ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 2 (17)

América do Sul, Brasil,

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Resistir ao ódio

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na última quinta-feira, voltava da universidade em que trabalho, num ônibus de linha, junto com alunos e alunas. Cansado, consegui um banco para sentar, apesar de o coletivo partir bastante cheio do campus. No meio da viagem, dois rapazes sentados no banco à minha frente se mostravam um meme qualquer. Eram dois homens, brancos, entre os 30 e 40 anos. Olhavam rindo para alguns alunos localizados na parte da frente do ônibus, que conversavam alto sobre os textos que haviam lido na semana. Olhavam rindo e cochichavam alguma coisa.

De relance, sem querer, vi a frase final que estampava o meme no celular de um dos dois homens brancos: era o sobrenome de um pré-candidato à Presidência da República, cuja plataforma mobiliza o ódio contra negros, homossexuais, defensores dos direitos humanos e etc. Ao lado desse sobrenome, havia “2018 neles!”. A cena seguiu por mais algum tempo: olhavam para os estudantes de humanas, para o meme e gargalhavam e cochichavam. Aquilo me deixou nauseado, profundamente incomodado. Lembrei alguns alunos que passaram pelas minhas aulas, nas diferentes instituições que lecionei. Lembrei aqueles que faziam piadas grosseiras contra mulheres, gays e negros, e como se deixavam seduzir pela retórica do ódio, pela simbologia nazifascista e seus derivados.

Parece que caminhamos para uma nova encruzilhada histórica, porque tudo indica que estavam certos pensadores como Adorno e Foucault, por exemplo, quando alertavam para a persistência da semente fascista no “capitalismo democrático” ou na “pós-modernidade”. De fato, com fanáticos de extrema-direita, organizados em movimentos terroristas, o diálogo precisa dar lugar à resistência. Porém, com jovens que a tudo querem “zoar”, muitas vezes imersos em condições de vida degradantes, o diálogo paciente, a conversa atenta, a apresentação de outros caminhos e símbolos, todo um trabalho de base pode ajudar a quebrar a reprodução da barbárie. Mesmo assim, se a exploração do trabalho seguir na toada neoliberal e a vida perder de vez qualquer sentido, vai ser difícil superar o “inverno” que já é realidade.

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Fim de ciclo: Doutor em Sociologia


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia 17 de julho de 2017, na UFRGS, defendi a minha tese de doutorado em Sociologia, intitulada “Classes sociais e desempenho educacional no Brasil”. Pouco antes do veredito final da banca examinadora, considerando o trabalho aprovado e me atribuindo o título de doutor em Sociologia, um filme de 12 anos e meio passou pela minha cabeça, da primeira aula na graduação ao desfecho da pós. Na verdade, esse filme vai mais longe. Lembrei o moleque introspectivo que via os pais estudando nas horas vagas do trabalho, batalhando tardiamente para completar um curso superior. Lembrei o adolescente envergonhado, para o qual a escola era um baita problema, e ao mesmo tempo o ponto de encontro diário com a única coisa que fazia sentido: os amigos. Lembrei o jovem adulto que se dava conta de que o Jornalismo não era a sua praia, mas que dali poderia tirar bons ensinamentos. Lembrei o dia em que passei no vestibular para uma universidade federal, um sonho que jamais havia sonhado. Lembrei o jovem adulto encantado com as Ciências Sociais, lendo texto atrás de texto, juntando trocados para comprar livros e sedento pelas pesquisas e teorias que se lhe apresentavam. Lembrei o meu primeiro dia de aula como professor, na querida Barra do Ribeiro, completamente inseguro, mas cheio de vontade de fazer acontecer. Lembrei a proposta da minha querida orientadora, Prof. Dra. Marília Patta Ramos, na época em que entrei no mestrado, com o desafio de me dedicar a uma formação metodológica rigorosa. Lembrei muitas outras coisas. As alegrias. O amor. As festas. Os colegas. Os bons professores. Algumas aulas. Os amigos. A galera nada a ver. Os almoços e jantas no RU. As tristezas e sofrimentos. O antigo prédio de aulas do IFCH, assaltado pelo imperialismo da Letras. A antiga Toca e os embates no Fla-Flu. O CV. O Gnomos e a Estufa. A Hora Feliz. Cheguei até a lembrar das Catacumbas! Diante de tantas lembranças, diante do encerramento de um longo ciclo de 12 anos e meio, naqueles corredores do Campus do Vale, naquele lugar em que vivi tantas emoções e cresci tanto, fui me dando conta de que foi ali mesmo que comecei a gostar de estudar. Isso pode não ser tudo, mas para mim foi um divisor de águas, transformou a minha vida. E é por isso que continuo acreditando que a educação pública, gratuita e de qualidade não pode ser um privilégio para meia dúzia. A UFRGS vai me deixar saudades, mas a luta continua para que muitos outros e outras tenham acesso a oportunidades que possam transformar vidas.

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