ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Conflitos no Brasil: disposições e moralidade


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Todos os dias, querendo ou não, temos algum tipo de obrigação que nos faz correr atrás de alguma coisa. Em geral, precisamos trabalhar para ter acesso a bens e recursos escassos. Podemos dizer que o capital econômico é uma espécie de “trunfo” nos “jogos sociais” cotidianos. Comer bem, viajar, ter conforto em casa, poder desfrutar de práticas esportivas e culturais, todas são atividades que, mais ou menos, estão ligadas a níveis mínimos de satisfação do capital econômico. Renda e patrimônio possibilitam o desenvolvimento de uma vida bastante autônoma e com muitos privilégios. A vida na pobreza é o inverso. O Brasil é um país muito desigual quanto à distribuição do capital econômico. Uma pequena classe de pessoas concentra volumes altíssimos de riqueza material, e uma enorme parcela da população vive à míngua.

Se apenas o capital econômico importasse, bastaria desconcentrá-lo, distribuí-lo melhor. Isso é fundamental e precisa ser feito, mas não é o único “trunfo” disponível. É o caso de lembrar aquelas ocasiões em que conhecemos pessoas com muita grana e pouco acesso a bens culturais. Em sociedades complexas como a nossa, cujo fluxo de informação e conhecimento é muito intenso, rápido e especializado, o capital cultural emerge como um “trunfo” tão importante e objetivo quanto o econômico. O capital cultural se define pela familiaridade com a cultura dominante, no nosso caso com a leitura e a escrita, a música, as artes plásticas e cênicas, a literatura e a filosofia. Esse capital se manifesta de três formas entrelaçadas: uma forma objetiva, através da posse de bens culturais, como quadros, discos, livros e etc.; uma forma institucionalizada, que é representada pela alta escolaridade, a posse de “títulos acadêmicos”; e uma forma incorporada, que se manifesta na familiaridade que a pessoa demonstra em meios culturais como teatros, museus, quanto ao conhecimento dos grandes filmes e diretores, dos grandes romancistas e teóricos.

A forma incorporada do capital cultural é determinante nas nossas vidas e, muitas vezes, passa completamente despercebida. Incorporar a cultura dominante significa mediar a objetividade do mundo exterior com a produção da nossa individualidade. Isso formata a maneira como iremos agir diante das diferentes situações que enfrentamos desde crianças, disposições duráveis mais ou menos abertas, que nos fazem agir desse ou daquele jeito. Essas disposições têm íntimas relações com o volume e o tipo de capitais que possuímos, revelando prováveis homologias entre condições de existência e práticas culturais. As lutas simbólicas são reconfigurações das lutas sociais objetivas que classificam e desclassificam as pessoas de acordo com as “regras do jogo”, nas quais os “trunfos” entram em cena e instrumentalizam as disputas.

Duas perguntas se impõem: quais as regras do “jogo” e por qual razão, muitas vezes, as classes vulneráveis (com menor acesso aos capitais) defendem “valores” que favorecem as classes abastadas? As regras do “jogo”, na verdade, revelam o conteúdo moral que compõe as sociedades modernas. Nossos valores morais derivam, ao menos em parte, da transformação ocorrida no cristianismo desde a Reforma Protestante. A ideia dominante de “dignidade” repousa sob o cidadão que carrega e executa a ética do trabalho produtivo, que organiza o presente planejando o futuro, que racionaliza suas tarefas e atividades, que é autocentrado e controla as suas emoções. Essa “dignidade” se associa ao que poderíamos chamar de um “consenso transclassista” que operacionaliza nossas concepções morais. Cobramos uns dos outros que não sejamos “vadios” (esforço e dedicação levariam ao mérito), que nos organizemos, que nos controlemos, justificando isso tudo porque assim se fortaleceria a igualdade formal entre todos e, ao mesmo tempo, a possibilidade de sermos nós mesmos, enquanto indivíduos autônomos.

Só que o consenso moral que nos atravessa culpabiliza o indivíduo por fracassos que têm raízes relacionais e coletivas, martelando na tecla da meritocracia sem que a igualdade formal seja efetivada na prática, o que não deixa de ser contraditório. Assim, ficam nebulosas as relações de desigualdade entre cada um de nós, sobretudo no tipo e no volume dos “trunfos” que uns possuem muito mais do que os outros. A posse e a incorporação precária desses “trunfos” fragiliza o desenvolvimento das disposições exigidas para a vida nas modernas sociedades ocidentais. Cobra-se um tipo específico de dignidade do vizinho ou do cidadão comum, sob o manto da “lei que é igual para todos”, mas negligencia-se que a dinâmica social e as nossas ações produzem e reproduzem o tempo inteiro as mesmas segregações e privilégios. A combinação entre disposições precárias para a competição social (vinculadas à ausência de recursos básicos) e um consenso moral que se apoia numa igualdade formal não efetivada parece constituir um dos nossos mais graves problemas. 

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Resistir ao ódio

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na última quinta-feira, voltava da universidade em que trabalho, num ônibus de linha, junto com alunos e alunas. Cansado, consegui um banco para sentar, apesar de o coletivo partir bastante cheio do campus. No meio da viagem, dois rapazes sentados no banco à minha frente se mostravam um meme qualquer. Eram dois homens, brancos, entre os 30 e 40 anos. Olhavam rindo para alguns alunos localizados na parte da frente do ônibus, que conversavam alto sobre os textos que haviam lido na semana. Olhavam rindo e cochichavam alguma coisa.

De relance, sem querer, vi a frase final que estampava o meme no celular de um dos dois homens brancos: era o sobrenome de um pré-candidato à Presidência da República, cuja plataforma mobiliza o ódio contra negros, homossexuais, defensores dos direitos humanos e etc. Ao lado desse sobrenome, havia “2018 neles!”. A cena seguiu por mais algum tempo: olhavam para os estudantes de humanas, para o meme e gargalhavam e cochichavam. Aquilo me deixou nauseado, profundamente incomodado. Lembrei alguns alunos que passaram pelas minhas aulas, nas diferentes instituições que lecionei. Lembrei aqueles que faziam piadas grosseiras contra mulheres, gays e negros, e como se deixavam seduzir pela retórica do ódio, pela simbologia nazifascista e seus derivados.

Parece que caminhamos para uma nova encruzilhada histórica, porque tudo indica que estavam certos pensadores como Adorno e Foucault, por exemplo, quando alertavam para a persistência da semente fascista no “capitalismo democrático” ou na “pós-modernidade”. De fato, com fanáticos de extrema-direita, organizados em movimentos terroristas, o diálogo precisa dar lugar à resistência. Porém, com jovens que a tudo querem “zoar”, muitas vezes imersos em condições de vida degradantes, o diálogo paciente, a conversa atenta, a apresentação de outros caminhos e símbolos, todo um trabalho de base pode ajudar a quebrar a reprodução da barbárie. Mesmo assim, se a exploração do trabalho seguir na toada neoliberal e a vida perder de vez qualquer sentido, vai ser difícil superar o “inverno” que já é realidade.

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