ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

terça-feira, 8 de abril de 2014

Notas de uma vida barata

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Vivia uma vida barata. Num sentido mais amplo do que o econômico. De fato, uma vida distante de muitos luxos. Carros importados, hotéis e restaurantes requintados, baladas da moda ou apartamentos e casas gigantes estavam fora da rotina. Não tinha propriedades materiais significativas. Porém, não reclamava disso. Sempre teve oportunidades e as valorizava com vigor.

Na contramão das ideias dominantes, uma vida barata poderia ter as suas vantagens. Óbvio que não se tratava de uma vida miserável ou degradante. Dizia o poeta Belchior: “Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas”. Fazia isso mesmo. Lia muitos textos e livros. Alguns bons e ótimos. Outros não tanto. Dialogava com muitas pessoas. Experimentava sensações e sentimentos. Sempre que possível, relacionava-se com o sol. Quando eclodiam lindas chances, não vacilava e ia à praia. Interagia com o mar. Ah, o mar...

Trabalhava com vontade. Ainda bem. Num ofício que envolvia estudos, interação e muita reflexão. No auge daquela vida barata, direcionava-se à busca de alguma felicidade. Que não sabia definir. Mas que (sentia bater forte) objetivava-se nas pessoas, na Sociologia e na prática da escrita. Nesses meandros morava a alegria. Morada singela, tentava sempre adorná-la com equilíbrio e esperança. Seguia em frente.

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Experimentando simetrizações

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

É triste. Dá um baita desânimo. Ouvir as colocações das pessoas sobre a educação básica pública me deixa chateado. Sobretudo pelo fato de que quase todas têm razão. As críticas se traduzem em muitas das práticas nas escolas públicas. Há um cenário desolador.

Mas não quero me prender nas lamúrias. Quero pensar no que faço. No que tento fazer. Desanimado, não desisto – ainda. Aposto nos estudantes. Tento buscar nos seus contributos, naquilo que eles têm a dizer, um caminho para a troca de aprendizagens. Um pouco (bem pouco) na linha de algumas das características de uma simetrização proposta pela Antropologia de Bruno Latour*. A busca por seguir nos atos, nos acontecimentos, na sala de aula, os dizeres dos educandos sem entendê-los como “outros inferiorizados” no que tange a uma cosmopolítica do conhecimento.

Sigo, conforme Latour, para ali adiante abandoná-lo. Simetrizados os diálogos entre docente e discente, quando enuncio a partir de alguma Sociologia, trago ao acontecimento o acúmulo das Ciências Sociais. Experimento conceitos. Ainda tomando o cuidado de não fazer dos “outros” sujeitos inferiorizados. Mas, quem sabe, emaranhando saberes hierarquicamente considerados díspares. Para, quem sabe, afastar o desânimo que o contexto oferece.

* Para iniciar uma leitura do autor, sugiro a obra: LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica. São Paulo: Editoria 34, 2009.

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terça-feira, 1 de abril de 2014

Ditaduras, democracias e contradições


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Contradições incomodam e constituem a vida, ao mesmo tempo.

Ontem, problematizando ditaduras e democracias com os estudantes que comigo dividem seu tempo, alimentei um sopro de esperança. Além de facilmente distinguirem as formas de governo, rejeitarem modelos autoritários, repressivos e censuradores por excelência, ainda trouxeram contribuições aos dias atuais. Disseram: a democracia precisa se aprofundar, pois ainda há opressão.

Hoje, leio coisas por aí, na vastidão da internet. Deparo-me com uma série de “mas”, “porém” e “contudo”. Palavras interpostas em conversas sobre a Ditadura Militar. Vejo alguns falarem de DitaBranda. Vejo muitos reproduzirem a falácia rasteira de que se vivia às portas do comunismo em 1964. Vejo defesas de parlamentares que nem merecem ter os nomes citados, tacanhos e toscos que são. Tudo isso no emaranhado da grande mídia e das redes sociais.

Pelo menos hoje muitas vozes têm eco. Não só as vozes fardadas ou adeptas às fardas. Não só aquelas que teimam em tentar sepultar qualquer esperança de democracia profunda. Vozes dissonantes. Para que o silêncio não retorne traduzido numa voz única, opressiva ao extremo. Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

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