ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

sábado, 9 de novembro de 2013

A vida é mesmo um sopro

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A vida é um sopro, dizia o velho Niemeyer. Um movimento de chegadas e partidas. Encontros e despedidas. Uma obra de arte, pintada de alegrias e tristezas. Se for isso mesmo, é muito intenso. Um sopro feito de furacões. Quando alguém querido se vai, como suportar? Como explicar o inexplicável? Quais as razões do imponderável, de uma partida absurdamente precipitada?

Não dá pra responder. As palavras ficam vazias. As lágrimas doem. Pesam demais. Por mais que possa parecer o contrário, se tem algo concreto nesse mundo, esse algo é o amor. Como podem alguns deixá-lo para trás, atribuindo valor ao que só tem um valor ilusório? Sei lá. Agora não importa. O corpo se vai. O amor fica. A vida é mesmo um sopro.

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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Filosofia Tiranossauro Rex

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma das iniciativas menos proveitosas do momento reside em acompanhar comentários de grandes portais na internet. Que baita merda enveredar nessa tarefa. Outra: ler os editoriais dos jornalões tradicionais. Que asco!

Parece haver uma espécie de Filosofia Tiranossauro Rex perpassando os conteúdos expostos nesses locais. Um “pega, mata e come” (pós)moderno. Uma ode aos de cima, um desprezo aos de baixo. Não há relações entre acontecimentos. Não há passado, origens ou sequências prévias conectadas ao aqui e agora. Há – isso sim – muita raiva, rancor, vingança, imediatismo, irreflexão, elitismo e simplismo nos ditos argumentos. Intolerância aos borbotões.

Diz uma música do Jorge Ben Jor: “Que pra acabar com a malandragem, tem que prender e comer todos otários...”. Talvez nos tempos dos dinossauros essa fosse a regra. Esse tempo já se foi. O Código de Hamurabi ficou pra trás. Será mesmo?

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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quem vai salvar quem?


O episódio envolvendo ativistas contrários ao uso de animais em testes científicos levantou bastante polêmica. Por um lado, aqueles que defendem que animais sentem dor, portanto a humanidade não pode dispor deles para avançar na ciência. De outro, aqueles que dizem que os humanos estão acima dos animais naImagem retirada do sítio http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,coisas-que-eu-queria-saber-aos-21-sidarta-ribeiro,790164,0.htm lógica da vida. O Professor Titular de Neurociência da UFRN, Sidarta Ribeiro (saiba mais), discorre sobre o tema e amplia os horizontes da compreensão sobre o assunto. O texto está publicado no jornal Estadão.

No vórtex contestatório que levanta pessoas em todo o planeta, eis que chega ao Brasil a ira santa contra a experimentação animal. Ativistas invadem laboratórios e retiram cães, para desespero dos cientistas que pesquisavam remédios oncológicos com esses animais. Confrontam-se argumentos. Há ética em submeter beagles adoráveis à experimentação fria? Por outro lado, será ético criar cães em apartamentos minúsculos, permitindo que desenvolvam problemas renais por baixa frequência de micção e obesidade por falta de exercício? Os ativistas acham que os cientistas são uns animais e vice-versa, como se isso fosse a maior ofensa.

O tema é forte e mobiliza paixões. São inegáveis os avanços para a saúde humana obtidos graças à experimentação animal, tais como vacinas, antibióticos, transplantes e reconstituição de órgãos. Sem a vivissecção, seria hoje impossível seguir avançando nas pesquisas sobre câncer, aids e doenças degenerativas, entre muitas outras. Mas se a pesquisa científica é patrimônio da humanidade, não há quem não se compadeça de um cãozinho melancólico.

O momento é oportuno para questionar injustiças e olhar de frente a questão dos direitos dos animais. Em perspectiva, nosso sucesso como espécie depende há milhares de anos da exploração de outras formas de vida. Nossos ancestrais nômades aprenderam a extrair de outros seres vivos seus alimentos, remédios, vestuário e serviços variados, domesticando espécies e criando novas raças a serviço do bicho homem. Não é exagero dizer que, sem tal domínio de outros seres, não haveria civilização. Portanto, o uso dos animais pela ciência nos últimos séculos, seja para compreender a biologia ou para resolver problemas práticos das pessoas, se configurou num contexto em que animais são coisas.

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