ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Quem se importa?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A semana vinha bem. Tatuagem nova, homenagem dos formandos, abraços fraternos, proximidade das férias. Até que a morte bateu à porta. Provável suicídio. Uma amiga distante, doutoranda numa universidade estrangeira. Logo ela, a legítima expressão do Brasil praieiro: chiado na fala, gingado, energia e alegria no DNA.

A vida é mesmo um sopro. Difícil. Agora eu tomo um café, fugindo da solidão do apartamento. Olho ao meu redor as pessoas que passam e que ficam. Crianças e suas vidas ainda por fazer; jovens adultos e suas carteiras vazias; adultos nem tão jovens e seus cartões de crédito; velhos adultos e a nostalgia de um mundo que já passou.

Seguro as lágrimas no osso. Por quê? Não quero chamar a atenção. Não quero parecer fragilizado. Por quê? Quem se importa? Penso nos incontáveis trabalhadores que me cercam nesse instante. Em seus ofícios precarizados e seus salários minúsculos. No seu tempo desperdiçado servindo, e servindo, e servindo. Suportando a servidão. Vendo a vida passar em troca de migalhas, para garantir ao menos a sobrevivência. Precária existência.

Mas, na real, alguém se importa? Quem se importa se a aluna do doutorado não segurou a onda, seja qual for essa onda? Quem se importa se eu ou você não aguentarmos a pressão? Quem se importa com as olheiras da empacotadora no supermercado? Com o olhar perdido do cozinheiro no restaurante e da vendedora na loja? Quem se importa se eles ou elas comem mal, dormem mal e vivem mal, tendo ou não recursos básicos? Quem se importa se as pessoas estão se rasgando por dentro, cuspindo as entranhas desses rasgos umas para as outras?

Difícil saber. Agora eu escrevo. Travo. Não quero escrever autoajuda. Foda-se. Escrevo porque me acalma. Desculpa aí, também detesto autoajuda. Escrevo para expressar. Escrevo pela memória de quem se foi tão cedo. Porque não dá mais pra apontar o barco para o horizonte e seguir impávido frente ao lixo que faz do oceano uma sólida imensidão vazia de significado.

Mas, afinal, quem se importa?

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sábado, 25 de novembro de 2017

O encontro

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Dia desses, eu encontrei um grande amigo. Era um cara muito íntimo, mas que fazia mais de dez anos eu não encontrava. A intimidade era tanta que ele foi logo falando de si. Desatou a falar sobre como estava se sentindo nos últimos tempos.

Percebi rápido que se tratava de um desabafo. Meu amigo relatou que na última década havia focado boa parte da sua vida para resolver questões “externas e objetivas”. Como tivera dificuldades financeiras na infância e na adolescência, disse que botara na cabeça com todas as forças a necessidade de terminar a sua formação acadêmica e conseguir um bom emprego.

Ele seguiu contando. Falou dos primeiros trabalhos na sua área, das inseguranças, dos desafios e dos afetos e alegrias que cultivou. Falou de quando passou no primeiro concurso público, que embora não pagasse muito bem, simbolizara uma vitória importante. Contou de quando passou no segundo concurso, e como, aí sim, sua vida material melhorara.

Tudo parecia bem, mas eu sentia que a coisa não terminava naquele ponto da história. Meu amigo seguiu a narrativa relatando os dois maiores sucessos da sua vida “exterior e objetiva”: o concurso que o levara ao ofício de agora, o auge da sua carreira, ainda que numa cidade distante; e o término da sua formação intelectual, a conquista do mais alto grau acadêmico.

De repente, ele me olhou febril e os seus olhos lhe revelaram por inteiro. Ele estava “nu”. Depois de um abraço espontâneo, tentei mudar o rumo da conversa, falar sobre o mundo e o ódio que se espalha por todos os cantos. Sei lá, foi o que me surgiu naquele instante, uma espécie de “papo de elevador” com tintas críticas.

Obstinado, ele me disse: “É, irmão... nesse furacão todo, quando o desespero geral me pegou, quando tudo balançou e o colapso se aproximou, eu sobrei sozinho, precisando me descobrir”. E, então, veio o arremate: “Se eu quiser ajudar as pessoas, eu preciso me encontrar".

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