ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

sábado, 15 de março de 2014

Pura alucinação

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Estranhei. Sem entender como, observava a humanidade através de um grande espelho. O universo de cada um estava na palma da sua mão. Sensores levavam os sons universais até os ouvidos. As pernas não serviam para nada. O transporte era todo realizado através de máquinas individuais. As pessoas viviam curvadas, contrariando o bipedismo. Quase ninguém se olhava.

Temi. Que triste realidade era aquela? Daquele jeito, ainda seríamos seres humanos? Então, fui tocado no ombro. Escutei a batucada à minha volta. Vi a alegria dos dançantes ao meu redor. Mais calmo, entendi: tudo não passou de uma grande alucinação. Pura alucinação.

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terça-feira, 11 de março de 2014

Do lixo, a vitória da esperança

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Era uma cidade maravilhosa. Cheia de bonitezas. Nas gentes, nos contornos naturais. Lá, como em vários lugares, os responsáveis por recolher o lixo produzido pela sociedade apenas sobreviviam. Pobres, constantemente humilhados, tratados como os objetos que recolhiam, eles e elas atravessavam a sua existência no planeta com muitas dificuldades. Mesmo assim, os principais cartões-postais da metrópole seguiam asseados no cotidiano.

Certa vez, o prefeito daquelas bandas aprovou uma lei que multava quem jogasse lixo no chão. Interessante. Chegou o carnaval. Amontoaram-se os turistas. O prefeito jogou lixo no chão e as câmeras captaram. Em paralelo, os servidores da limpeza resolveram não mais servir. Cruzaram os braços e pediram melhores condições. De vida, de trabalho, de remuneração. Bradaram por mais humanidade.

A mídia (que desinforma) berrou como um bebê. Os moradores dos bairros nobres espernearam. A repressão cresceu. O lixo também. “Mó vacilão esse prefeito! Tinha que ralá peito de lá, porra!”, ouviu-se pelas quebradas. A coisa ficou feia, suja e fedorenta.

Das ruas veio a vitória. Com mobilização, sem implodir a tudo e a todos. O salário dos garis aumentou. Vitória da esperança.

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quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma catarse chamada carnaval

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Já passava das quatro horas da manhã do primeiro domingo de março. Os Imperadores do Samba iniciavam o seu desfile no Complexo Cultural do Porto Seco. Das arquibancadas seguia a empolgação. Belo samba, uma apresentação contagiante. A dança e a cantoria dos presentes demonstravam que a escola tinha tudo para sagrar-se campeã. Sagrou-se.

Pensava. Pode-se gostar ou não de samba. Assim como de rock, funk, música clássica, futebol ou cinema. Contudo, há um discurso relativamente difundido que aponta ao carnaval uma característica deficitária do povo brasileiro. Uma espécie de farra contínua. O resumo dos males. Quase como se o carnaval indicasse uma falência de valores, esculpida em imoralidades aviltantes. Rasteiras e preconceituosas falácias.

No carnaval, seja competitivo, seja no estilo dos blocos de rua, há uma catarse que experimenta a inversão aberta das barreiras (essas, sim, mais contínuas) colocadas nos excessos que envolvem o corpo. Subsiste uma busca pela liberdade de fantasiar-se, cantar e dançar. Uma liberação da sexualidade sem muitos rodeios. Uma consagração da alegria, num curto espaço de tempo, em contraposição ao cotidiano de tarefas, razões e controles.

Estou nessa com o Roberto DaMatta, antropólogo carioca: “O carnaval cria uma cidadania especial no caso do Brasil. Cidadania que permite andar pelas ruas do centro comercial de nossas cidades com a roupa que quisermos (ou até mesmo sem roupa) e em pleno dia, sem a menor preocupação de sermos atropelados ou vistos por nossos patrões, pais ou amigos aristocráticos”. Ainda (bem).

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