ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Tempo de viver

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Viver é oscilar entre o peso e a leveza da existência. Essa ideia não me sai da cabeça desde que li Milan Kundera pela primeira vez. Na constante busca por cultivar meus sonhos pelas manhãs, a primavera chega como um tambor pulsando alegrias na voz de Milton Nascimento.

Entre os perrengues íntimos e as mazelas de um país assombrado pelo carrego neofascista, é preciso manter o vigor e a chama da leveza. Oscilar, mas também se firmar. Entre dias, horas e semanas mobilizadas pelo trabalho e pelos estudos, é preciso intensificar amizades e afetos e não deixar a bola cair.

Aqui, nesse guichê-escriba, a bola, o futebol, o futevôlei e a altinha são algumas das coisas que fazem a cabeça, para além da labuta. Eu e você sabemos que o melhor que a gente tem na vida é feito de miudezas cotidianas. É viver ao lado das nossas gentes; a abelha fazendo o mel; a estrela cair do céu; e é lembrar que o sono alimenta de horizontes o tempo de viver.

O mar anda agitado, mas a gente insiste em nadar. Daqui a alguns dias teremos um grande desafio coletivo. Mesmo com o melhor dos resultados, o assombro vai permanecer. Ainda assim, na corda bamba, vamos adiante. Sabendo que tudo o que move é sagrado, e remove as montanhas com todo o cuidado, meu amor!

 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A América Latina e o giro decolonial

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Neste vídeo introdutório, eu apresento o artigo da prof. Luciana Ballestrin (UFPel), intitulado "América Latina e o giro decolonial".


A imagem da capa do vídeo foi desenhada pelo artista uruguaio Joaquín Torres García, em 1943, e leva o nome de "América Invertida".


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Regar meus sonhos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Já faz algumas semanas que o meu avô descansou. Talvez por estar enredado em tantas demandas externas, talvez por qualquer outra das tantas tretas do dia a dia, eu venho sentindo aos poucos tudo isso.

Em alguns meses, eu perdi as minhas duas avós e o meu avô. O tempo é implacável e a morte é a única lei absoluta da nossa existência. Para quem segue na batalha da vida, falar dos sonhos pelas manhãs ajuda a dilatar o tempo e imaginar um mundo novo.

É imaginando o passado nos domingos gelados na serra gaúcha ou nas temporadas quentes em Rainha do Mar que eu gosto de lembrar do Vô Nelson. É sentindo como se fosse hoje a mesa cheia de gente ao seu redor e a TV ligada anunciando o jogo do Inter horas depois da Fórmula 1.

Numa madrugada de insônia, visitei a casa da Beira-Mar 501 por imagens de satélite. Meu avô estava inteirinho lá. Estava na varanda cochilando e chamando minha avó. Também estava na horta colhendo rúcula e radicci. Andava por tudo fazendo pequenos consertos e chamava a todos para o jantar. A vida florescia próxima do oceano e banhada pelo Sol do sul do planeta.

Diz o poeta que esse mundo errado nos separou de nós, e que não se sabe mais reparar nas estações. Cultivando as pequenas coisas que nos constituem, vou lembrar sempre do Vô caminhando cedinho rumo ao mar, alegre com seus instrumentos de pesca. Com saudade daqueles dias, quero honrar tudo o que ele fez por mim, jamais deixando de regar meus sonhos pelas manhãs.