ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

quarta-feira, 20 de março de 2013

D’Ale 200 ou “nem tudo está perdido”


Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

Nem tudo está perdido. Algumas coisas ainda fazem da vida a boniteza que ela é. Até mesmo umas pequenas, sem grandes expressões sociais ou coletivas. Mesmo em segundo plano, comparadas às amplas questões da realidade contemporânea, algumas decisões de cunho quase insignificante demonstram o que verdadeiramente a vida tem a oferecer. Quando D’Alessandro completou 200 jogos pelo Inter no domingo passado, pensei numa dessas ilustrativas coisas miúdas.

D’Ale esteve com a talentosa canhota prestes a pisar na China há quase um ano. Viver nestes dias em que a competição e o dinheiro empolgam tanto, a ponto de constituírem a naturalidade das relações sociais básicas, definitivamente não é uma aventura fácil de embarcar. Na época em que um dos melhores meias que vi jogar precisava fazer a opção de abraçar ou não os milhões e milhões de dólares insinuados pelos asiáticos, quase sem nenhum eco imaginei o gringo tomando a decisão de ficar.

Desejava indagar calorosamente ao D’Ale: “tu achas uma trilha vantajosa abandonar toda uma relação estabelecida com uma cidade, a admiração de uma torcida, de um clube, seus funcionários, colegas de trabalho, colegas de escola dos filhos, vizinhos, enfim, além da proximidade da sua terra natal, uma gama de afinidades para se atirar numa cruzada em território desconhecido? Os ganhos econômicos superam o reconhecimento, a liderança e a veneração que tu engendras na multidão colorada, as alegrias decorrentes dessa forte identificação”?

A decisão que D’Ale tinha que tomar não envolvia os elementos falta de dinheiro, dificuldades de sobrevivência ou variantes disso. Ele já estava e agora está ainda mais resolvido economicamente, sejamos francos e realistas. Também resolveu o futuro dos seus filhos, se fizer deles pessoas que não colocam o dinheiro num altar e se submetem aos seus ditames inapeláveis sem interferir no mundo do trabalho. No fundo, trata-se de uma decisão tangenciada por uma escolha de vida, de um caminho a seguir, de uma interpretação da realidade que nos cerca e contribui na nossa formatação singular e coletiva.

Muitos dirão que essa abordagem do assunto é utópica e fora do seu tempo (quase ingênua!). Pode ser que seja verdade. Gosto da palavra utopia. Ela não me passa uma sensação de que jamais vou conseguir algo; pelo contrário, ela sugere que tentar é importante, porque há esperança, sempre há esperança de fazer aquilo que acreditamos. Mesmo que esteja bastante longe. Mesmo que tudo pareça perdido, está explícito que ainda vale acreditar na existência de algo importante além do dinheiro. O camisa 10 ficou. Um salve aos 200 jogos do D’Alessandro.
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terça-feira, 19 de março de 2013

Murar o medo, por Mia Couto


O escritor moçambicano Mia Couto (saiba mais), habilidoso com as palavras e muito fértil com a imaginação, também possui uma sensibilidade grande relacionada aos acontecimentos da vida cotidiana. A reflexão abaixo pode despertar bons questionamentos, boas críticas e, ainda, boas problematizações acerca daMia Couto (Imagem retirada do sítio http://blog.ftc.br/comunicacao/wp-content/uploads/2011/08/Mia-Couto.jpg) construção e da consolidação de uma espécie de sentido imaginário hegemônico do medo.

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

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