1939, parte da percepção de que os indivíduos ocidentais nem sempre se comportaram da maneira que chamamos de “civilizada”. Por que aconteceu essa transformação nas condutas dos seres humanos? O que versa esse tal processo civilizador? Como ele acontece? Nesse livro, Elias nos fornece algumas respostas a essas questões.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A apologia e as formigas

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há alguns dias, algumas pessoas têm me dito que o problema maior do Brasil é a “apologia” da homossexualidade, do feminismo e da divisão da sociedade em “raças”.

Há alguns dias, formou-se uma rota de formigas, no pátio de casa. Lá vão elas, sem parar, pra lá e pra cá, organizadamente, carregando pedaços de folhas e flores enormes para o seu tamanho.

Apologia é um discurso que defende, justifica ou elogia alguma coisa. Os dois exemplos recorrentes do tal problema principal do país falavam sobre as manifestações em público de amor e carinho de pessoas do mesmo sexo e da liberdade corporal das mulheres.

Ora, essas pessoas não se importavam nem um pouco, quando perguntadas, a respeito da “apologia” da matança, da tortura e do autoritarismo, tão presente nos últimos tempos. Para isso, elas diziam: “é da boca pra fora, são brincadeiras”.

Quer dizer, então, que o amor e o carinho, a liberdade e autonomia das minas pra lidar com seu próprio corpo, a defesa e o elogio da cultura e da história negra, tudo isso são problemas sociais graves – mas a defesa e o elogio da morte de opositores e da violência como plataforma política são apenas bravatas engraçadinhas?

Acho que o vaivém das formigas, sobre o solo árido e pedregoso, de aparência tão insignificante, soa bem pedagógico: a tarefa é pesada, mas só com organização, disposição e persistência será possível cumpri-la.

Passo a passo, levando a semente para desarmar o ódio e construir uma sociedade que se paute pela comunhão, pela solidariedade, pela pluralidade, pela liberdade e igualdade para todos.

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