ABORDAGEM ARTESANAL, CRÍTICA E PLURAL / ANO 3 (18)

América do Sul, Brasil,

segunda-feira, 5 de março de 2018

Entre Hobbes e Thoreau

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Retomando as atividades profissionais, depois de um detox imprescindível, mais conhecido como “férias”, não dá pra esquecer a situação desse Brasil de minhas Deusas. Daí que lembrei um TCC interessantíssimo que orientei há pouco tempo. A estudante, hoje licenciada em Filosofia, articulou a teoria contratualista de Thomas Hobbes com a desobediência civil pregada por Henry Thoreau.

Ao apresentar a fórmula da necessidade do Estado para Hobbes, ela mostrou que o medo e a insegurança extrema podem levar as pessoas a aderir ao absolutismo, delegando todos os poderes ao “soberano”. Só que, para isso, o “todo-poderoso” precisa garantir, de fato, a segurança dos indivíduos e suas propriedades. Se essa “troca” não se concretiza por parte do “soberano”, os “súditos” teriam alguma brecha para contestar o “contrato”.

Aí poderia entrar a desobediência civil proposta por Thoreau. Quase como um pressuposto moral do indivíduo, que não aceitaria apenas ceder a sua liberdade para um governo com plenos poderes, sem que fosse garantida, na prática, a contrapartida da segurança, desobedecer caracterizaria um ato de resistência legítima.

Duas matrizes de questões se sobrepõem: em primeiro lugar, mesmo que uma maioria esmagadora da sociedade brasileira estivesse disposta a ceder o que resta da sua liberdade em troca de segurança pessoal, está mesmo o Estado apto a cumprir a promessa? Suas instituições, que deveriam promover o mínimo de bem-estar, estão presentes com qualidade nas áreas mais vulneráveis do país? Estão trabalhando para ajudar a diminuir o abismo social que perdura há séculos por aqui? Suas forças de repressão oferecem segurança?

Depois, quais as estratégias válidas e eficazes de desobediência civil num contexto de concentração acentuada de riquezas, no qual borbulham fanatismos e autoritarismos? Poderíamos pensar a desobediência a partir do trabalho de base contra opressões e desigualdades, das práticas de economia colaborativa dispersas em ações de micropolítica ou mesmo da busca por consolidar uma espécie de “gestão comum” (compartilhada, horizontal, cooperativa) de determinados bens prioritários para o planeta e a espécie humana?

A primeira matriz de indagações parece ter respostas óbvias. Já a segunda pode indicar um caminho reflexivo para a proposição de uma nova utopia política, com a cara do século XXI, contra e para além da mercantilização de todos os aspectos da vida, e radicalmente democrática no respeito à diversidade e na horizontalidade das decisões que afetam a vida de todos nós. Uma tarefa e tanto.

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Sonhar é preciso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Perto de completar mais uma volta na Terra, fico sonhando acordado. Desperto para ler Fernando Pessoa, na figura de Álvaro de Campos: “Não sou nada. Não serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Venho sendo mais modesto. Há alguns anos, no meio da graduação, comentei com um colega, que já era professor: “meu sonho é dar aula num colégio estadual”. O rapaz sorriu amarelo, como se perguntando: “sério isso?!”.

Anos antes, meu sonho era ver o Internacional campeão. E, quem sabe, campeão dos campeões. Sonho sonhado por uma multidão, mas também pela futilidade de um jovem estudante. Sonho vivido de dentro, nas entranhas da catarse colorada.

Ainda muito antes, sonhei com várias pequenas coisas. Cultivar boas amizades, amar, viajar, ler discos e escutar livros, comer e beber bem. Também arrisquei ousar um pouco: sonhei em escrever diversas coisas, contar muitas histórias para diferentes públicos.

Sigo alimentando sonhos miúdos, utópicos, desacreditados pelas sociedades dominadas por valores de mercado. “Sonhinhos” que me fazem arregaçar as mangas e lutar para que eles, ao se realizarem (ou não), acabem dando lugar para novos rebentos "sonháticos".

O importante é não parar de sonhar. Seja com a igualdade e a liberdade para todos, com uma barraca e um café da manhã à beira da praia ou com uma sociedade feita de pessoas que gostem de ler, entendam o que leem e fomentem a leitura e a escrita.

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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Utopia e realidade

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No restinho de 2017, deixamos a Cidade da Bahia. Depois de passar pelo Sertão, chegamos à Chapada Diamantina. Ali, no Vale do Capão, deu pra sentir a conexão com uma vida utópica, em que conta mais o sentir do que o ter, e tudo parece fazer sentido.

Nessa toada de integração com a natureza, de humildade, solidariedade e alegria, subimos o morro rumo à Cachoeira da Fumaça. Na trilha, porém, o "líder" de um grupo de turistas, no auge da ladeira, cantarolava a plenos pulmões: "O Bope tem guerreiros, que matam guerrilheiros...". Aceleramos o passo.

A humanidade é mesmo complexa. Aquela aberração musical não constrangeu a nossa feliz trajetória. No fim de tarde, seguimos para outra cachoeira, batizada de "Angélica". Na estrada, meio perdidos, pedimos informação para uma pedestre qualquer. Acabamos oferecendo uma carona para a moça.

Elaine, natural de Palmeiras, uma cidade da região, mostrou o caminho e contou que estava indo trabalhar. Era seu dia de folga, mas a outra funcionária da pousada havia dado para trás. Bem naquele dia, aniversário de um dos filhos dela. De cara, ela contou que os R$ 70 que tirava por dia eram necessários, mas que a tristeza era grande por estar longe de casa naquele instante.

O pior estava por vir. Consternados, seguimos conversando. Elaine nos mostrou, então, a razão de a exploração do trabalho ainda ser uma pauta central, inclusive em lugares nos quais a utopia se confunde com a realidade. Disse a garota: "O pior é que os patrões são, tipo, formados em direitos humanos. Pra mim, se a gente se forma, a gente deve ajudar a melhorar a vida das pessoas. Faz o cálculo e vê quanto custa a minha hora de trabalho. Eu pego às seis e saio às 20h".

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