ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

quinta-feira, 3 de março de 2022

As teorias de Relações Internacionais (RI) e a guerra na Ucrânia

Por Guilherme Casarões
Professor FGV-EAESP

No fio (Twitter @GCasaroes, 20/02), farei uma leitura básica, para leigos, de como as diferentes abordagens teóricas respondem à seguinte pergunta: por que a Rússia decidiu invadir a Ucrânia?

1) A pobreza do debate em torno da invasão russa da Ucrânia reflete, em parte, certas incompreensões conceituais básicas: Estado x povo, poder x democracia, indivíduo x governo. Quem lida por ofício com RI (professores, analistas, diplomatas) têm que ter esses conceitos claros.

2) Para início de conversa, não há uma "teoria geral" das RI. São várias vertentes que buscam dar conta das complexidades do mundo a partir de elementos diferentes. Toda teoria é uma simplificação da realidade que nos ajuda a descrever, explicar, prever e prescrever sobre o mundo.

3) A teoria de RI mais conhecida é o realismo. É a preferida dos pessimistas, que olham para a "vida como ela é" e que pensam o mundo a partir do egoísmo humano. Realistas basicamente enxergam um sistema internacional feito de Estados em permanente luta por poder e influência diante de um mundo onde prevalece a lei do mais forte. Para sobreviver, Estados precisam acumular poder. A busca da própria segurança causa insegurança nos outros. A consequência é o conflito e, se tudo der certo, algum equilíbrio de poder. Não há paz fora do equilíbrio.

4) Para realistas, a principal marca do mundo pós-Guerra Fria é a consolidação da hegemonia dos EUA. Eles expandiram sua presença militar pelo mundo, inclusive pela OTAN; promoveram mudanças de regimes em países hostis e nenhum país do mundo tinha poder ou interesse em pará-los.

5) Realistas, portanto, veem a Rússia como um país que declinou após o fim da Guerra Fria e que se sente insegura em suas fronteiras, graças à expansão (militar, econômica, cultural) dos EUA. Putin, nessa interpretação, busca limitar a ação norte-americana em regiões sensíveis aos interesses russos, como Cáucaso, Oriente Médio e Leste Europeu. Por isso as ações militares na Geórgia (2008), na Síria (2011) e na Ucrânia (2014). E agora de novo. Mas a Rússia estaria querendo garantir sua segurança, não causar uma guerra nuclear ou um genocídio.

6) No conflito entre Rússia e EUA-OTAN, o "endgame" de Putin é neutralizar a Ucrânia. Desmilitarizá-la e colocar um governo aliado da Rússia. É injusto com os ucranianos e vai contra suas aspirações nacionais e democráticas? Claro, mas é o que garante a estabilidade da região.
 
7) Viralizou um vídeo de John Mearsheimer, conhecido realista e professor da Universidade de Chicago. Deixo aqui o vídeo completo da sua aula, em que ele explica por que, do ponto de vista do realismo, a instabilidade da Ucrânia foi provocada pelo ocidente: https://youtu.be/JrMiSQAGOS4
 
8) Outra conhecida teoria é o liberalismo. Liberais costumam ser otimistas, pois acreditam no potencial do indivíduo e no progresso humano. Eles são entusiasmados com o avanço da democracia, do direito internacional e do livre comércio. Acham que paz e prosperidade virão disso.

9) Existem várias correntes liberais em RI, cada uma com suas peculiaridades. Em geral, percebem o mundo para além dos Estados: esse sistema internacional é feito de múltiplas redes interconectadas de governos, empresas, ONGs, grupos transnacionais, sociedades e indivíduos. 

10) Para liberais, a grande mudança (positiva) do pós-Guerra Fria foi a aceleração da globalização e a expansão da democracia. Ditaduras renitentes seriam derrubadas pelo capitalismo, por eleições ou pela força. O "mundo livre" poderia nos levar à paz perpétua em pouco tempo. 

11) Desde 2008, pelo menos, liberais estão cada vez mais preocupados com algumas tendências globais. A democracia estagnou e está se fragilizando em vários países, inclusive no ocidente; a globalização produziu descontentamentos políticos e econômicos; autocracias, dadas como fadadas ao fracasso, estão mais fortes que nunca. 

12) O retorno dos nacionalismos e o enfraquecimento da cooperação multilateral e da integração regional (Brexit) dão a medida do pesadelo atual dos liberais. Putin, nesse sentido, é mais um tirano que quer subverter os pilares da democracia liberal. Reprime seus próprios cidadãos, alia-se a outras ditaduras, como China, e usa sua máquina cibernética para fraudar eleições no ocidente. P/evitar que os ventos da liberdade (UE-OTAN) cheguem à Ucrânia, atropela o país vizinho e sufoca seu povo.

13) Para liberais, nesse conflito global entre democracias e autocracias, o objetivo de Putin é demonstrar sua força contra as democracias ocidentais, usando a Ucrânia como laboratório para o nascimento de um autocrata pró-Rússia, como ocorre em Belarus e no centro da Ásia. 

14) A maioria da cobertura midiática (e tuiteira) olha p/o problema pelas lentes liberais. Por isso mesmo, a guerra virou uma questão de tirania x liberdade, do Estado x indivíduos. A tragédia só acabará quando Putin, Xi e outros ditadores forem derrotados.

15) Por fim, outra teoria muito conhecida é o construtivismo. Ela percebe o mundo não a partir do poder, como realistas, ou do indivíduo, como os liberais, mas pelas identidades. Países e sociedades vão construindo narrativas e imagens de si próprios e dos outros, compondo esse panorama complexo das relações internacionais. 

16) Construtivistas levam em conta aspectos culturais, históricos e discursivos p/compreender, p.ex, por que certos países são amigos e outros são rivais, mesmo quando elementos como poder ou democracia sugeririam o contrário. 

17) Para construtivistas, o mundo do pós-Guerra Fria foi marcado por uma transformação de identidades. Antes, países se uniam por afinidades ideológicas, capitalismo ou comunismo. Depois, outras identidades começaram a ganhar força: religião, cultura e história foram usadas para redesenhar o mapa do mundo a partir de novos alinhamentos. 

18) Quem aqui nunca ouviu falar na famigerada tese de Samuel Huntington sobre o "choque de civilizações"? Essa é uma aplicação, ainda que controversa e problemática, do argumento construtivista, na medida em que se defende que novos padrões de interação entre países decorrem de novas identidades. 

19) Pois bem: nesse mundo em que impérios parecem ressurgir (ao lado do império americano, temos o chinês, o russo, o hindu, o otomano), cada um deles quer defender seu espaço civilizacional num esforço para transformar o mundo num conjunto de civilizações lideradas por impérios, em que valores culturais e religiosos próprios prevaleçam. 

20) O construtivismo, nessa chave, ilumina por que noções como cristianismo x islã, ocidente x oriente voltaram à ordem do dia. Putin seria mais que um ditador contra a democracia: seu projeto é de reconstruir o império russo a partir da identidade eslava e do cristianismo ortodoxo, tendo ele como czar pós-moderno. Para isso, precisa solapar as bases da atual ordem internacional, que se baseia em valores liberais e cosmopolitas, em que temas como democracia e dir.humanos são centrais. A estranha proximidade entre Trump, Bolsonaro, Putin, Orbán e Modi, entre outros, se explica por esse antagonismo à ordem vigente - e o gosto pela civilização.

21) Poderia passar o carnaval inteiro falando disso. Mas queria deixar 3 pontos fundamentais dessa longa introdução sobre teorias de RI: - Conceitos diferentes levam a distintas percepções sobre a realidade. O entendimento do mundo depende da compreensão dos conceitos em jogo.

22) Não existe teoria absolutamente certa ou errada. Cada uma delas informa motivações e dinâmicas a partir das variáveis utilizadas. A gente escolhe qual teoria abraçar a partir de nossas afinidades éticas, ideológicas, intelectuais.

23) As decisões políticas também são tomadas, às vezes de maneira inconsciente, com base nessas simplificações teórico-filosóficas. Enquanto não houver uma discussão franca sobre como os principais atores envolvidos veem o mundo, qualquer solução será praticamente impossível.
 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Suco de Brasil

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Era só para ser uma ida habitual até a rodoviária. Lá chegando, eu embarcaria num ônibus que, apesar de caro, anda bem precarizado. Mas isso é assunto para outro dia. O fato de se pagar um quarto de milha para não ter um ponto de recarga da bateria do celular no ônibus eu não vou criticar hoje. Dessa vez, foi o trajeto até começar a viagem que me assombrou.

No transporte por aplicativo, após aparentar certa dúvida se aceitaria a corrida, o motorista apontou no horizonte da rua. Observei que ele parou há uns 500 metros da minha casa. Fiquei acenando de longe. Nada. Mandei mensagem pelo celular e ele rabiscou um "ok". Ficou mais um pouco parado. Eu acenava de longe e ele nada. Mais um pouco e nada. Quando achei que desistiria, ele arrancou na minha direção.

Entrei meio contrariado no carro, mas cumprimentei o rapaz com educação. Ele respondeu também educado e disse que havia parado ali antes para anotar o telefone de uma casa que estava para alugar. Isso porque o proprietário da casa em que ele vive, duas quadras ali para trás, segundo ele, tinha anunciado o aumento de 400 reais no aluguel. "400 reais!", esbravejou, completando: "Como eu vou fazer pra pagar isso?!".

Eu olhei para ele e disse que isso era foda, que há poucos meses o meu aluguel também havia aumentado, ainda que menos que o dele, e que isso fodia o cara. Também contei que ontem mesmo um amigo reclamava da mesma coisa: o aumento abusivo dos aluguéis. O homem foi ganhando uma eloquência desanimada e manifestando as dificuldades que teria dali para frente. Dizia que a mulher pensava em voltar para o interior, de onde eles haviam vindo. Que ali naquela região era bom porque a escola estadual em que o filho estudava era perto e a firma dos trampos deles também. Que ali podiam de vez em quando pegar uma praia e ter alguma qualidade de vida. Que quando chegou na Ilha morou no morro da Costeira, e que tinha uma vista animal. Mas que era um perrengue só. E que era foda que a família, quando veio visitar eles, ficou dizendo que aquilo era um barraco e que eles estavam na merda: "Isso machuca, né!".

Eu fui concordando e mais ouvindo do que falando qualquer coisa. A minha vontade era dizer que essa bosta desse país tomado por milicianos genocidas só faz é foder a vida da classe trabalhadora e que para quem vive de rendas e dividendos a coisa tá uma Disney. Não foi preciso. Ele começou a falar do dono do imóvel que ele e a família vivem. "Todos os oito apartamentinhos ali são dele, e também mais oito perto da Lagoa e mais uma casa avaliada em 10 milhões bem pro sul da Ilha". Arrematou dizendo: "E o cara vem me dizer que se ele não aumentar 400 reais vai ficar ruim pra ele! Pra ele! Que é militar reformado e ganha mais de 30 mil por mês e tem tudo isso aí que eu falei!".

É foda. Isso aqui virou uma festa da galera que tem tudo, e o purgatório de quem tá na correria. Quando desci na rodoviária e fui tirar a passagem impressa, a atendente me lembrou de outro problema dessa nação cujo projeto de arcaísmo concentrador de oportunidades não cansa de dar certo. Com a minha identidade nas mãos, ela não conseguia achar a passagem no sistema. Fiquei preocupado, num primeiro momento. Depois percebi que ela não conseguia escrever meu primeiro nome corretamente, por isso não o achava na lista dos passageiros. Quando achou, procurando nome por nome na lista geral, errou por diversas vezes o código da minha vaga no busão. Havia ali uma dificuldade muito grande em lidar com o universo letrado, marca de uma sociedade que despreza a educação.

Já quase na hora de embarcar, pedi um café para dois jovens de um dos bares da rodoviária. Enquanto serviam, um dizia que o outro não poderia deixar a filha "se crescer pra cima dele", e que era melhor ele tomar conta da situação agora do que "tomar na cara depois". Fiquei ouvindo sem demonstrar interesse. O jovem que dava a entender uma grande experiência de vida, incompatível com sua nítida pouca idade, agora perguntava se o outro sabia que existia uma "bosta de uma lei ridícula que não deixa mais os pais baterem nos filhos". Ao que emendava, indignado: "não pode bater nos próprios filhos! Nos próprios filhos!". Eu só posso dizer que esse puro suco dessa máquina de moer gentes que é o Brasil me desceu quadrado antes de ir trabalhar.