Bernardo
Caprara
Sociólogo e Professor
Sociólogo e Professor
O meu ano letivo ainda não acabou, mas a essa altura do
campeonato já sinto a necessidade de refletir sobre o que passou em 2015. Ao
invés de propor uma reflexão sobre algo geral, algo relacionado ao coletivo,
desta vez me cabe uma espécie de autoanálise. Penso em três pontos críticos do
meu trabalho de escrita e de sala de aula, em especial: a questão da
cientificidade; o viés político; e, não menos importante, a relação entre teoria
e prática.
O papel da ciência na produção do trabalho sociológico é algo
que, ainda que pareça um papel óbvio, está sempre posto em discussão. Seja de
modo particular, quando pesquisadores e estudantes de outras áreas não nos conferem qualquer
grau de rigor. Seja com um descrédito relativo à própria ideia de que é possível
a existência de um conhecimento que seja mais próximo daquilo que se costuma
chamar de verdade. Dessa segunda conclusão um horizonte enorme se abre. Enorme e
com consequências delicadas.
No embate entre saber que o uso de métodos associados ao rigor
teórico é, na investigação empírica das relações sociais, um caminho de produção
de conhecimento aprofundado, e a percepção de que outras leituras de mundo
constroem narrativas ricas que, vira e mexe, são fidedignas ao contexto em que
se desenvolvem, eu procuro fugir da história única. Encontro-me com a escritora
nigeriana Chimamanda N'Gozi Adichie, na medida em que identifico a história
única sobre um povo, ou mesmo, adiciono à fala da autora, um grupo social qualquer, como formadora de
estereótipos.
O problema dos estereótipos não é o problema de
que eles sejam mentirosos, mas é o grave problema de que eles se mostram incompletos. Sem dúvidas, vejo no método
científico o conjunto de procedimentos mais primoroso para a investigação do
mundo natural e social. Mas vejo que essa narrativa, tornada
hegemônica e hegemonizante, é também incompleta. Acaba por fechar janelas de
produções de conhecimentos mais "soltos" que podem, em determinadas
circunstâncias, expressar o que se passa na vida social com correspondência ao
que realmente se passa na vida social. Janelas que podem ser abertas pela literatura e por certas tradições orais.
Só que tem um detalhe delicado e perigoso nisso tudo. Frente ao
cotidiano real das sociedades modernas, centrais ou periféricas, marcado por
violências, desigualdades de oportunidades, opressões, enfim, tristezas
individuais e coletivas, frustrações de todas as estirpes, o poder se manifesta
também na produção e na circulação de histórias sobre si e sobre os demais.
Adichie aponta, nesse sentido, para um caminho que eu completaria com o
acréscimo daquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de habitus. A
noção precisa de que temos sistemas de disposições adquiridas, duráveis,
incorporadas e que se forjam sob dois tipos de capitais, o econômico e o
cultural.
Ora, num país como o Brasil, num ano como o de 2015, vimos que
a arena pública se configurou num vale-tudo de histórias únicas incorporadas, cujos habitus de classe dos seus protagonistas demonstram disposições para um enfrentamento bestial. Nessas histórias únicas há
fileiras de estereótipos, que trazem suas correspondências com a realidade, mas
que inundam a vida coletiva com as piores consequências da sua incompletude: a
polarização extremista e a continuidade cada vez mais fanática das histórias
únicas. Por outro lado, espalham-se histórias únicas que não correspondem nem de longe com o real, somente no intuito da difamação, do ataque ao inimigo discursivo.
Podemos ver isso na briga descontrolada entre coxinhas e petralhas. Se não deixa de ser verdade que os liberais ou neoliberais pelo
mundo muitas vezes estão de braços bem dados com regimes autoritários e
repressores, além de se mostrarem pouco preocupados com a exploração do trabalho
pelo capital, não obstante é verdade que a defesa das liberdades individuais e
dos direitos humanos compete, ao menos em tese, ao ideário de uma sociedade
justa, cuja garantia da dignidade não ficará apenas no papel.
Se não deixa de ser verdade que marxistas e/ou anarquistas pelo
mundo muitas vezes estão de braços bem dados com regimes autoritários e
repressivos, ainda que por premissa se mostrem preocupados com a exploração do
trabalho pelo capital, também é real que a pauta dos direitos e das garantias
constitucionais do indivíduo compete, ao menos em tese, a uma sociedade na qual
os bens e recursos escassos estarão justamente distribuídos.
Salta aos olhos a infertilidade da reprodução polarizada de
histórias únicas incorporadas através de um ódio de classe, além de racial,
misógino e homofóbico, o que remete, por sua vez, a uma resposta igualmente
permeada de incompletudes para com os outros, que distancia o entendimento claro
das coisas e torna tudo ainda mais nebuloso e violento. Há muito absurdo ganhando força e embasando justificativas injustificáveis. Aí o papel da ciência,
não castradora de diferentes linguagens capazes de iluminar nossos caminhos,
ciência cercada por um rigoroso tratamento teórico-metodológico das evidências,
se fortalece e ganha uma relevância ímpar.
Tenho consciência de que o método científico, o estudo
sistemático e minucioso, nada menos do que metódico, no que tange às relações
sociais, é uma estrada sem volta e fundamental para conseguirmos erguer e
sustentar o edifício de uma sociedade movida pela liberdade, igualdade e
fraternidade. Contudo, fazer ciência social, para mim, é uma tarefa pesada, demorada,
exaustiva e muito complexa. É um desafio constante que tenho tentado enfrentar
no âmbito acadêmico. Desafio teórico e metodológico.
No cotidiano, porém, eu me sinto incompleto se me mantenho
tentando encontrar na segurança do trabalho investigativo sistemático e de longo
prazo as únicas narrativas para comunicar e dialogar sobre o que estamos
vivendo. Sinto que a todo instante sou impelido a fugir da história única, a
fomentar algo mais do que a procura metódica da correspondência com o real
detalhado, classificado e organizado nos seus pormenores.
Tento narrar histórias múltiplas, tanto no formato, quanto no
conteúdo. Assim, jogo cartas perigosas, arriscando a cientificidade global do
conjunto do meu fazer sociológico. E me vejo precisando encarar o segundo ponto
desta autorreflexão, o viés político. Eis o tema para um próximo texto.
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