ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O legado de Zumbi dos Palmares


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Poderia ser qualquer um. No caso, era ele. Nascido por aqui mesmo, de pele escura. Um rapaz comum. Com atenção, percebia o debate diante de si. Os argumentos principais defendiam a necessidade da valorização do Dia da Consciência Negra e da figura de Zumbi dos Palmares, assassinado em 20 de novembro de 1695. Ele mexia na barba. Pensava. O desdém de alguns na plateia simbolizava uma quase ofensa.

A controvérsia* girava em torno da presença de escravizados no interior do Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas, liderado por Zumbi no século XVII. Território de resistência dos negros escravizados que conseguiam escapar. “Lá tinha escravos!”, gritara um desconhecido. O debatedor explicava que o significado da escravidão entre as sociedades africanas era distinto. Representava uma sujeição ao domínio de outro ser humano, em virtude de guerras ou aprisionamentos. Porém, não era um sistema que transformava seres humanos em mercadorias e gerava acumulação de riquezas através do tráfico de gentes. A exploração não era renovada sistematicamente e não mantinha pessoas cativas de modo institucionalizado, numa categoria especial de subordinação.

Confuso, recordava a história do Brasil. Há 318 anos o Império Português degolara, mutilara, castrara, salgara e deixara em praça pública, no Recife, a cabeça de Francisco, então Zumbi dos Palmares. Durante meses, para servir de exemplo. Refletiu abismado: “Esse deve ter atazanado os senhores!”. Sentiu-se confiante. Mostrava-se possível enfrentar o racismo, resistir, contrapor a injustiça. Zumbi morrera, mas ainda hoje o seu legado ecoa em todos os cantos desse país. Sentiu um sopro de esperança. Vibrou orgulhoso por sentir-se mais negro. Seus antepassados não se deixaram escravizar sem oposição. Seguiu seu caminho, com um sorriso no rosto.

Poderia ser qualquer um. Nascido por aqui mesmo. Um rapaz comum, como eu. Mas eu tenho a pele clara, branca. Seja qual for o nível de ancestralidade africana presente na minha genética, eu o valorizo. Cerro os punhos por ele. Dobro-me em reverência à imagem de Zumbi. Imagem de luta e resistência a uma das maiores tragédias da história da humanidade.

* Não sou historiador, tampouco tenho talento para isso. No entanto, duas citações parecem importantes, no cenário das controvérsias acerca da escravidão entre os africanos e no Quilombo dos Palmares:

“Todas as situações de exploração existentes na África tradicional (...) não se constituem em sistemas escravistas, porque a exploração não era renovada sistematicamente e não suscitava uma categoria de indivíduos mantida institucionalmente (de fato ou de direito) em uma relação de subordinação. A escravidão como modo de exploração só pode existir se se constituir uma classe distinta de indivíduos com um mesmo estatuto social. Essa classe distinta, dita escrava, deve-se renovar de forma contínua e institucional, de tal modo que as funções a ela destinadas possam ser garantidas de maneira permanente e que as relações de exploração e a classe exploradora (senhores) que delas se beneficiam possam também se reconstituir regular e continuamente” (MUNANGA, 2006, p. 24).

“A escravidão produtiva era inviável em Palmares. (...) Não existiam em Palmares condições econômicas para a produção escravista. Os palmarinos viviam uma economia essencialmente natural. O uso da terra era livre. A produtividade da agricultura palmarina era baixa. O produtor palmarino garantiria escassamente seu sustento e produziria um magro excedente” (MAESTRI, 2002, p. 66).

Para maior aprofundamento na temática, recomendo os seguintes materiais:

MAESTRI, Mario. Benjamin Péret: um olhar heterodoxo sobre Palmares. In: PÉRET, Benjamin. O Quilombo dos Palmares. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2002.

MUNANGA, Kabengele. Para Entender o Negro no Brasil de Hoje: História, Realidades, Problemas e Caminhos. São Paulo: Ação Educativa, 2006.

Assim, não se esgotarão os debates, mas já se terá alguma referência sólida baseada em pesquisa documental e análise acadêmica.

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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Joãozinho e a República

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Joãozinho estava feliz, o feriado se aproximava. Não sabia a razão de uma folga geral como aquela, em plena sexta-feira. Curioso, resolveu descobrir. Perguntou aos familiares. A resposta foi lacônica: “É algum feriado político”. Joãozinho deu de ombros.

Faltavam cerca de 20 minutos para terminar a aula. O feriado iria começar, finalmente. A professora tentava explicar o conceito de República. Fazia a associação entre o feriado e a construção da República Brasileira, proclamada em 1889. “Essa é uma forma de governo que emana do povo, ou seja, surge das mãos da população”, insistia a docente, em meio ao caos instalado na sala de aula.

Caiu a ficha. Atento, Joãozinho entendeu os motivos da folga que estava quase chegando. Entendeu, mas não concordou com o conceito. “Lá na quebrada o poder não tá na mão da rapaziada, nem aqui na escola, nem em lugar nenhum que eu conheço!”. A reflexão do menino beirava a inocência juvenil.

Tocou o sinal. A gurizada se libertou com velocidade da escola. O feriado virou realidade. E a República?

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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Pobreza é uma questão coletiva


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Pobre é pobre porque quer”. A frase me corroía por dentro. Não saía da cabeça a polêmica afirmação (?!) de um jovem conhecido. Num boteco da rodoviária, observava o real em volta de mim. Os funcionários combinavam as escalas do fim de ano. Queriam uma chance para visitar os familiares. Torci para que eles conseguissem. Diziam que o patrão era duro na queda. Voltei àquela frase tão difícil de digerir.

Viajei. De repente, organizei alguns dados do PNUD, vinculado à ONU. Cerca de 1,57 bilhão de pessoas vivem em estado de “pobreza multidimensional”. Além de possuírem renda baixíssima (R$ 2,50 por dia, em média), não têm acesso à saúde e educação. Não têm perspectivas de qualidade de vida. Filosofei, na linha do politicamente incorreto, na moda hoje em dia: “É muita gente querendo ser pobre!”. Por outro lado, um banco suíço diz que os milionários representam 0,6% da população adulta do planeta. Cuspi: “É muito pouca gente querendo ganhar milhões!”.

Sobressaltado, brilhou-me uma recente lição. Temos a tendência a enxergar o mundo a partir das nossas sociabilidades. A transformar casos minoritários, excepcionais, em regras infalíveis – desde as nossas interações com a parte do mundo que nos cabe. Tendemos ao equívoco. Isso pode nos levar a desferir frases aparentemente certeiras. Mas que, na verdade, não passam de pré-noções cheias de irreflexão.

O balanço do ônibus fez pensar no movimento da vida. Na sua complexidade. Nas oportunidades que se distribuem por aí, de modo desigual. Bastante desigual. Sempre tive oportunidades na vida. A melhor maneira de agradecer a isso parece ser aproveitar as chances que a vida me deu, tentando construir oportunidades para mais pessoas. Num mundo em que competir e vencer é a lei maior, as evidências apontam que a pobreza é uma questão coletiva. Não é puramente individual.

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